Alceu
José P. Pimentel é médico e conselheiro
federal pelo estado de Alagoas.
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N O V E M B R O D E 2 0 0 3
Opinião
Novas escolas médicas:
repercussão na formação e na sáude da população
Alceu
José Peixoto Pimentel
As entidades médicas e em particular o Conselho Federal de Medicina
defendem a urgente necessidade da suspensão da abertura de novos
cursos de Medicina e da ampliação indiscriminada do número
de vagas, nos já existentes, pelo governo federal por meio do Ministério
da Educação (MEC). Não necessitamos de um maior número
de médicos e sim de uma política de saúde que proporcione
uma melhor distribuição dos mesmos no seio da sociedade.
Não há necessidade social para que seja autorizada a abertura
de novas escolas médicas.
O
Conselho Federal de Medicina continuará se posicionando –
como historicamente já vem fazendo – contra o que podemos
denominar como um atentado à saúde da população,
na medida em que profissionais, sem a devida qualificação
para prestarem atenção à saúde pública
com nível adequado, poderão chegar ao mercado de trabalho.
Com certeza, uma má formação obtida em cursos médicos
que foram abertos sem a mínima estrutura contribuirá, de
forma decisiva, para a concretização deste fato.
O número excessivo de médicos formados anualmente, mais
de dez mil, e a formação profissional deficiente se configuram
como um perigo para a saúde da população, pois há
aceitação de pagamentos de honorários a preço
vil e o médico se submete a trabalhos em situação
inadequadas, correndo o risco de cometer, com maior probabilidade, infrações
éticas.
Com o advento do novo governo federal e o histórico compromisso
com a sociedade e não com os interesses de grupos políticos
ou econômicos das personalidades que o compõem, foi criada
uma expectativa de que este processo sofreria uma modificação
completa de rumo, mas para surpresa geral só nos primeiros seis
meses cinco novos cursos de Medicina foram autorizados pelo MEC. Felizmente,
este cenário apresenta sinais de mudança com a recente solicitação,
realizada pelo Ministério de Saúde ao MEC, para que suspenda,
por 180 dias, a abertura de novos cursos na área de saúde.
Estas autorizações deveriam ser suspensas por um mínimo
de dez anos, conforme está proposto no projeto de lei do deputado
Arlindo Chinaglia e que, neste período, fosse efetivada uma avaliação
em funcionamento, com o MEC se posicionando, de forma decisiva, junto
àqueles comprovadamente deficientes, não somente na perspectiva
de seu fechamento, fato este provavelmente necessário em alguns
casos, mas objetivando provê-los dos insumos que são imprescindíveis
para que estas deficiências sejam superadas.
Por outro lado, o que preceitua a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
deve ser modificado, tornando a posição do Conselho Nacional
de Saúde terminativa e não simplesmente consultiva nas decisões
que se referem à criação de novos cursos na área
médica, como acontece na atualidade.
Um projeto de lei, hoje tramitando no Congresso, gestado no seio da Confederação
Médica Brasileira, Conselho Federal de Medicina e Associação
Médica Brasileira, propõe que esta alteração
se realize em virtude do Ministério da Saúde ser legalmente
quem define acerca dos recursos humanos na área da saúde.
O Conselho Nacional de Saúde, considerando a sua composição,
com certeza optará pela observação variável
(necessidade social) como não acontece atualmente e não
se norteará pela pressão do poder de grupos políticos
ou da força do capital.
A sociedade precisa ser esclarecida sobre os reais objetivos do movimento
médico brasileiro, especificamente do Conselho Federal de Medicina,
quando assume a defesa pela não abertura de novas escolas de medicina
e do não aumento do número de vagas nas já existentes.
Esta não é uma posição corporativa no sentido
de favorecer os interesses da categoria médica, como pode ser entendido
quando de uma análise superficial, e sim uma ação
na defesa do conjunto da sociedade, uma vez que o médico lida com
o bem mais importante do ser humano – a vida.
Portanto, somente a mobilização das entidades médicas
conseguirá modificar a trajetória deste processo, no sentido
de esclarecer a população e sensibilizar o governo para
a importância do problema provocado pela proliferação
desordenada de escolas médicas e o risco da manutenção
desta situação que provocará conseqüências,
as quais repercutirão de forma negativa, tanto para a categoria
médica como para o conjunto da sociedade.
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