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Dom Bernardo Bonowitz, OCSO, prior da única casa trapista do Brasil, Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente, Paraná. Nasceu em Nova York, Estados Unidos em 1949, primogênito de família judia, de ascendência russo-polonesa. Seus estudos superiores foram feitos no Columbia College de Nova York, onde se formou em letras clássicas em 1970. Aos 18 anos converteu-se ao cristianismo, sendo batizado na Abadia Trapista de São José, Massachussets. Tenta ser monge trapista mas, de início, é recusado por ser extrovertido e estudioso demais. Ingressa então na Companhia de Jesus em 1973 e é ordenado sacerdote em 1979. Fez estudos na Alemanha para doutorado em teologia mística. Nunca abandonando a idéia da vida monástica, finalmente, em 1982, entrou na Ordem dos Trapistas (Cisterciences da Estrita Observância) em Spencer, no mesmo mosteiro onde foi batizado. Professou seus votos solenes em 1986 e, no mesmo ano, foi nomeado mestre dos noviços. Exerceu esta função até 1996, quando foi eleito prior do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo em Campo do Tenente, Paraná. Destacam-se entre seus escritos artigos sobre São Bernardo, Espiritualidade Monástica, a Regra de São Bento, Thomas Merton, De Rancé, e a tradução de dois estudos biográficos sobre Edith Stein. Tem conduzido retiros e proferido conferências e palestras em vários locais no exterior e em algumas cidades de nosso país. Desde 1999
Dom Bernardo faz conferências e prega retiros anuais no Rio de Janeiro,
promovidos pela Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton. |
SEMINÁRIO
1. Na cozinha de nosso mosteiro, assim como eu imagino na de vocês, há uma caixa em cima do balcão com saquinhos de chá mate. E lê-se no rótulo: "Use e abuse". Isto somente para indicar que mesmo as melhores coisas podem nos trazer problemas, fato este já conhecido nos tempos de Aristóteles que afirmava: "Corruptio optimi pessima". 2. No livro de Thomas Merton "A Oração Contemplativa", um de seus últimos trabalhos, ele trata dos "use" e "abuse" de uma das mais preciosas de todas as realidades: a vida espiritual, e mais particularmente, a oração. Por ela ser tão preciosa como um modo de nos unir a Deus e porquê seu abuso é potencialmente tão desastroso, como um modo de nos separar de Deus, Merton se dirige a seu público - tanto monges como leigos - com a combinação de zelo profético e intuição poética característica de seus melhores escritos. 3. Ele se baseia grandemente em suas citações de são João da Cruz, como ele faz freqüentemente, mas também faz numerosas referências à tradição mística do séc. XIV, tanto da Renânia (Tauler, Ruysbroeck) quanto da Inglaterra (Walter Hilton). 4. O que seria precisamente o abuso da vida espiritual? Reflexões sobre este tema nos círculos monásticos cristãos tiveram início já com Cassiano, no séc. V. No último livro de suas Instituições, Cassiano aborda a "paixão" do orgulho espiritual. Ela é - afirma ele - a principal e a raiz de todas as paixões/ vícios, mas ela só é percebida claramente uma vez que o homem espiritual tenha travado batalha com bom êxito contra todos os outros vícios. 5.
Orgulho espiritual, diz Cassiano, é a perversão da realidade
espiritual por fins egoístas. Há em todos nós, seres
humanos, um profundo desejo de instrumentalizar tudo - até mesmo
Deus - a fim de glorificarmos a nós mesmos, a fim de afirmar nossa
importância última. Desejamos instrumentalizar a Deus em
nossas buscas espirituais, possuí-Lo, a fim de que possamos ser
- ser eternos, ser independentes, não mais ser criaturas contingentes,
mas como seres auto-evidentes, necessários.
7. A maioria das pessoas não experimentará o orgulho espiritual conscientemente, ao menos não com plena força. Elas o experimentarão em sua forma oculta de "orgulho carnal" - como individualismo, falta de cooperatividade, ambição - e talvez elas não se dêem conta sequer disto. Mas se elas decidirem se lançar na batalha espiritual e se perseverarem nela, elas chegarão a esta última e pior batalha antes da puritas cordis - a batalha contra a tentação de sujeitar a Deus aos seus próprios propósitos. 8.
Na própria tradição cisterciense de Merton, este
orgulho espiritual é descrito como um desejo de ingerir a Deus
através do conhecimento - fazer de Deus o objeto final, mais fascinante
e deleitável de nossa quase infinita capacidade de compreender
a verdade. Evidentemente, o problema não é o desejo de conhecer
a Deus (que o próprio Deus coloca no coração e na
mente humana), mas o desejo de governá-Lo - tê-Lo, controlá-Lo
- através do conhecimento. Este modo medieval de descrever o orgulho
espiritual iria assumir sua forma mais dramática na história
de Fausto - o desejo de vender a própria alma a fim de conhecer
tudo, de conhecer o Tudo. Para os cistercienses, o atrativo, o risco e
a punição de tal orgulho estavam todos expressos no versículo
muitas vezes citados dos Provérbios: "Scrutator maiestatis
opprimatur a gloria" ("Aquele que busca penetrar os segredos
da divina majestade será esmagado pela glória divina").
10. Aqui vem a parte mais estranha, diz Merton. O homem espiritual moderno - seja ele monge ou leigo, cristão ou não-cristão - ao invés de usar proeza ascética ou conhecimento intelectual como a base para seu orgulho espiritual, tende a usar a oração para este fim. Oração, que por sua natureza é uma total auto-entrega nas mãos de Deus, pode ser a arma mais potente no arsenal que empregamos para rechaçar a Deus e persistir em nossa inautenticidade. A oração pode ser desenvolvida, ano após ano, década após década, como um modo de engrossar a casca de nosso individualismo até que finalmente nos tornamos quase inteiramente inacessíveis a Deus. A oração pode ser a mais potente arma a nos manter a salvo da vivência da realidade. 11.
Para Merton, monge trapista por quase três décadas, tal auto-ilusão
era um perigo profissional. Aqueles que estão familiarizados com
suas cartas e diários sabem como ele sofreu encontrando este tipo
de artificialidade espiritual (ele adorava usar a gíria "bogus"
para descrevê-la) em sua própria comunidade monástica
e sofreu ainda mais ao ver esta tendência em si mesmo. Por esta
razão, Merton, como muitos autores espirituais, fala do risco da
vida contemplativa "oficial". Muito mais segura a vida de tarefas
simples e oração no contexto de família, trabalho,
vizinhança; muito menor, no contexto das pressões das responsabilidades
interpessoais no "mundo real", a tentação de construir
e decorar-se como um santo monge, um santo esperando com segurança
a data de sua ascensão à glória. 13.
Se a oração é uma jornada ao centro do coração
e ao Deus que lá habita, nós podemos esperar que a jornada
seja dura. Como já foi dito, nós fugimos com toda a intensidade
de nosso medo e rebelião do nosso centro de dependência criada
que nós experimentamos como desgraça e miséria. E
de fato, em grande parte, o que há em nós é desgraça
e miséria, não porque Deus assim nos criou, mas porque falsificamos
o nosso ser. Quanto a isto, a oração será um verdadeiro
purgatório no qual passo a passo nós precisaremos deixar
que o conhecimento e o amor de Deus, na medida em que eles tomam conta
de nós, desfaçam as múltiplas e enodadas mentiras
que havíamos tramado. Como Mestre Eckhart diz: "Uma vez que
nos damos conta que tomamos uma direção errada e afastamo-nos
da estrada, a volta à estrada certa será tão longa
quanto o desvio feito". 15. Deus nos livre, diz Merton, que uma tal oração se transforme num "hobby", ou em algo chique, ou simplesmente numa maneira de alguém acalmar as próprias emoções perturbadas. Lidar com a oração deste modo seria análogo a uma recepção profana da Eucaristia (a comparação é minha, não de Merton). A imensa alegria, paz e paciência experimentadas pelo peregrino russo no texto bem conhecido do século XIX não vêm como resultado do aperfeiçoamento de sua técnica (Merton tem algumas palavras muito ríspidas a dizer a este respeito), mas porque o Senhor vivo Jesus Cristo penetrou no coração do peregrino através da prática perseverante da oração e o peregrino se regozija imensamente nesta inabitação. Assim, uma tal jaculatória, ao invés de ter seu valor em seu efeito calmante ou em sua capacidade de nos "preparar" para a contemplação, é a expressão lingüística da verdade de nosso ser: nossa necessidade de Deus, nosso desejo de Deus e de Sua vinda misericordiosa. 16.
Toda oração, de acordo com Merton, deveria ser, neste sentido,
meditatio. Que utilidade, diz ele, tem a salmodia, toda a grande construção
que nós conhecemos como Opus Dei, senão ser uma meditação
atenta da Palavra de Deus, sendo penetrados por ela, uma compunctio? Aqui,
mais uma vez, se a oração não for a honesta busca
angustiante (ou o alegre encontro) de Deus e de Sua misericórdia,
ela será um sedativo, uma maneira esteticamente agradável
de preencher as longas horas de lazer no dia monástico. Ele aponta
para a tradição do deserto, onde o Saltério, acima
de todos os outros livros da Bíblia, era aquele que dava expressão
aos medos e combates mais profundos do monge e oferecia a ele um vocabulário
através do qual ele podia vocalizar sua fome e sede do Deus vivo. 19.
Poderíamos, com Merton, afirmar que é aqui que a vida humana
realmente começa, vida "impávida". Agora em contato
com as águas vivas da vida de Deus, a pessoa de oração
possui interiormente o que Merton chama uma "participação
na caridade universal de Deus". Agora se torna possível -
natural - para ele viver de acordo com o Sermão da Montanha, perfeitamente
como seu Pai celeste é perfeito, perfeito no sentido que seu amor
flui para todos os seres humanos, para todos os seres sensíveis.
Tal pessoa experimenta agora que este amor evangélico, se ele pudesse
porventura ser descrito como um dever, era um dever impossível
antes que a morte e ressurreição de Cristo se realizassem
em sua vida, em sua oração. Como poderia o homem que se
definiu em oposição e contradição a Deus,
que rejeitou sua identidade de criatura, sempre sentir brotando de dentro
de si o amor indistinto do próximo (observe mais uma vez a ausência
de limites particulares)? É somente agora que a vida divina flui
desimpedida em sua consciência e liberdade de que ele é capaz
de amar a todos, abraçar a todos, no poder do Espírito Santo.
Aonde este amor ativo - ativo ao servir em qualquer vocação
que Deus nos tenha colocado - não é um desejo fundamental,
que gradualmente se transforma em toda a nossa orientação,
a oração - diz Merton - é deveras um ópio. |
Leia também, do mesmo autor: Ser
Monge Numa Sociedade Secular Vida
Contemplativa A
alegria que vem da Trapa Outras palestras
e homilias, no site do Mosteiro
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