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Alzeli Bassetti é escritora, co-fundadora e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé.


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Reflexão
O porquê da física

Alzeli Bassetti



Hoje a física está envolta num mundo governado pela teorização matemática e especulativa, pouco divulgada e restrita ao âmbito científico. Os jovens físicos voltam seus interesses à teoria das cordas, ao universo de dez dimensões, buracos negros e brancos, universos paralelos, a origem e o destino do próprio universo. Depois do quem, quando e o quê da física, é chegada a hora de buscar o porquê dela: a filosofia.

Sempre que cientistas e demais membros da comunidade pertinente falam publicamente, são abordados por perguntas que, em geral, extrapolam o científico e se acercam do metafísico. Se, por um lado, a física quântica reúne aspectos ainda misteriosos ou não totalmente compreendidos, por outro lado não é possível desconsiderar o desejo natural – mais que o interesse – de dar um sentido a toda essa ciência, relacionando-a à visão geral do mundo. É um termo alemão o que melhor descreve a concepção abrangente do universo e a relação da humanidade com ele: weltanschawing. Longo foi o caminho nobre da física a partir dos primeiros passos dados por Tales e seus colegas gregos, inquietos por saber sobre o universo e o mundo natural.

Hoje a física, como de resto toda a ciência, podem dar explicações até detalhadas sobre o mundo que abriga a humanidade. O antigo mistério da natureza foi peça por peça decodificado, embora ainda haja bastante por aprimorar. O angustiante é que à medida que a ciência vai desanuviando os princípios da física, eles parecem cada vez menos relacionados com a humanidade. Quase todas as partículas presentes no modelo padrão vêm decaindo aceleradamente, tornando-se ausentes da matéria comum, praticamente desempenhando papel irrelevante em toda a vida humana. O múon e o tau pouco influem na existência cotidiana. Devido a essa aparente pouca importância, a física pura vem perdendo público e espaço.

Quem se volta para a ciência visando às respostas concernentes a grandes questões filosóficas – finalidade do universo ou sentido da vida, entre outras -, permanece procurando em vão. Se hoje os físicos já podem explicar muitíssimas coisas no mundo objetivo, desafortunadamente é cada vez maior o desconhecimento que cada pessoa tem da própria vida. Ante tal paradoxo, tentativas surgiram para estabelecer uma espécie de combinação entre física e metafísica. Ilustram esse propósito os exemplos do princípio cosmológico antrópico e a hipótese Gaia, propondo ambos que a vida sobre a Terra é parte de um desígnio mais abrangente.

O primeiro deles, postulados pelo físico inglês Brandon Carter em 1974, afirma que se os parâmetros do universo fossem diferentes do que são, a vida não seria possível. Assim, o universo deveria ter se organizado por algum ser supremo com o intuito de preservar a vida. Já a hipótese de Gaia, levantada por James E. Lovelock em 1972, propõe que tanto a Terra como as criaturas vivas dela evolveram juntas num sistema auto-regulatório que mantém condições ideais para a vida. Nenhuma das concepções é testável ou comprovável. Sendo a ciência um sistema de investigação baseado no empírico, as teorias devem emergir de fatos constatáveis para explicar as coisas como realmente são e não como se gostaria que fossem.

É profundo o abismo que separa lamentavelmente os intelectuais literários e a própria cultura científica. É próprio da ciência o esforço de ver claramente os fenômenos, já que a investigação dos mistérios da natureza exige um pensamento disciplinado, sistemático, rigoroso. Os resultados devem ser explicáveis em teoria, submetidos ao exame crítico dos pares e validado por um experimento passível de reprodução. Quando se faz isso, está-se fazendo verdadeiramente ciência. Recentemente, o dr. Paul Davies, físico e matemático, especialista do tema da conexão entre ciência e tecnologia, professor de filosofia natural na Universidade de Adelaide, na Austrália, recebeu o Prêmio Templeton de um milhão de dólares, resultante de preciosas contribuições ao pensamento e à investigação religiosos. Criada em 1973, pelo empresário Sir John Templeton, súdito britânico porém nascido nos EUA, essa premiação é concedida anualmente a uma pessoa que tenha revelado criatividade inédita na promoção do congraçamento geral de Deus ou da espiritualidade. Templeton estipulou que o valor do prêmio que leva o seu nome deveria exceder em dinheiro ao dos prêmios Nobel, que a seu ver negligenciava a religião. O dr. Paul Davies e o terceiro físico a receber a outorga findou seu discurso com estas palavras: "As pessoas em geral pensam que, à medida que a ciência avança, a religião retrocede. Mas quanto mais descobrimos acerca do mundo, mais percebemos que há um propósito ou um desígnio por trás disso tudo."

Sendo por natureza ilimitada e exploratória, a física prosseguirá seu caminho, já que a própria ciência nada mais é que pessoas fazendo perguntas. E ainda há muitas para serem formuladas. Quanto às questões filosóficas, permanecerão inquietando enquanto a espécie humana continuar com sua capacidade de especular.


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