Evaristo
Eduardo de Miranda é doutor em ecologia, pesquisador da
Embrapa, autor do livro "Animais Interiores - A Ecologia Espiritual
dos Voadores" pelas Edições Loyola.
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S E T E M B R O D E 2 0 0 3
O
tamanho da arca de Noé
Evaristo
Eduardo de Miranda
A arca de Noé poderia ter sido pequena e o seu trabalho bem menor.
Se Noé visse a natureza com olhos utilitaristas, teria se limitado
a salvar animais que lhe serviam diretamente como bois, galinhas, cavalos,
cachorros e algumas outras espécies. Mas não. Noé
não foi tão antropocêntrico. Não pensou apenas
nas necessidades humanas. Toda Criação foi salva da extinção,
independentemente de qualquer consideração sobre sua utilidade
ou não para o homem. Na tradição judaico-cristã,
Noé e outras passagens da Bíblia ensinam a necessária
transformação do Caos em Cosmos, preservando harmonia e
diversidade. A visão de uma determinada cultura, grupo ou pessoa
- sobre o que deve ou não ser preservado na natureza - é
sempre parcial e limitada.
Um exemplo: o AZT, importante medicamento no tratamento da AIDS, foi descoberto
no espermatozóide de um peixe, hoje extinto em muitos lugares e
ameaçado de extinção em outros. Caso esse peixe tivesse
desaparecido, como seria possível dispor desse medicamento? Outro
exemplo: a maior parte das três mil substâncias vegetais,
testadas atualmente nos Estados Unidos no tratamento do câncer,
vêm da floresta tropical que continua sendo destruída. Exemplos
como esses são numerosos. Deveriam abrir os olhos de quem só
concede direito de existência a seres que "possam servir para
alguma coisa". Não sabemos o que a natureza nos reserva. A
prudência recomenda uma preservação dos ecossistemas
menos utilitaristas.
Para a tradição católica a natureza é um território
do sagrado. A natureza é uma das manifestações mais
extraordinárias do amor de Deus. Deus serve-se da natureza, que
pode existir sem o humano, enquanto o contrário não é
verdade. A história sagrada vive de epifanias, mas também
de litofanias, hidrofanias, zoofanias e fitofanias. Deus manifesta-se
nas rochas, nas águas, nas plantas e nos animais. É bonito
ver Nossa Senhora aparecendo em grutas, junto a fontes de água
em Lurdes, emergindo do leito do rio Paraíba no Brasil, repousando
sobre árvores em Fátima etc.
Ao contrário da nova era, que prega um neopaganismo panteísta,
onde tudo seria Deus, tudo seria parte do divino, a doutrina cristã
ensina que Deus é o começo, o meio e o fim da criação.
Como ensinou São Francisco de Assis, todos os seres vivos têm
uma mesma origem, participam da mesma corrente de vida e isso gera uma
fraternidade entre as criaturas, muito além da ordem moral.
Não é verdade que o monoteísmo judaico-cristão
não deu importância às questões ambientais,
à vida animal e vegetal. Ler o texto bíblico é caminhar
entre animais. Os mitos dos animais na arca de Noé ou da serpente
falante do jardim do Éden (1), por
exemplo, são fundadores de comportamentos individuais e sociais
até os dias de hoje. Mais do que história, fazem parte da
meta-história, sempre atual. As metáforas animais são
utilizadas amplamente na Bíblia, em fábulas e parábolas,
para ilustrar ensinamentos éticos, morais e religiosos. São
episódios como o do burro falante de Balaão (Nm 22), o de
Jonas, no ventre da baleia (Jn 2) ou ainda o dos pontualíssimos
e dedicados corvos padeiros e açougueiros, alimentando o profeta
Elias, Eliahú (2) (1Rs 17,6).
O próprio Jesus nasceu num estábulo, cercado de animais,
e vai citar aves dos céus, galinhas, raposas, jumentas e jumentinhos,
galos, peixes, corvos, cães, porcos, abutres, águias e outros
animais em seus ensinamentos. O livro da Revelação, o Apocalipse
de João, está repleto de animais, reais e imaginários.
A literatura farisaica (3) , o Talmude (4)
e o Midrash (5) principalmente, e a tradição
cristã, desde os Padres da Igreja (6)
até os bestiários da Idade Média (7),
deram grande valor aos ensinamentos éticos e morais, a partir das
vidas dos animais. Os comportamentos dos mais diversos animais são
modelos e inspiração para sábios e santos. Além
de pura contemplação do divino, através da obra da
criação, da "atmosfera ornada de pássaros (8)
" nos dizeres da doutora da Igreja, Catarina de Siena (9)
.
A superação do antropocentrismo não implica na adoção
de um biocentrismo, hoje contagiante em muitas esferas da sociedade, junto
com a mensagem de defesa do meio ambiente e as ideologias da nova era.
Viver em harmonia com a natureza não significa viver como os animais,
mas com os animais. Devemos ultrapassar a antinomia do cartesianismo que
negava qualquer valor intrínseco aos seres da natureza e a dos
ecologistas que tomam a biosfera como o único e autêntico
sujeito de direito. A biosfera no seu conjunto é também
o vírus da AIDS, da paralisia infantil, o cólera e as aves
do céu. Da mesma forma que o homem foi capaz de eliminar para sempre
o vírus da varíola, inclusive da maioria de seus laboratórios
de pesquisa, é chegada a hora de impor limites ao intervencionismo
da tecnociência no ambiente natural. A Igreja sempre repensou nosso
lugar e o lugar dos homens no planeta em função da unidade
original de todas formas de vida. Essa unidade inicial deveria gerar também
uma unidade de destinos, unindo imortalidade e eternidade. Principalmente
para os cristãos para quem tudo o que marca de forma indelével
a humanidade estará presente no mundo da ressurreição,
no reino dos céus e no paraíso.
1 Éden (ain-dalet-nun),
em hebraico, significa delícia.
2 O nome é uma
repetição do nome de Deus sob duas formas: El e Iahú.
Significa: Deus é Deus.
3 Rabi Meir bar Ness,
por exemplo, a partir de seu contato com a literatura latina e grega,
foi o grande escritor de fábulas do Talmude. Para ele, as fábulas
envolvendo animais podiam ser um instrumento de edificação
da moral e da espiritualidade de seus discípulos. Conhecia mais
de 300 fábulas. Seus atos de amor e benevolência para com
os pobres granjearam-lhe o epíteto de "Senhor do Milagre".
4 Do hebraico Talmude,
estudo, ensino. Essa enciclopédia judaica reúne a doutrina
e jurisprudência da lei mosaica, com explicações
dos textos jurídicos da Torá (Pentateuco) e a Mishná,
a jurisprudência elaborada pelos comentadores e sábios
judeus entre os séculos III e VI.
5 Eliane Ketterer &
Michel Remaud, O Midraxe. Paulos, São Paulo, 1996.
6 Jacques Liébaert,
Os Padres da Igreja. Loyola, São Paulo, vol 1: 2000. vol 2: 2002.
7 Raimundo Lúlio,
Livro das bestas. Loyola, São Paulo, 1990.
8 Catherine de Sienne,
Le dialogue. Cerf, Paris, 1999.
9 Catarina Bebincasa nasceu
em Sena (Itália), em 1347, e morreu em Roma em 29 de abril de
1380, com 33 anos. Personalidade extraordinária, teve um papel
crucial na vida da Igreja, levando o papa Gregório XI a retornar
de Avignon para Roma. Dominicana desde a idade de 16 anos, reuniu em
torno de si uma comunidade de discípulos atraídos por
sua vida de oração e penitência. Favorecida por
graças místicas, marcada pelos estigmas da paixão
de Cristo, Catarina ditou seu livro Diálogo, fruto de seus colóquios
com Deus, dividido em quatro tratados. Deixou uma enorme correspondência.
Trabalhou pela restauração da paz e da unidade da Igreja.
Foi declarada doutora da Igreja, junto com Teresa d´Ávila.
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