Evaristo
Eduardo de Miranda
é ministro de exéquias.
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N O V E M B R O D E 2 0 0 3
Artigo
Jesus vem ou vai?
Evaristo
Eduardo de Miranda
Nos evangelhos, Jesus é aquele que vem. Maranatha! Será?(1)
Antes de tudo, Jesus é aquele que vai. Ele vai e volta para o Pai,
lá onde ninguém pode seguí-lo ou alcançá-lo.
Os discípulos viveram essa experiência difícil: Aquele
que eles seguem é também Aquele que, todo o tempo, se retira
e escapa. Ele não veio para ficar, mas para partir.
Jesus desaparece fisicamente diante daqueles que queriam lapidá-lo
no alto de uma falésia. Ele desaparece diante da possibilidade
de um Herodes que desejava vê-lo. Ele desaparece diante dos que
desejavam fazê-lo um rei. E mesmo, muitas vezes, Ele desaparece
diante dos discípulos. Eles o buscam e o encontram, solitário,
longe de todos, em oração na montanha.
Ressuscitado, Jesus continua com o mesmo comportamento: desaparecendo.
Ele caminha junto dos discípulos em Emaús, consente em ficar
com eles. Quando é reconhecido, desaparece diante de seus olhos.
Ele fica postado atrás de Maria, cujo olhar está voltado
ao sepulcro vazio. Ao chamá-la pelo seu nome, ela o reconhece e
lança-se aos seus pés. "Não me retenhas",
Ele diz. Maria pode e deve vincular-se a Jesus, mas não deve retê-lo.
Ela deve ir a seus irmãos, anunciar... Maria queria tomá-lo,
tê-lo... gesto humano, gesto de amor. Jesus não deseja que
ninguém o retenha. Ele se vai. Ele precisa partir(2)
.
Por que fazer-se visível, se é para desaparecer, para se
retirar, para se afastar? Os judeus não o entendem, os discípulos
também não e seu primo, João, o batizador, dirá:
"É você quem devia vir?" Uma pergunta atravessa
todo o evangelho: Quem é Jesus? Uma pergunta coroada de outras
indagações: De onde Ele vem? Onde Ele mora? Com que autoridade
Ele faz isso? Não é Ele o filho do carpinteiro? (...) Quem
é Jesus? Quem pode, verdadeiramente, responder essa pergunta?
Diante da afirmação de que vai deixá-los, os discípulos
o interrogam: "Senhor, para onde vais?" Lá onde Ele vai,
os discípulos conhecem o caminho, mas não podem segui-lo.
Paradoxo. Quem pode tomá-lo? Os únicos a tomá-lo
serão os guardas no jardim das Oliveiras, no Gat Shemenim. Outros
tentaram tomar, pelo menos seu corpo, e encontraram um sepulcro vazio.
"Se foi você quem o tomou..." dirá Maria. Quem
poderia pegá-lo, lá para onde Ele partiu? Diante da personalidade
de Jesus, de seu comportamento, de sua vida... quem poderia tomá-lo?
Quando os que o acompanham se retiram, pois suas palavras eram muito duras,
Ele interrogou seus discípulos: "Vocês também
vão me deixar?" Impossível. Eles não abandonarão,
nem deixarão aquele que possui palavras de vida eterna e é
a luz do mundo. Numa noite tenebrosa, Judas irá deixá-lo
para entregá-lo. Não poderia ser de outra forma. Logo depois,
os discípulos também o deixarão. Ele fica só.
Orando e suando. Em silêncio, humilhado e sentenciado. Não
poderia ser de outra forma. Tudo era necessário, para que o Cristo
fosse realmente abandonado. Deus, El... meu, i. Eli, Eli, lama shabachtani?
Deus meu, Deus meu... por que? Porque abandonaste eu, i. Jesus não
queria ser tomado. Nem abandonado?
A paixão de Jesus foi a de ser abandonado pelo Pai e pelos que
ele amou. Jesus não desejava ser tomado porque Ele só pode
e só quer ser tomado pelo Pai. Ele não será tomado
por nada, nem por ninguém. Num desapego, num abandono total, Ele
entrega-se ao Pai. Quando a Cruz o reterá, quando os cravos o imobilizarão,
Ele revelará ao mundo: realmente não me apego a mais nada,
senão à única vontade do Pai, que deseja nele e para
nós esse abandono(3) .
Na escola do evangelho, somos discípulos e testemunhas desse Jesus
que ninguém consegue tomar, nem apropriar-se. Não retê-lo,
acordar-lhe a liberdade de nos abandonar. Deixar-se tomar e fascinar por
essa ternura revelada quando chora pelo que exige de nós, como
no episódio de Lázaro. O teólogo Urs von Balthazar
diz: "Quando Ele chega, Lázaro está morto. Não
é isso que é grave. Mas o fato que ele tenha deixado suas
irmãs sem notícias, na noite sombria do abandono a Deus."
E Jesus chora. Por causa da morte? Da morte de Lázaro? Jesus não
chora diante de outras mortes, antes de outras ressurreições.
Ele chora por causa desse trágico interior que o obriga a compartilhar,
eucaristicamente, seu abandono sobre a Cruz, em prioridade com aqueles
que Ele ama mais particularmente. Essas lágrimas, Jesus verteu
por nós, como pelas irmãs de Lázaro. Nas lágrimas
de Jesus descobre-se a maravilhosa humanidade de nosso Deus. Na transparência
de suas lágrimas, está a transparência de seu amor
por nós.
1
Expressão de origem obscura. Do grego bíblico marán
athá < aramaico. Conjectura-se ser "nosso Senhor chega"
ou "ó nosso Senhor, vós viestes". É também
empregada no sentido de dupla maldição. Anáthéma
maránatha produziu também um substantivo no sentido de
"imprecação terrível"
2 Jean de la Croix Robert. Au silence plus
haut que les cimes. Parole e Silence. Saint Maur. 2000.
3 Jean de la Croix Robert. Ibidem.
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