
Carlos Heitor Cony é jornalista
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A B R I L D E 2 0 0 4
A culpa feliz
Carlos
Heitor Cony
Nos meus tempos de seminário, sempre que chegava a Páscoa,
eu ficava impressionado com um hino composto por São Tomás
de Aquino que era cantado, se não me engano, no Sábado de
Aleluia. O chamado "Doutor Angélico" pode ser discutido
como filósofo ou teólogo, mas como poeta, embora usando
o latim corrompido da Idade Média, pode ser considerado como um
dos mais perfeitos e um dos primeiros a usar a rima com a mesma precisão
de Dante e Petrarca.
Nesse hino, o poeta teve a audácia de classificar como culpa feliz
o pecado original do qual, segundo a doutrina cristã, nasceu toda
a condição humana mortal e pecadora. "O Felix culpa":
"Oh culpa feliz que nos fez merecer tal e tanto redentor". Se
o homem não tivesse provado os frutos do bem e do mal, não
teria havido a redenção, estaríamos ainda no paraíso
terrestre, sem morte e sem dor.
Na esteira de Tomás de Aquino, mas de forma oblíqua e até
mesmo disssimulada, o mesmo raciocínio poderia ser entendido à
Paixão e morte de Cristo, que o filme de Mel Gibson colocou agora
em azeda discussão histórica, religiosa e sentimental.
Para consumar a redenção humana diante do seu criador, era
preciso que um cordeiro fosse imolado, seu sangue fosse derramado em abundância,
tal como mostra o filme de Gibson. Discutir se a culpa do sacrifício
de Cristo pertence aos judeus ou aos romanos é ocioso. Todos os
atos e fatos ligados ao suplício da cruz e do Calvário faziam
parte da redenção humana, daí a classificação
poética de "feliz" para a culpa do homem que, pecando
originalmente, tornou-se merecedor de tal e tanto redentor.
Não foram os judeus nem mesmo os romanos que suplicaram o Filho
de Deus - segundo a doutrina cristã. Foi o homem coletivo, o homem
comum que ao longo da história sempre dá um jeito de expressar
a condição humana, que é imperfeita, violenta e recorrente.
Daí a culpa - qualquer culpa - pode ser feliz.
Publicado
na Folha de São Paulo, no domingo de Páscoa de 2004
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