Raul Cutait é cirurgião gastroenterologista, presidente
do Conselho Médico e diretor geral do Centro de Oncologia do Hospital
Sírio Libanês.
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D E Z E M B R O D E 2 0 0 3
Ponto
de vista
Morte digna
Raul
Cutait
A vida é a dádiva maior da natureza. O homem, ser privilegiado
na escala filogenética, dela usufrui empregando suas competências
emocional, afetiva, intelectual e física, sujeitas às inevitáveis
limitações pessoais e ambientais. Contudo, quaisquer que
sejam as características da vida de cada um de nós, o fato
é que um dia ela termina.
Se em séculos passados guerras e epidemias dizimavam populações,
no mundo contemporâneo as causas de morte mais comuns são
as relacionadas com as doenças crônico-degenerativas, em
especial as cardiovasculares e o câncer, decorrentes do crescente
aumento da expectativa de vida. Por outro lado, novos conhecimentos médicos,
alta tecnologia diagnóstica e terapêutica, estruturas hospitalares
mais sofisticadas, além de médicos mais bem preparados permitem
prolongar vidas de pacientes de forma inacreditável até
pouco tempo atrás. Contudo, essa nova ordem gera um novo problema:
quanto é possível tratar de uma doença e até
onde isso é o melhor para o doente? Na seqüência, quando
é o momento de não mais tratar o paciente e aceitar sua
morte, em benefício de um fim de vida menos sofrido e mais digno?
Esse questionamento faz parte do dia-a-dia de muitos médicos que,
treinados para preservar a vida e dar-lhe qualidade, têm, no entanto,
que aprender a conviver com a morte, lei maior do universo. Aí
vem a questão sobre a dignidade da morte e as ações
médicas. Permito-me fazer algumas ponderações e reflexões.
Existem situações clínicas em que a morte é
claramente inevitável e traz fim ao sofrimento. Nesses casos, mesmo
que com tristeza, a decisão de não procurar mais manter
a vida costuma ser isenta de conflitos emocionais ou éticos, tanto
por parte do médico, quanto da família e mesmo do próprio
paciente. No outro extremo, nós médicos convivemos com numerosos
casos em que os limites da preservação da vida e a inexorabilidade
da morte não são claros, como acontece com certa freqüência
com pacientes internados em UTI ou, então, que apresentam doenças
como o câncer. Estas fronteiras entre resposta terapêutica
e insucesso não são bem definidas. Nesses casos, o médico
tem de conviver com incertezas e administrar seu posicionamento em função
das características da doença, da disponibilidade de recursos
tecnológicos para o tratamento, da vontade bem sempre expressa
do paciente, da posição da família e – por
que não? – de sua experiência e conhecimento.
Concordo que, em situações limítrofes, nem sempre
os médicos agem da melhor forma, seja por inexperiência,
seja por insensibilidade. Por outro lado, a inadequada comunicação
com a família ou mesmo com o paciente não raro traz insegurança
e incompreensão, gerando desde a sensação de que
"não se está dando tudo para o paciente" até
a de que "estão exagerando" ou "forçando
a barra".
Como resolver isso? Basicamente melhorando a comunicação
entre as equipes de saúde, em especial os médicos, e os
pacientes e seus familiares, criando uma relação calcada
em confiança e cumplicidade, que permite discutir os inerentes
aspectos técnicos sem desvinculá-los do lado emocional.
A melhor compreensão dos fatos é o caminho para as melhores
decisões!
Não gostaria de terminar este texto sem um depoimento pessoal.
Como cirurgião, luto pela vida desde os tempos de estudante de
medicina e confesso que nunca consegui encarar a morte com a frieza que
dizem que os médicos têm que ter. Ao contrário, ela
sempre me fez refletir sobre o sentido da vida. No meu íntimo,
é como se eu quisesse entendê-la, decifrá-la, até
mesmo domá-la, talvez num vão exercício de me preparar
para a viagem final.
Luto contra a morte com dedicação. Tento entender a posição
do paciente diante de sua doença, de maneira clara ou nas entrelinhas.
Procuro respeitar sua vontade, colocando-o à frente da tecnologia,
por entender que a morte, assim como a vida, merece dignidade. No entanto,
confesso que, mesmo nesta fase mais madura de minha vida profissional
e pessoal, vivencio situações de conflito quanto ao que
fazer.
Felizmente, já passou a época em que as decisões
eram tomadas apenas pelos médicos. Hoje, entende-se que tanto os
pacientes quanto suas famílias devem também participar do
encaminhamento das soluções médicas, em prol de posições
mais humanas e dignas tanto para a vida, quanto para a morte.
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