Alzeli
Bassetti é escritora, co-fundadora e vice-presidente do
Instituto Ciência e Fé.
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D E Z E M B R O D E 2 0 0 3
Reflexão
O porquê da física
Alzeli
Bassetti
Hoje a física está envolta num mundo governado pela teorização
matemática e especulativa, pouco divulgada e restrita ao âmbito
científico. Os jovens físicos voltam seus interesses à
teoria das cordas, ao universo de dez dimensões, buracos negros
e brancos, universos paralelos, a origem e o destino do próprio
universo. Depois do quem, quando e o quê da física, é
chegada a hora de buscar o porquê dela: a filosofia.
Sempre que cientistas e demais membros da comunidade pertinente falam
publicamente, são abordados por perguntas que, em geral, extrapolam
o científico e se acercam do metafísico. Se, por um lado,
a física quântica reúne aspectos ainda misteriosos
ou não totalmente compreendidos, por outro lado não é
possível desconsiderar o desejo natural – mais que o interesse
– de dar um sentido a toda essa ciência, relacionando-a à
visão geral do mundo. É um termo alemão o que melhor
descreve a concepção abrangente do universo e a relação
da humanidade com ele: weltanschawing. Longo foi o caminho nobre da física
a partir dos primeiros passos dados por Tales e seus colegas gregos, inquietos
por saber sobre o universo e o mundo natural.
Hoje a física, como de resto toda a ciência, podem dar explicações
até detalhadas sobre o mundo que abriga a humanidade. O antigo
mistério da natureza foi peça por peça decodificado,
embora ainda haja bastante por aprimorar. O angustiante é que à
medida que a ciência vai desanuviando os princípios da física,
eles parecem cada vez menos relacionados com a humanidade. Quase todas
as partículas presentes no modelo padrão vêm decaindo
aceleradamente, tornando-se ausentes da matéria comum, praticamente
desempenhando papel irrelevante em toda a vida humana. O múon e
o tau pouco influem na existência cotidiana. Devido a essa aparente
pouca importância, a física pura vem perdendo público
e espaço.
Quem se volta para a ciência visando às respostas concernentes
a grandes questões filosóficas – finalidade do universo
ou sentido da vida, entre outras -, permanece procurando em vão.
Se hoje os físicos já podem explicar muitíssimas
coisas no mundo objetivo, desafortunadamente é cada vez maior o
desconhecimento que cada pessoa tem da própria vida. Ante tal paradoxo,
tentativas surgiram para estabelecer uma espécie de combinação
entre física e metafísica. Ilustram esse propósito
os exemplos do princípio cosmológico antrópico e
a hipótese Gaia, propondo ambos que a vida sobre a Terra é
parte de um desígnio mais abrangente.
O primeiro deles, postulados pelo físico inglês Brandon Carter
em 1974, afirma que se os parâmetros do universo fossem diferentes
do que são, a vida não seria possível. Assim, o universo
deveria ter se organizado por algum ser supremo com o intuito de preservar
a vida. Já a hipótese de Gaia, levantada por James E. Lovelock
em 1972, propõe que tanto a Terra como as criaturas vivas dela
evolveram juntas num sistema auto-regulatório que mantém
condições ideais para a vida. Nenhuma das concepções
é testável ou comprovável. Sendo a ciência
um sistema de investigação baseado no empírico, as
teorias devem emergir de fatos constatáveis para explicar as coisas
como realmente são e não como se gostaria que fossem.
É profundo o abismo que separa lamentavelmente os intelectuais
literários e a própria cultura científica. É
próprio da ciência o esforço de ver claramente os
fenômenos, já que a investigação dos mistérios
da natureza exige um pensamento disciplinado, sistemático, rigoroso.
Os resultados devem ser explicáveis em teoria, submetidos ao exame
crítico dos pares e validado por um experimento passível
de reprodução. Quando se faz isso, está-se fazendo
verdadeiramente ciência. Recentemente, o dr. Paul Davies, físico
e matemático, especialista do tema da conexão entre ciência
e tecnologia, professor de filosofia natural na Universidade de Adelaide,
na Austrália, recebeu o Prêmio Templeton de um milhão
de dólares, resultante de preciosas contribuições
ao pensamento e à investigação religiosos. Criada
em 1973, pelo empresário Sir John Templeton, súdito britânico
porém nascido nos EUA, essa premiação é concedida
anualmente a uma pessoa que tenha revelado criatividade inédita
na promoção do congraçamento geral de Deus ou da
espiritualidade. Templeton estipulou que o valor do prêmio que leva
o seu nome deveria exceder em dinheiro ao dos prêmios Nobel, que
a seu ver negligenciava a religião. O dr. Paul Davies e o terceiro
físico a receber a outorga findou seu discurso com estas palavras:
"As pessoas em geral pensam que, à medida que a ciência
avança, a religião retrocede. Mas quanto mais descobrimos
acerca do mundo, mais percebemos que há um propósito ou
um desígnio por trás disso tudo."
Sendo por natureza ilimitada e exploratória, a física prosseguirá
seu caminho, já que a própria ciência nada mais é
que pessoas fazendo perguntas. E ainda há muitas para serem formuladas.
Quanto às questões filosóficas, permanecerão
inquietando enquanto a espécie humana continuar com sua capacidade
de especular.
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