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Alzeli
Bassetti é escritora, fundadora e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé.


S E T E M B R O   D E   2 0 0 3

Primeiro a unidade

Alzali Bassetti


Atualmente, a comunidade acadêmica é formada por um todo de especialistas cujas linguagens – de tão exóticas – impossibilitam qualquer diálogo. Na área médica, pequenos saberes vêm construindo uma "Torre de Babel", insensível ao sofrimento humano.

A deterioração da qualidade do atendimento médico, salvo raras exceções, tem entre outras causas a desumanização da assistência à saúde humana. Já há quem pergunte se os médicos teriam desaprendido as artes de atender, de assistir, de consolar e de curar. Afinal, erros e negligências pululam no mundo inteiro, projetando um paradoxo: paralelamente ao notável avanço científico no que se refere ao diagnóstico e ao tratamento, ocorrido no século que findou, o ser humano enfermo vem sendo depositário de desconsideração e maus tratos.

Nas escolas médicas, é notória a ênfase desproporcional dada à relevância do conhecimento sobre equipamentos de apoio na formação dos futuros profissionais, orientados a concluir que toda e qualquer doença pode ser inquestionavelmente detectada pela tecnologia. Na medida em que mais doenças são descobertas (?), decodificadas ou melhor tipificadas, mais cresce o "ibope" da tecnologia e mais rebaixada se torna a história do paciente. A preocupação maior volta-se para a doença e não para o doente. E ele é uma unidade biológica, psicossocial, espiritual, afetiva e cultural!

Realidade esta e tão importante que detém a vida. Ora, sabe-se que a verdadeira sabedoria na medicina está justamente no raciocínio clínico, na capacidade de ouvir, compreender, destrinchar e resolver um caso, não em apenas um órgão ou dois, mas sim no paciente em sua integralidade. Um ser político que precisa de cura, a quem ficou difícil viver e conviver. Mas o atual modelo acadêmico ressalta a fragmentação do saber médico, ignorando integralidade, interdependência e intercomunicação entre as partes, ou seja, os órgãos do corpo humano.

Ao minar a unidade e desconsiderar o paciente, a educação médica provoca um endeusamento de cada minúsculo fragmento, apontado por respectivos equipamentos, superestimando a importância dele sobre o corpo/espírito, precipitando a certas disciplinas do curso tamanha ascensão que chegam ao status de autônomas. O corpo humano então seria uma espécie de amplo espaço comum, cujo valor maior está nos segmentos – as subespecialidades médicas –, cada qual com um "capitão-mor", detentor absoluto de seus segredos. São os garbosos mestres dos mínimos e dos minúsculos.

Esta distorsão tem transformado o ensino médico – por que não também a práxis? – numa empresa de alimentos, oclusa, de portas fechadas ao questionamento, à realidade, ao diálogo. As máquinas sofisticadas produzem grãos exóticos, que não saciam a fome humana. O modelo pedagógico da medicina tem se provado tão infecundo quanto essa empresa, pois forja profissionais ignorantes das necessidades básicas de sua "aldeia". Ademais, incute neles a relevância do incomum, do exótico, do inusitado, em detrimento do fundamental. Resultam dependentes da máquina e não da própria inteligência.

Juntando-se às vozes que exigem um redirecionamento na grade curricular, a Unesco formou uma comissão internacional para elaborar um projeto viável visando à educação para o século XXI. Entre os primeiros frutos está a postulação de que pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagônicas nem autônomas, e sim complementares. O novo modelo educacional deverá estar baseado em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Felizmente, já há centros universitários irradiando essas premissas.

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