
Evaristo
Eduardo de Miranda. Doutor em Ecologia, autor do livro "A
água na natureza e na vida dos homens" (Ed. Santuário).
Site do autor sobre a temática das águas: aguas.cnpm.embrapa.br
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M A R Ç O D E 2 0 0 4
Reflexão
As águas da Boa Nova
Evaristo
Eduardo de Miranda
Os encontros de Jesus com as águas são iluminados e inspirados
pela tradição cultural e religiosa do judaísmo de
seu tempo. Nos evangelhos encontram-se cerca de cinqüenta episódios
de Jesus com as águas, difíceis de serem penetrados em toda
sua riqueza, sem a contribuição da tradição
judaica e do entendimento do corpo humano como território do sagrado.
Existem diferenças e preferências hídricas.
O
Primeiro Testamento cita 43 vezes o orvalho, o Segundo Testamento o desconhece
e não recorre a esse suave transpirar dos céus. A boa nova
das águas dispensou o orvalho e o sereno. As águas frias
na forma de gelo também não refrescam os evangelhos. Nenhuma
citação contra sete no Primeiro Testamento. A neve também
é pouco lembrada: uma citação para evocar o brilho
das vestes de Jesus na transfiguração (Mt 28,3) e outra
para ilustrar a luz viva dos cabelos do Filho do Homem (Ap 1,14), contra
28 citações no Primeiro Testamento. O mesmo ocorre com o
vapor: nenhuma citação contra seis no Primeiro Testamento.
As águas da boa nova apresentam-se e ausentam-se nos rios, fontes,
poços, mares, nuvens, chuvas, parábolas, vinho e secreções
corporais. Dentre os principais episódios estão:
- O
batismo de Jesus nas águas do Iarden, o rio Jordão (Mt
3,11; Mc 1,8-10; Lc 3,16);
- As nuvens
e os úmidos céus (shamaim) ecoando vozes divinas (Mt 3,
13-17; Mc 1,9-11; Lc 3, 21-22) e envolvendo Jesus e seus discípulos
(Mt 17,5; Mc 9,7; Lc 9,34);
- Águas
ausentes e presentes na provação de Jesus no deserto (Mt
4,1-4; Mc 1,12-13);
- As águas
transmutadas em vinho em Qaná de Galil, em Caná da Galiléia
(Jo 2,1-12);
- O chamado
dos discípulos à beira d’água (Mt 4,18-22;Mc
1,16-20);
- A pesca
maravilhosa ou o reencontro da fertilidade das águas (Mt 13,47;
Lc 5,1-11; Jo 21,1-11);
- Depois
de ensinar nas sinagogas, Jesus ensina à beira mar e até
sobre as águas, sobre o mar (Mt 13,1; Mc 2,13. 3,7-9; Lc 5,3);
- Jesus
vem morar junto às águas, em Cafarnaum (Mt 4,13);
- As águas
do mar onde os montes podem ser lançados pela fé (Mt 21,21);
- As águas
do mar onde um sicômoro pode ser lançado pela fé
(Lc 17,6);
- As águas
do mar onde uma legião de porcos se precipitam (Mt 8, 31-31;
Mc 5,13; Lc 8,33);
- As águas
do mar onde Pedro é enviado lançar um anzol (Mt 17,27);
- As águas
do mar onde Pedro, confuso, nu e vestido, se lança (Jo 21,7);
- As águas
do mar onde quem escandalizar um pequenino será lançado
com uma mó atada no pescoço (Mt 18,6; Mc 9,42; Lc 17,2);
- Os passos
noturnos de Jesus sobre as águas, como um fantasma, atemorizando
e fazendo a pedra do Pedro, Shimon bar Ioná, flutuar (Mt 14,22-33;
Mc 6,45-51; Jo 6,16-21);
- O renascer
do espírito e da água de um doutor de Israel, Nicodemos,
Naq Demos (Jo 3,5);
- Jesus
batizando na Judéia (Jo 3,22) e João em Enon, perto de
Salim, onde as águas eram abundantes;
- As águas
evanescentes da seiva de uma figueira sem frutos (Mt 21,19-20; Mc 11,20-21);
- As águas
evanescentes de uma semente germinando sobre pedras, sem umidade (Mt
13,6; Mc 4,6; Lc 8,6);
- Os paradoxos
da água viva que pede de beber, no encontro com a Samaritana
e atado à cruz no Calvário (Jo 4,7. 19,28);
- As palavras
de Jesus aplicando a imagem da água a si próprio, junto
ao poço de Jacó, Yakoov (Jo 4,13-14);
- A transparência
das águas corporais nas lágrimas vertidas diante do choro
dos amigos do falecido Lázaro, El Azar (Jo 11,35);
- As ondas
e a tempestade no mar da Galiléia, no Lago Kineret (Mt 8,18-27;
Mc 435-41; Lc 8,22-25);
- Previsões
meteorológicas do tempo de chuva e estiagem (Lc 12,54-55);
- As águas
das chuvas caindo sobre justos e injustos (Mt 5,45);
- As chuvas
e torrentes transbordando sem abalar a casa construída, como
um templo, sobre a rocha (Mt 7,24-27; Lc 6, 49);
- Um rico
pede, num dedo do mendigo Lázaro, uma gota d’água
para suportar o fogo eterno (Lc 16,24);
- Aqueles
que derem um copo d’água a um pequenino (Mt 10,42; Mc 9,41);
- As águas
da saliva na boca e nos ouvidos do surdo-mudo, curando-o com um Efetá
(Mc 7,33);
- As águas
da saliva curam progressivamente os olhos do cego (Mc 8,23);
- As águas
da saliva no pó da terra e nos olhos de um cego de nascença
(Jo 9,6);
- As águas
terapêuticas da fonte de Siloé (Jo 9,7.11) e a torre de
Siloé;
- As águas
da saliva, como cuspe e escarros, no rosto de Jesus (Mt 26,67.27,30;Mc10,34.14.65.15.19;
Lc 18,32);
- As águas
carregadas numa bilha por um homem e não por uma mulher (Mc 14,13;
Lc 22,10);
- O paralítico
curado junto às águas movimentadas periodicamente por
um anjo (Jo 5,4-7) na piscina de Betzatá, em pleno shabat;
- As águas
e as mãos lavam e acariciam os pés dos discípulos
(Jo 13,5-6);
- As águas
lavam as mãos de Pôncio Pilatos (Mt 27,24);
- As águas
não lavam as mãos dos discípulos, antes de comer
(Mt 15,2.20; Mc 7,2-5);
- As águas
não lavam as mãos de Jesus antes de comer na casa de um
fariseu e causam escândalo (Lc 11,38);
- As águas
voltam a hidratar uma mão mirrada, em pleno shabat (Mt 12,9-14;
Mc 3,1-6; Lc 6,6-11);
- As águas
lavam o rosto ao jejuar-se (Mt 6,17);
- As águas
lavam as redes dos pescadores pecadores (Lc 5,2);
- Como
a água em Caná, agora o vinho é transmutado em
sangue numa santa ceia (Mt 6,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,17-20);
- As gotas
de suor, como sangue no Gat Shemenim, Getsemani (Lc 22,44);
- A sede
na cruz, a esponja, o vinagre com água, o fel e a mirra (Mc 15,23;
Lc 23,36; Jo 28,29);
- O flanco
direito aberto, vertendo sangue e água (Jo 19,34);
- O santo
suor, marcando um lençol por toda eternidade (Mc 15,46; Lc 23,53.24,12;
Jo 19,40.20,5-7);
- O ascender
e a promessa de regressar entre as nuvens dos céus (Mt 24,30.26,64;
Mc 13,26. 14,62;.Lc 21,27);
São
maravilhosos episódios evangélicos para refletir na quaresma
e na Páscoa. Através do mistério da encarnação,
as águas mobilizadas no corpo de Jesus tiveram uma participação
diferenciada em sua missão salvífica. As mesmas águas
interiores nos habitam. Não é fácil captar o rastro
das águas. Seu caminho de vai e vem, entre meandros de frases,
parágrafos e capítulos da boa nova. Nos textos evangélicos,
as águas revelavam sua luz nas lágrimas, no suor, na sede,
na saliva e nos gestos de limpeza e purificação desse Nazareno.
No sentido da ascensão, as águas tocam os pés, as
mãos, a boca, os olhos e a pele. Jesus aplicou a si mesmo o título
de água, de água viva. Quem bebe dessa água vê
crescer sua sede. Não busca mais outra água. É habitado
por um desejo insaciável de Infinito.
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