
Ali
Kamel, jornalista, editor-executivo da Central Globo de Jornalismo
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A B R I L D E 2 0 0 4
"A Paixão de Cristo"
e a pergunta absurda

"Cravo"
entalhe de Jubal S. Dohms
Ali
Kamel
De
tudo o que já se falou sobre "A Paixão de Cristo",
de Mel Gibson, o que mais me surpreendeu foi a pergunta que o filme andou
suscitando: "Quem matou Jesus?" Os judeus, sentindo-se justificadamente
ultrajados, escreveram artigos para mostrar que foram os romanos, claro,
porque dominavam então a província da Judéia. E acusaram
o filme de anti-semitismo. Alguns cristãos disseram que foram os
romanos e judeus, mas, mesmo assim, acentuaram que foram "aqueles"
judeus, e não todo o povo judeu. Outros cristãos preferiram
passar pela pergunta, reiterando apenas que nada há de anti-semita
no filme: se todos ali são judeus, de Jesus a Judas, como, então,
o filme pode ser anti-semita? Na verdade, o anti-semitismo do filme reside
exatamente em propiciar o ressurgimento de um debate como esse. Porque
a pergunta é absolutamente absurda.
Para os cristãos, a morte de Jesus era um plano de Deus, o mais
generoso plano de Deus, nada poderia impedi-la. Jesus sempre soube que
seria morto e fez questão de anunciar isso a seus discípulos,
muito antes da Paixão. Mateus conta: "Desde esse tempo, começou
Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário
seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no
terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo,
dizendo: 'Tende compaixão de ti, Senhor, isso de modo algum te
acontecerá.' Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: 'Arreda, Satanás!
Tua és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas
das coisas de Deus, e sim dos homens'".
Marcos e Lucas narram os mesmos fatos. Em outro momento, quando Jesus
vai à casa de Tiago e João, a mãe dos dois pede que
seus filhos sejam aceitos no novo reino e que se assentem "um ao
teu lado direito e outro a teu lado esquerdo". Jesus esclarece que
isso não compete a Ele, mas ao Pai, e o incidente provoca a fúria
dos outros dez discípulos. Mateus narra: "Então Jesus,
chamando-os, disse: 'Sabeis que os governadores dos povos os dominam e
que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim
entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande
entre vós, será o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro
entre vós, será vosso servo; tal como o Filho do Homem,
que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate por muitos'" (Mateus, 20: 22-28).
A morte de Jesus era, portanto, ao mesmo tempo, inevitável e necessária.
Porque, segundo os cristãos, Deus se fez carne para livrar os pecados
do mundo. Ao pecar, Adão legou a toda a sua descendência
o mesmo pecado, e ela, pecadora, teve como punição a morte
eterna. Com o sacrifício de Jesus, os pecados do mundo foram redimidos
e todo aquele que Nele crer será salvo.
A morte sacrificial é um tema antigo na Bíblia. Deus, para
comprovar a lealdade de Abraão, pediu-lhe em sacrifício
seu filho Isaac. Mas, no exato instante, a mão do anjo impediu
que ele cometesse o filicídio e recomendou que, em lugar de Isaac,
fosse morto um cordeiro. Na lei mosaica, o sangue era purificador, mas
deveria vir de um animal sem defeitos. "Quando alguém oferecer
sacrifício pacífico ao Senhor, quer em cumprimento de voto
ou em oferta voluntária, do gado ou do rebanho, o animal deve ser
sem defeito para ser aceitável; nele, não haverá
defeito algum" (Levítico, 22: 21).
Paulo, em sua carta aos Hebreus, diz: "Pelo que nem a Primeira Aliança
foi sancionada sem sangue, porque Moisés, proclamado todos os mandamentos
segundo a lei a todo o povo, tomou o sangue de bezerros e dos bodes, com
água e lã tinta de escarlate, e hissopo, e aspergiu não
só o próprio Livro, como também sobre todo o povo,
dizendo: 'Este é o sangue da Aliança, a qual Deus prescreveu
para vós outros'" (Hebreus, 9: 19-21).
Mas, para redimir o pecado herdado de Adão, que pecou em estado
de perfeição, somente a morte sacrifical de um ser também
puro e perfeito. E Deus, mostrando todo o amor à Humanidade, faz-se
homem e derrama o próprio sangue para salvar suas criaturas. É
também Paulo quem explica aos romanos: "Mas Deus prova o seu
próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós,
sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados
pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira" (Romanos 5: 8-11).
E, mais adiante: "Como pela desobediência de um só homem,
muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência
de um só, muitos se tornarão justos" (Romanos 5: 19).
Numa visão menos literal, discute-se até quem foi realmente
Adão. Porque os primeiros capítulos do Gênese são
escritos no tom e na clave do mito - não é um texto "realista".
Uma teologia moderna diria que Adão significa a Humanidade inteira,
o ser humano, feito de barro, e capaz de afastar-se de Deus. Mas, mesmo
nesse caso, a morte de Jesus tem relação com o rito da purificação:
uma espécie de Nova Aliança, de reforço da Aliança
antiga, trazendo ao ser humano melhores condições de acesso
à vida divina.
Se Jesus não tivesse morrido, não haveria cristianismo e
a vida Dele talvez se resumisse ao que descreve Nikos Kazantzakis, no
seu romance "A última tentação de Cristo"
(na cruz, Jesus tem sua última fraqueza e imagina como teria sido
a sua vida se o Pai tivesse mesmo dele afastado aquele cálice:
a velhice, ao lado de uma mulher bondosa e filhos, mas com a Humanidade
eternamente pecadora).
Por que, diante de uma história tão sublime, Mel Gibson
escolheu fazer um filme com um enfoque capaz de suscitar uma pergunta
como aquela, só ele pode responder.
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