![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| |
|
|
|
|
|
Alzeli Bassetti é vice-presidente do Instituto Ciência e Fé |
Opinião Alzeli Bassetti
Polêmica que remonta a Celso, filósofo pagão do século II, exacerbado crítico anticristão, e que perdura aos tempos atuais. Desde priscas eras até a contemporaneidade, das escolas pagãs do Império Romano às universidades mais avançadas de agora, a atenção prioritária dos exegetas se mantém sobre a comunidade primitiva e a visão própria que ela porventura teria dado aos fatos. Não são poucos os que manifestam-se incrédulos por não terem conseguido aceitar as diferenças entre o Jesus da História e o Cristo da Fé, apresentado no Novo Testamento. As dimensões desse fosso entre o que seria autêntico e o que seria forjado permanecem tão suspeitas quanto inexatas. A questão permanece de vez que realidade histórica e relato evangélico subsistem apesar dessa fratura, que, considerando a exigência científica, não deve em absoluto colocar em crise a fé. Ao contrário, a fé deve ser colocada a salvo, em resistência ao ceticismo moderno. Escolas como a Formgeschichtliche Methode – Método da História das Formas -, que busca a reconstrução histórica da Tradição, ou seja, a pré-história dos evangelhos, não abriu mão da colaboração da comunidade dos crentes. O líder radical dessa escola alemã, Rudolf Bultmann, apresentou estudos sobre os conteúdos do Novo Testamento excluindo incisivamente qualquer possibilidade de que eles contivessem algo histórico real sobre Jesus. A partir dessa premissa, Bultmann classifica a comunidade primitiva de "anônima, confusa e criadora de mitos". Para ele, o Jesus histórico é desconhecido por todos, daí resultando inócua qualquer possibilidade de alguém vir a conhecê-lo um dia. De concreto, o alemão admite a firme fé que caracterizou a Igreja cristã primitiva. Uma fé tão arraigada e poderosa que teria chegado ao ponto de lamentavelmente elaborar um personagem histórico segundo as exigências comunitárias circunstanciais. Um dos seguidores de Bultmann, Oscar Cullmann, depois acabaria divergindo do mestre e colega sobre as teorias negadoras da historicidade do evangelho, optando por acatar a Tradição. Outros peritos em decodificação dos evangelhos são contraditados por Lucas, em especial no que tange à hebraicidade de Jesus e dos discípulos. Bultmann e seguidores enfatizavam que o Filho de Deus não era cristão e sim somente hebreu, inteiramente inserido na tradição de Israel. Radicalizações superadas porém, é verídico que o cristianismo tenha nascido historicamente através de uma corrente interna do hebraísmo, tornando essenismo e cristianismo irmãos de mãe – ou parentes de um mesmo tronco familiar – embora sejam notáveis e marcantes as diferenças e os destinos de ambos. Sobrepassando a fé, permanecendo no patamar histórico, Jesus foi mesmo um dos rabis andarilhos, um dos peregrinos profetas que lavraram forte presença na tradição judaica. Conseqüentemente, foram os discípulos e as testemunhas oculares que colheram e transmitiram ensinamentos dele, conforme havia sucedido com outros líderes, mestres e profetas: do Antigo Testamento, do Talmude, do Mishná, das literaturas hebraica e islâmica, as quais viveram bastante tempo estribadas no estágio oral antes de serem escritas. Atos, palavras, ensinamentos dos mestres eram confiados à transmissão metódica e supervisionada, verdadeiras bibliotecas vivas à disposição dos discípulos e demais interessados. Não é pois de estranhar que, ao redor do Mestre, houvesse se formado uma escola rabínica, antes e depois da morte dele. Quando os discípulos foram mandados pregar antes da Paixão, objetivavam o ensinamento memorizado. Assim, a comunidade estava não somente motivada mas também controlada para conservar a tradição das ipsissima verba, as mesmíssimas palavras do rabi Jesus. O Sitz in Leben dos biblistas alemães – ambiente no qual os evangelhos floresceram – está descrito nos Atos dos Apóstolos. Estes, quer em casa quer no templo, ensinavam diuturnamente, pregando efusivamente que Jesus era o Cristo. Todos esses fatos inegáveis contrariam as suspeitas sobre uma suposta comunidade anárquica e fabuladora, oriundas de uma sistemática crítica incrédula. A oralidade da palavra falada sobre a escrita prevaleceu, independente de quaisquer vontades ou suspeitas. Aliás, essa era uma das características ambientais da região, em que fiéis pobres, impotentes para comprar livros, ou analfabetos decoravam partes ou mesmo a totalidade do Torá e do Corão e de outros textos de fé. Corão significa recitação. Nem Maomé nem seus discípulos se preocuparam em colocá-lo na forma escrita. O que somente veio a ocorrer após as respectivas mortes, quando o Corão passou a circular em poucas cópias, guardadas a sete chaves, como garantia a um eventual esquecimento. A via mnemônica persistiu como mais comum e mais viável, com exatidão espantosa, conforme comprovam alguns velhos muçulmanos. A ciência inclusive vem propagando que as capacidades mnemônicas são tanto mais desenvolvidas quanto mais o discípulo é analfabeto. Quem lê através dos livros, confia neles, sem esforço algum dispendido para decorar. Já foi ventilada a hipótese bastante provável que a escolha de Jesus por alguns apóstolos iletrados corresponderia, além das motivações religiosas pela exaltação dos simples, também à necessidade de poder contar com bons memorizadores, fiéis transmissores de seus postulados. Gerhardsson, exegeta da escola escandinava, assegura que a tradição evangélica ligada a Jesus de Nazaré ofereça garantia de qualidade e fidelidade histórica, não somente nas palavras de Jesus mas também e sobretudo nas lembranças sobre ele. Cristo é cósmico, livre, sem proprietários, sem amarras. O que importa é a qualidade da fé. Assim foi, é e tem sido através dos tempos. |
|