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Evaristo Eduardo de Miranda é doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa, autor do livro "Animais Interiores - A Ecologia Espiritual dos Voadores" pelas Edições Loyola.


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O tamanho da arca de Noé

Evaristo Eduardo de Miranda


A arca de Noé poderia ter sido pequena e o seu trabalho bem menor. Se Noé visse a natureza com olhos utilitaristas, teria se limitado a salvar animais que lhe serviam diretamente como bois, galinhas, cavalos, cachorros e algumas outras espécies. Mas não. Noé não foi tão antropocêntrico. Não pensou apenas nas necessidades humanas. Toda Criação foi salva da extinção, independentemente de qualquer consideração sobre sua utilidade ou não para o homem. Na tradição judaico-cristã, Noé e outras passagens da Bíblia ensinam a necessária transformação do Caos em Cosmos, preservando harmonia e diversidade. A visão de uma determinada cultura, grupo ou pessoa - sobre o que deve ou não ser preservado na natureza - é sempre parcial e limitada.

Um exemplo: o AZT, importante medicamento no tratamento da AIDS, foi descoberto no espermatozóide de um peixe, hoje extinto em muitos lugares e ameaçado de extinção em outros. Caso esse peixe tivesse desaparecido, como seria possível dispor desse medicamento? Outro exemplo: a maior parte das três mil substâncias vegetais, testadas atualmente nos Estados Unidos no tratamento do câncer, vêm da floresta tropical que continua sendo destruída. Exemplos como esses são numerosos. Deveriam abrir os olhos de quem só concede direito de existência a seres que "possam servir para alguma coisa". Não sabemos o que a natureza nos reserva. A prudência recomenda uma preservação dos ecossistemas menos utilitaristas.

Para a tradição católica a natureza é um território do sagrado. A natureza é uma das manifestações mais extraordinárias do amor de Deus. Deus serve-se da natureza, que pode existir sem o humano, enquanto o contrário não é verdade. A história sagrada vive de epifanias, mas também de litofanias, hidrofanias, zoofanias e fitofanias. Deus manifesta-se nas rochas, nas águas, nas plantas e nos animais. É bonito ver Nossa Senhora aparecendo em grutas, junto a fontes de água em Lurdes, emergindo do leito do rio Paraíba no Brasil, repousando sobre árvores em Fátima etc.

Ao contrário da nova era, que prega um neopaganismo panteísta, onde tudo seria Deus, tudo seria parte do divino, a doutrina cristã ensina que Deus é o começo, o meio e o fim da criação. Como ensinou São Francisco de Assis, todos os seres vivos têm uma mesma origem, participam da mesma corrente de vida e isso gera uma fraternidade entre as criaturas, muito além da ordem moral.

Não é verdade que o monoteísmo judaico-cristão não deu importância às questões ambientais, à vida animal e vegetal. Ler o texto bíblico é caminhar entre animais. Os mitos dos animais na arca de Noé ou da serpente falante do jardim do Éden (1), por exemplo, são fundadores de comportamentos individuais e sociais até os dias de hoje. Mais do que história, fazem parte da meta-história, sempre atual. As metáforas animais são utilizadas amplamente na Bíblia, em fábulas e parábolas, para ilustrar ensinamentos éticos, morais e religiosos. São episódios como o do burro falante de Balaão (Nm 22), o de Jonas, no ventre da baleia (Jn 2) ou ainda o dos pontualíssimos e dedicados corvos padeiros e açougueiros, alimentando o profeta Elias, Eliahú (2) (1Rs 17,6).

O próprio Jesus nasceu num estábulo, cercado de animais, e vai citar aves dos céus, galinhas, raposas, jumentas e jumentinhos, galos, peixes, corvos, cães, porcos, abutres, águias e outros animais em seus ensinamentos. O livro da Revelação, o Apocalipse de João, está repleto de animais, reais e imaginários. A literatura farisaica (3) , o Talmude (4) e o Midrash (5) principalmente, e a tradição cristã, desde os Padres da Igreja (6) até os bestiários da Idade Média (7), deram grande valor aos ensinamentos éticos e morais, a partir das vidas dos animais. Os comportamentos dos mais diversos animais são modelos e inspiração para sábios e santos. Além de pura contemplação do divino, através da obra da criação, da "atmosfera ornada de pássaros (8) " nos dizeres da doutora da Igreja, Catarina de Siena (9) .

A superação do antropocentrismo não implica na adoção de um biocentrismo, hoje contagiante em muitas esferas da sociedade, junto com a mensagem de defesa do meio ambiente e as ideologias da nova era. Viver em harmonia com a natureza não significa viver como os animais, mas com os animais. Devemos ultrapassar a antinomia do cartesianismo que negava qualquer valor intrínseco aos seres da natureza e a dos ecologistas que tomam a biosfera como o único e autêntico sujeito de direito. A biosfera no seu conjunto é também o vírus da AIDS, da paralisia infantil, o cólera e as aves do céu. Da mesma forma que o homem foi capaz de eliminar para sempre o vírus da varíola, inclusive da maioria de seus laboratórios de pesquisa, é chegada a hora de impor limites ao intervencionismo da tecnociência no ambiente natural. A Igreja sempre repensou nosso lugar e o lugar dos homens no planeta em função da unidade original de todas formas de vida. Essa unidade inicial deveria gerar também uma unidade de destinos, unindo imortalidade e eternidade. Principalmente para os cristãos para quem tudo o que marca de forma indelével a humanidade estará presente no mundo da ressurreição, no reino dos céus e no paraíso.


1 Éden (ain-dalet-nun), em hebraico, significa delícia.

2 O nome é uma repetição do nome de Deus sob duas formas: El e Iahú. Significa: Deus é Deus.

3 Rabi Meir bar Ness, por exemplo, a partir de seu contato com a literatura latina e grega, foi o grande escritor de fábulas do Talmude. Para ele, as fábulas envolvendo animais podiam ser um instrumento de edificação da moral e da espiritualidade de seus discípulos. Conhecia mais de 300 fábulas. Seus atos de amor e benevolência para com os pobres granjearam-lhe o epíteto de "Senhor do Milagre".

4 Do hebraico Talmude, estudo, ensino. Essa enciclopédia judaica reúne a doutrina e jurisprudência da lei mosaica, com explicações dos textos jurídicos da Torá (Pentateuco) e a Mishná, a jurisprudência elaborada pelos comentadores e sábios judeus entre os séculos III e VI.

5 Eliane Ketterer & Michel Remaud, O Midraxe. Paulos, São Paulo, 1996.

6 Jacques Liébaert, Os Padres da Igreja. Loyola, São Paulo, vol 1: 2000. vol 2: 2002.

7 Raimundo Lúlio, Livro das bestas. Loyola, São Paulo, 1990.

8 Catherine de Sienne, Le dialogue. Cerf, Paris, 1999.

9 Catarina Bebincasa nasceu em Sena (Itália), em 1347, e morreu em Roma em 29 de abril de 1380, com 33 anos. Personalidade extraordinária, teve um papel crucial na vida da Igreja, levando o papa Gregório XI a retornar de Avignon para Roma. Dominicana desde a idade de 16 anos, reuniu em torno de si uma comunidade de discípulos atraídos por sua vida de oração e penitência. Favorecida por graças místicas, marcada pelos estigmas da paixão de Cristo, Catarina ditou seu livro Diálogo, fruto de seus colóquios com Deus, dividido em quatro tratados. Deixou uma enorme correspondência. Trabalhou pela restauração da paz e da unidade da Igreja. Foi declarada doutora da Igreja, junto com Teresa d´Ávila.


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