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Padre José Carlos Veloso Junior, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, diretor do Seminário Propedêutico
da Arquidiocese de Curitiba, consultor do Insituto Ciência e Fé

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e
FEVEREIRO DE 2007

A TEOLOGIA NO BRASIL
NOS ÚLTIMOS TRINTA ANOS

Pe. José Carlos Veloso Júnior

A gênese do método da teologia da libertação

          Não se pode compreender a teologia brasileira sem procurar as raízes do nascimento do método da teologia da libertação. Porém, os resultados teológicos da "nova maneira" de fazer teologia são muito fragmentários, mais históricos e pastorais do que uma preocupação propriamente teológica. Por isso, os anos 60 precisariam de um estudo mais aprofundado sobre a recepção do Concílio Vaticano II e o tipo de abordagem recebida e desenvolvida na América Latina e, particularmente, no Brasil(1) . Por isso, a abordagem da formação de uma teologia da libertação no Brasil inicia-se com o estudo de Hugo Assmann e Leonardo Boff. Eles são os primeiros a fazer uma elaboração metódica da "nova maneira" de fazer teologia.

          Para isso, é preciso entender o contexto dos anos 60 e a falta de uma metodologia nova para a militância cristã. Nestes anos, a teologia tradicional católica estava longe da realidade e não respondia aos anseios e questionamentos existenciais do homem e da mulher concretamente. Por isso, a fé era caracterizada pelo excesso de dogmatismo que levava os cristãos a uma certa "passividade" diante da situação conflitiva do mundo, fazendo com que a opção em favor do instrumental histórico fosse necessário para a transformação da sociedade, mas esquecia do componente ideológico e utópico de tal opção e, principalmente, de suas raízes no racionalismo moderno que foi sendo absorvido indubitavelmente pela sociedade e pela ciência(2) nestes anos de chumbo.

          Porém, a novidade do Concílio Vaticano II, as novas experiências pastorais e a concepção utópica das ciências estimularam a busca de uma «nova maneira» de fazer teologia, que desembocou na teologia da libertação. No Brasil, os fundamentos epistemológicos desta corrente foram delineados por H. Assmann e Leonardo Boff.

          Hugo Assmann é um autor esquecido e abandonado no quadro da teologia da libertação do Brasil. Precisaria reconhecer as suas obras para entender a gênese da teologia da libertação e a sua passagem e evolução de uma teologia do desenvolvimento para a da revolução e, enfim, para a da libertação (3). A sua principal obra é escrita e publicada em espanhol: Teología desde la praxis de la liberación(4) . Ela é fruto de diversos artigos, que recolhem a sua experiência pastoral na Ação Católica Brasileira, na universidade e na partilha com os demais irmãos sacerdotes. Os textos de H. Assmann são esquemáticos, escritos de modo genérico e panorâmico, com imagens criativas e envolventes. O ponto de partida da teologia de H. Assmann é a práxis de libertação da América Latina, que se encontra em situação de dependência (5). A busca de libertação é a própria verdade, que se realiza nesta práxis. Assim, há uma identificação entre a práxis e a própria verdade. Pois, afirma que "o mundo e a sua verdade são a práxis mesma" e que a práxis se encontra no "fazer a verdade" (6). A transformação do mundo é unida intimamente à sua interpretação. Para H. Assmann, a categoria fundamental é a história, feita de acontecimentos, nos quais o homem busca a libertação e pela qual Deus se revela. Como a prática de Jesus é uma prática eficaz e gratuita, também a libertação é uma ação eficaz. Por isto, é tarefa da teologia levar em consideração estas libertações na história para desenvolver o seu próprio objeto.

          Portanto, a realidade da práxis provoca a teologia e busca a transformação do mundo. Deste modo, a teologia deve buscar instrumentos nas ciências humanas. Neste sentido, a teologia da libertação se define como reflexão crítica, que tem o seu ponto de partida na práxis de libertação e, por isto, emerge da análise da realidade para instaurar, num segundo momento, a construção teológica. Estruturalmente, o seu método se divide em três partes: análise da realidade, reflexão teológica, considerações pastorais (7).

          Leonardo Boff, em comparação com H. Assmann, possui uma produção literária muito mais ampla (8), porém a sua reflexão metodológica pode ser limitada principalmente às obras: Teología desde el cautiverio (9), A fé na periferia do mundo(10) , «A Salvação nas libertações» (Da libertação) (11), O caminhar da Igreja com os oprimidos (12) e na defesa da teologia da libertação com as obras Como fazer teologia da libertação?(13) e Teologia da libertação no debate atual (14),escritas juntamente com o seu irmão, Clodovis Boff.

          O conceito principal da epistemologia teológica de Leonardo é o processo de libertação (15). A libertação é um processo pelo qual se revela aquilo que era já presente em toda a história humana, porém emerge no agora da sua prática. A tarefa da teologia é fazer vir à luz este processo de libertação, que se manifesta na ambigüidade da vida, como devir da humanidade. Este processo historiciza o homem e cria as circunstâncias que o inserem no mundo. Assim, o homem somente é compreendido segundo a sua epocalidade, que se manifesta nas estruturas sócio-políticas. A teologia toma consciência desta realidade de dois modos: pela articulação sacramental e crítica. É no interno destas articulações, que acontecem os três passos do método teológico: análise da realidade – reflexão teológica – pistas pastorais. Esta é a novidade proposta por Leonardo, que durante o seu percurso reflexivo vai lentamente se modificando pela aproximação e o influxo da impostação metodológica de seu irmão, que o faz afastar-se de suas duas originais articulações: sacramental e crítica.

          Apesar dos vínculos de parentesco, de ideais sociais e teológicos, existem entre Leonardo Boff e Clodovis Boff várias diferenças no modo de fazer teologia(16). Embora Leonardo tenha marcado a obra de seu irmão com a preocupação com a realidade, com o seu modo de interpretação e de assumir a fé no mundo moderno, Clodovis segue uma orientação própria, mais epistemológica, que se reflete no conceito de autonomia e dependência das ciências, que instaura o Processo de Prática Teórica (17) e propõe o modelo de correspondência de relações para interpretação das Escrituras e da Tradição da Igreja (18). Com estas propostas epistemológicas e teológicas, Clodovis estabelece uma diferença entre ordem do real da Salvação e do saber, entre Salvação e Revelação, entre Fé e Teologia(19) , que não correspondem aos conceitos de Leonardo.

          Enfim, H. Assmann e Leonardo Boff instauraram as bases para a gênese do método da teologia da libertação no Brasil, em que partem da realidade da luta dos cristãos pela transformação social, tentando responder aos interrogativos profundos da sociedade e abrindo espaço para uma mudança metodológica na teologia.

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(1) B. Kloppenburg, O cristão secularizado. O humanismo do Vaticano II, Petrópolis 1971; G.F. de Queiroga, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: comunhão e corresponsabilidade, São Paulo 1977; P.S.L. Gonçalves, «A teologia do Concílio Vaticano II e suas conseqüências na emergência da teologia da libertação», in Gonçalves, P.S.L. – Bombonatto, V.I., ed., Concílio Vaticano II. Análise e prospectivas, São Paulo 2004, 69-94; J.B. Libânio «A trinta anos do encerramento do Concílio Vaticano II. Chaves teológicas de leitura», PerTeol 27 (1995) 297-332.
(2) H.C. de Lima Vaz, «Cristianismo e pensamento utópico. A propósito da teologia da libertação», Síntese 10/32 (1984) 5-19.
(3) H. Assmann, «Tarefa e limitações de uma teologia do desenvolvimento», Vozes 62 (1968) 13-21; Id., «La situazione dei paesi sottosviluppati come campo per una teologia della rivoluzione», in R. Gibellini, ed.,Dibattito sulla teologia della rivoluzione, Brescia 1971, 204-239; Id., «Verso un discorso unitario sulla teologia della liberazione», in G. Gutiérrez – R. Alves – H. Assmann, Religione oppio o strumento di liberazione? Milano 1972, 145-233; A.G. Rubio, Teologia da libertação: política ou profetismo? São Paulo 1977,69-75; 100-103.
(4) Obras de H. Assmann: são divididas em fase teológica (H. Assmann, «Tarefa e limitações», 13-21; Id., Teología de la liberación, Montevideo 1970; Id., Opresión-liberación. Desafío de los cristianos, Montevideo 1971; Id., Teología desde la praxis; Id., «La situazione dei paesi sottosviluppati», 204-239; Id., «Verso un discorso unitario», 145-233; Id., «Aspectos básicos de la reflexión teológica en América Latina. Evaluación crítica de la teología de la liberación» in P. Freire – al., Teología negra. Teología de la liberación, Salamanca 1974, 83-97; Id., «Medellín: a desilusão que nos amadureceu», in Cadernos dos CEAS 38 (1975) 51-57; Id., «Ponencia de Hugo Assmann»,in S. Torres – J. Eagleson, Teología en las Américas, Salamanca 1980, 339-343), econômica (Id., «Os trilateralistas sugerem uma chave de leitura para este livro: o Terceiro Mundo visto como ameaça» in H. Assmann – T. dos Santos – N. Chomsky, ed., A trilateral. A nova fase do capitalismo mundial, Petrópolis 19862, 7-15; H. Assmann – F. Hinkelamment, A ideologia do mercado. Um ensaio sobre economia e teologia, Petrópolis 1989; H. Assmann, Clamor dos pobres e “racionalidade” econômica, São Paulo 1990; Id., Desafios e falácias. Ensaios sobre a conjuntura atual, São Paulo 1991; Id., Crítica à lógica da exclusão. Ensaios sobre economia e teologia, São Paulo 1994) e pedagógica (Id., Paradigmas educacionais e corporeidade, Piracicaba 19942; Id., Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança, Petrópolis 2000; Id., Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente, Petrópolis 20002).
(5) H. Assmann, Teología desde la praxis; X. Miguélez, La teología de la liberación y su método. Estudio en Hugo Assmann y Gustavo Gutiérrez, Barcelona 1976, 40-44.
(6) H. Assmann, Teología desde la práxis, 73.
(7) H. Assmann, Teología desde la práxis, 50; 104-105.
(8) L. Boff, Die Kirche als Sakrament im Horizont der Welterfahrung. Versuch einer struktur-funktionalistischer Grundlegung der Ekklesiologie im Anschluß auf das II. Vatikanische Konzil, Paderbon 1972; Id., Minima sacramentalia. Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. Ensaio de teologia narrativa, Petrópolis 1975; Id., «O que significa propriamente o sacramento?», REB 34 (1974) 860-895; Id., «O pensar sacramental: sua estrutura e articulação (I)», REB 35 (1975) 515-541; Id., «O pensar sacramental: fundamentação e legitimidade (II)», REB 36 (1976) 365-402; Id., O evangelho do Cristo cósmico, Petrópolis 1970, 19-10; Id., Jesus Cristo Libertador. Ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo, Petrópolis 1972; Id., O destino do homem e do mundo. Introdução à teologia da vocação, Rio de Janeiro 1972; Id., A ressurreição de Cristo – A nossa ressurreição na morte, Petrópolis 1972; Id., Vida para além da morte. O futuro, a festa e a contestação do presente, Petrópolis 1973; Id., A graça libertadora no mundo, Petrópolis 1976; Id., Paixão de Cristo – Paixão do Mundo. O fato, as interpretações e o significado ontem e hoje, Petrópolis 1977; Id., Eclesiogênese. As Comunidades Eclesiais de Base reinventam a Igreja, Petrópolis 1977; Id., O rosto materno de Deus. Ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas, Petrópolis 1979; Id., A Ave Maria. O feminino e o Espírito Santo, Petrópolis 1979; Id., Igreja: carisma e poder. Ensaios de eclesiologia militante, Petrópolis 1981; Id., Vida segundo o Espírito, Petrópolis 1981; Id., Como pregar a cruz hoje numa sociedade de crucificados? Petrópolis 1984; Id., A Igreja se fez povo. Eclesiogênese: a Igreja que nasce da fé do povo, Petrópolis 1986; Id., A Trindade, a sociedade e a libertação, Petrópolis 1986; Id., A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, Petrópolis 1988; Id., Ecologia, mundialização e espiritualidade, São Paulo 1993; Id., Nova Era: a civilização planetária, São Paulo 1994; Id., Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, São Paulo 1995; Id., A águia e a galinha, Petrópolis 199824; Id., O despertar da águia. O dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade, Petrópolis 199910; Id., Saber cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis 1999; Id., A voz do arco-íris, Brasília 2000; Id., Tempo de transcendência. O ser humano como um projeto infinito, Rio de Janeiro 2000; Id., Princípio de compaixão e cuidado, Petrópolis 2000; L. Boff – M. Arruda, Globalização: desafios socioeconômicos, éticos e educativos, Petrópolis 2000. Sobre sua biografia: R. Gibellini, ed., La nuova frontiera, 156-158; B. Mondin, I teologi, 115; L. Boff, «Teologia sob o signo da transformação», in L.C. Susin, ed., O mar se abriu. Trinta anos de teologia na América Latina, São Paulo 2000, 233-240.
(9) L. Boff, Teología desde el cautiverio, Bogotá 1975; Id., Teologia do cativeiro e da libertação, Petrópolis 19802; L. Boff, «¿Qué es hacer teología desde América Latina?», in E.R. Maldonado, ed.,Liberación y cautiverio. Debates en torno al método de la Teología en América Latina, México 1975, 129-154; Id., «Que é fazer teologia partindo de uma América Latina em cativeiro?», REB 35 [1975] 853-879; Id., «Theologie der Befreiung – die hermeneutischen Voraussetzungen», in K. Rahner – C. Modehn – H. Zwiefelhofer, ed., Befreiende Theologie. Der Beitrag Lateinamerikas zur Theologie der Gegenwart, Stuttgart –al. 1977, 46-61; Id., «A hermenêutica da consciência histórica da libertação», GSi 28 (1974) 33-47; Id., «Teologia como libertação», GSi 28 (1974) 107-121; Id., «Libertação como teologia», GSi 28 (1974) 200-208; Id., «O que é propriamente processo de libertação?», GSi 28 (1974) 281-301; Id., «Teologia da captividade. A anti-história dos humilhados e ofendidos», GSi 28 (1974) 355-368; Id., «Ainda a teologia da captividade», GSi 28 (1974) 426-441; Id., «Como compreender a libertação de Jesus Cristo?», GSi 28 (1974) 509-527; Id., «Libertação de Jesus Cristo pelo caminho da opressão», GSi 28 (1974) 589-615; Id., «Vida Religiosa no processo de libertação», GSi 28 (1974) 686-698; Id., «A Igreja no processo de libertação», GSi 28 (1974) 758-775.
(10) L. Boff, A fé na periferia do mundo, Petrópolis 1978.
(11) L. Boff, «A Salvação nas libertações. O sentido teológico das libertações sócio-históricas», in C. Boff – L. Boff, Da libertação. O sentido teológico das libertações sócio-históricas, Petrópolis 19802, 9-65.
(12) L. Boff, O caminhar da Igreja com os oprimidos. Do vale de lágrimas à terra prometida, Rio de Janeiro 19812.
(13) L. Boff, Como fazer teologia da libertação, Petrópolis 19863.
(14) C. Boff – L. Boff, Teologia da libertação no debate atual, Petrópolis 19853.
(15) L. Boff, Teologia do cativeiro, 13-26; 73-82.
(16) J.C. Veloso Jr., Ver, julgar e agir, 69-72.
(17) C. Boff, Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações, Petrópolis 1978,144-150.
(18) C. Boff, Teologia e prática, 262-267.
(19) C. Boff, Teologia e prática, 175-195.


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Introdução

1ª Parte
A questão da "nova maneira" de fazer teologia

2ª Parte
A gênese do método da teologia da libertação

3ª Parte
O desenvolvimento da teologia da libertação

4ª Parte
O debate teológico chega à sociedade

5ª Parte
A sociologia e o projeto sistemático da teologia da libertação

Conclusão

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