Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks

 



Padre José Carlos Veloso Junior, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, diretor do Seminário Propedêutico
da Arquidiocese de Curitiba, consultor do Insituto Ciência e Fé

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e
FEVEREIRO DE 2007

A TEOLOGIA NO BRASIL
NOS ÚLTIMOS TRINTA ANOS

Pe. José Carlos Veloso Júnior

O debate teológico chega à sociedade

          O pensamento destes três autores – H. Assmann, Leonardo e Clodovis Boff – foi recebido pelos demais teólogos brasileiros (1), bem como repercutirá no Magistério local e universal sendo ao menos, parcialmente, acolhido como uma contribuição positiva (2). Este debate concentra-se sobre dois temas importantes da pesquisa: a análise da realidade para a elaboração da teologia e a constituição de uma teologia a partir da realidade.

          O primeiro problema refere-se aos aspectos contextuais da análise da realidade e de suas variantes para compreender uma sociedade edificada contemporaneamente sobre o conflito social e sobre a fé católica, que impulsiona a buscar uma solução política. As variações são ditadas pela influência da descoberta do valor da história, da repercussão das filosofias modernas e da ideologização(3) . Estes fatores agem sobre a realidade social e devem ser considerados pelos teólogos na sua análise, ao fazerem propostas de discussão do tema.

          A recepção dos teólogos brasileiros a respeito da «nova forma» de fazer teologia é diversificada. Hubert Lepargneur faz uma crítica séria e profunda. Declara que a teologia da libertação deve sair do seu provincialismo e superar o condicionamento determinado pela história e pela cultura. Sinteticamente, escreve que a teologia da libertação deve alargar as suas dimensões ao passado – ao fenômeno universal e histórico de opressão e estruturando-se mais profundamente –, à interioridade situando o fenômeno ao nível espiritual –, ao horizonte presente – olhando a complexidade do mundo –, e ao futuro – abrindo-se à escatologia (4). Alfonso García Rubio afirma duas finalidades da reflexão epistemológica na América Latina: a desideologização do cristianismo (finalidade negativa) e a pretensão de oferecer um serviço de discernimento para os cristãos nas situações de opressão (finalidade positiva) (5).

          O tema da contextualização da realidade foi aprofundado principalmente por João Batista Libânio. Ele tenta fazer uma avaliação da teologia da libertação, verificando a sua pertinência e o seu rigor teológico (6). Anteriormente, propusera um modelo processual que tocava as questões do uso das mediações sócio-analíticas. A partir de tal modelo, o autor elabora um método para a formação da consciência crítica que, apesar de ser fundado sobre o método ver-julgar-agir, é mais amplo e se abre para outras dimensões da vida: filosófico-cultural, sócio-estrutural e psicopedagógica. Ressalta o valor da filosofia e da cultura, para a compreensão da vida e da história, segundo as diversas mentalidades do momento objetivo, subjetivo e social-dialético, focalizado sobre quatro relações: com Deus, consigo mesmo (eu), com o mundo e com o social. Analisa o círculo ideológico, a estrutura social e a necessidade de instrumentos de leitura da realidade. Enfim, propõe subsídios psicopedagógicos capazes de oferecer ajuda no conhecimento da realidade e de superar, principalmente, os obstáculos psicológicos(7) .

          O segundo tema descreve uma análise dos aspectos religioso-teológicos da realidade. Apresenta o conceito de teologia no Brasil, os seus métodos e o diálogo interdisciplinar caracterizado pela influência da hermenêutica(8) . Enfim, este aprofundamento quer mostrar o significado, a necessidade e importância de estabelecer a especificidade própria teologia, recolhendo mais informações que sínteses, sobre a discussão teológica no Brasil(9).

Continua. Clique aqui.


(1) F.A. Pastor, O Reino e a história. Problemas teológicos de uma teologia da práxis, São Paulo 1982; Id., Semântica do mistério. A linguagem teológica da ortodoxia trinitária, São Paulo 1982; Id., La lógica de lo inefable. Una teoría sobre el lenguaje del teísmo cristiano, Roma 1986; Id., «Emancipação histórica e reflexão teológica. Considerações sobre a “teologia da libertação”», PerTeol 10 (1978) 20-21; Id., «Deus e a práxis. Consenso eclesial e debate teológico no Brasil», PerTeol 17 (1985) 179-200; F. Taborda, «O que é ideologia», in Id., Cristianismo e ideologia. Ensaios teológicos, São Paulo 1984, 92-96; Id., «Puebla e as ideologias», in Id., Cristianismo e ideologia. Ensaios teológicos, São Paulo 1984, 99-120; Id., «Igreja, sociedade e política», PerTeol 15 (1983) 9-43; Id., «Métodos teológicos na América Latina», PerTeol 19 (1987) 293-319; J.B. Libânio, Evangelização e libertação. Reflexões aplicadas à Vida Religiosa, Petrópolis - Rio de Janeiro 1975, 154-197; Id., Discernimento e política, Petrópolis – Rio de Janeiro, 1977, 66-82; Id., Pastoral numa sociedade de conflitos, Petrópolis 1982; Id., Fé e política. Autonomias específicas e articulações mútuas, São Paulo 1985; Id., Teologia da libertação. Roteiro didático para o estudo, São Paulo 1987, 173-175; Id., «Evangelização e ideologia», Convergência 8 (1975) 623-635; Id., «O profético e o político. Sua referência aos Direitos Humanos», REB 37 (1977) 41-75; Id., «Teologia no Brasil. Reflexões crítico-metodológicas», PerTeol 9 (1977) 27-79; M. de França Miranda, Libertados para a práxis da justiça. A teologia da graça no atual contexto latino-americano, São Paulo 1980; Id., «Teologias em tensão no Brasil (Breve reflexão sobre suas causas)», PerTeol 15 (1983) 45-53; Id., «Discernimento cristão e contexto sócio-político», PerTeol 19 (1984) 166-174; Id., «A situação da teologia no Brasil hoje», PerTeol 19 (1987) 367-376; A. Antoniazzi, «Enfoques teológicos e pastorais no Brasil hoje», in J.B. Libânio – A. Antoniazzi, Vinte anos de teologia na América Latina e no Brasil, Petrópolis 1994, 97-160; H. Lepargneur, Teologia da libertação. Uma avaliação, São Paulo 1979; A.G. Rubio, Teologia da libertação: política ou profetismo? São Paulo 1977.

(2) Ioannes Paulus Pp. II, «Litterae encyclicae Sollicitudo rei socialis» 578-584; Id., «Ad quosdam Brasiliae»  1043-1044; Id., «Carta de João Paulo II a seus Irmãos no Episcopado», 400-401; Congregatio pro Doctrina Fidei, «Instructio Libertatis nuntius», (06.08.1984), AAS 76 (1984) 876-909; Id., «Instructio Libertatis conscientia», (22.03.1986), AAS 79 (1987) 554-599.
(3) J.C. Veloso Jr., Ver, julgar e agir, 229-313.
(4) H. Lepargneur, Teologia da libertação, 167-171.
(5) A.G. Rubio, Teologia da libertação, 111.
(6) J.B. Libânio, Teologia da libertação, 7-11.
(7) Estes livros de J.B. Libânio (J.B. Libânio, Formação da consciência crítica, 1. Subsídios filosófico-culturais, Petrópolis 19844; Id., Formação da consciência crítica, 2. Subsídios sócio-analíticos, Petrópolis – Rio de Janeiro 1979; Id., Formação da consciência crítica, 3. Subsídios psicopedagógicos, Rio de Janeiro 1982) serão criticados por L.B.L. Araújo pelo uso mecanicista e processual do método (L.B.L. Araújo, «Considerações sobre o termo “paradigma”», in M. Fabri dos Anjos, ed., Teologia e novos paradigmas, São Paulo 1996, 15-33).
(8) L. Boff, «A hermenêutica da consciência», 33-47; J.B. Libânio, «Teologia e hermenêutica», Atualização 7 (1976) 917-937; Id., Teologia da libertação, 117-171; C. Boff, Teologia e prática, 238-271.
(9) J.B. Libânio – A. Murad, Introdução à teologia. Perfis, enfoques e tarefas, São Paulo 1996; C. Boff, Teoria do método teológico

< voltar

 

Introdução

1ª Parte
A questão da «nova maneira» de fazer teologia

2ª Parte
A gênese do método da teologia da libertação

3ª Parte
O desenvolvimento da teologia da libertação

4ª Parte
O debate teológico chega à sociedade

5ª Parte
A sociologia e o projeto sistemático da teologia da libertação

Conclusão

Página Inicial