
Francisco
M. Salzano, Doutor em Ciências, Professor Titular do Departamento
de Genética, Instituto de Biociências, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
francisco.salzano@
ufrgs.br
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M A I O D E 2 0 0 4
GENETICS AND MOLECULAR BIOLOGY
De Boa Esperança para o mundo
Dr. Francisco M. Salzano
Tenho registro de pelo menos três apresentações formais,
minhas, do meu querido amigo e quase irmão Newton Freire-Maia,
em 1959, 1968 e 1989. Estava longe de imaginar que, um dia, estaria fazendo
uma apreciação sobre ele após sua morte. De maneira
não muito original vou iniciar esta conversa com as mesmas palavras
proferidas há 44 anos atrás: "Era uma vez um rapaz
nascido em Boa Esperança, no sul de Minas, que com esforço
e tenacidade conseguiu sobrepujar as limitações de seu meio
e, apesar de todos os problemas e dificuldades, tornou-se um cientista
de renome internacional".
Já tanto se escreveu e falou sobre o Newton que, na verdade, é
difícil dizer algo de novo. Felizmente ele foi devidamente apreciado
e festejado ao longo dos seus 84 anos de vida. Opto, portanto, para inicialmente
mencionar as nossas relações pessoais. Em época tão
distante quanto 1951 eu acabara de finalizar meus estudos de graduação
e obtivera uma bolsa de aperfeiçoamento da Universidade de São
Paulo, para trabalhar em seu Departamento de Biologia, na então
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Acontece que a mesa que
eu ocupei no famoso casarão da Alameda Glette era justamente a
de Freire-Maia, que estava se afastando do Departamento para fundar um
Laboratório de Genética na Universidade Federal do Paraná,
em Curitiba. Ao fundo da sala havia um armário com uma série
de separatas de artigos do Newton que eu, naturalmente, comecei a examinar.
Quando de uma passagem rápida pela sala, na minha ausência,
ele notou o meu interesse e imediatamente deixou um conjunto delas, com
dedicatória, para mim, uma surpresa agradável para um jovem
principiante.
Um ano depois eu já havia retornado para Porto Alegre, onde iria
se realizar a IV Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência, e a incumbência que recebi de um de meus orientadores
de São Paulo, Antonio Brito da Cunha, era justamente defender o
argumento desenvolvido principalmente por Theodosius Dobzhansky de que
as inversões cromossômicas em Drosophila tinham caráter
adaptativo, o que era questionado pelo Newton. A discussão decorreu
em clima amigável, como ocorreria
com muitas outras, pois em geral nos posicionávamos em campos opostos
(como ocorreria, nas décadas de 70 e 80, sobre questões
relativas à carga genética e à controvérsia
selecionismo versus neutralismo).
Os nossos vínculos de amizade se estreitaram mais quando, juntos,
estagiamos em 1956/57, por um ano, no Departamento de Genética
Humana da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, EUA. Esta minha estréia
internacional prolongada foi muito facilitada pelo Newton, que me precedera
por três meses lá. Foi ele a primeira pessoa que encontrei,
na estação ferroviária de Ann Arbor à minha
chegada, e estava à minha disposição imediatamente
um apartamento mobiliado (eram três ao todo, um por andar) na casa
de madeira em que ele já estava vivendo com sua primeira esposa,
Flávia, e duas filhas pequenas. Freqüentemente nossa conversa,
no Departamento, se estendia além do horário normal e eram
às vezes tão animadas que os americanos vinham verificar
se não estávamos brigando!
Após nosso retorno estabeleceu-se um intenso intercâmbio
entre os grupos de Curitiba e Porto Alegre, que continua até hoje.
As publicações específicas entre o Newton e eu não
foram numerosas [duas versões, em português e inglês,
de um livro, publicadas respectivamente em 1967 e 1970; um artigo publicado
na Suíça sobre a carga genética em índios
brasileiros (1962); e a contribuição dele em capítulos
de livros que organizei a partir de conferências internacionais
em 1971 e 1975]; mas a interação em termos pessoais e profissionais
transcendem de muito estes registros escritos.
Newton Freire-Maia gostava muito de escrever. Seu primeiro livro, denominado
"Hereditariedade e vida", foi escrito quando ainda era estudante
secundário em Varginha e Belo Horizonte e publicado (através
de financiamento paterno) quando ele tinha 19 anos. Eram 500 exemplares
que foram amplamente distribuídos entre parentes, amigos, a imprensa
e intelectuais de diferentes áreas, inclusive do exterior. Assim,
o Newton recebeu cartas neutras ou encorajadoras de pessoas tão
importantes quanto Julian Huxley, Aléxis Carrel e Auguste Lumière
(o co-inventor, com seu irmão Louis, do cinema). Opinião
do Newton sobre esta estréia literária, em sua autobiografia
de 1995: "Relendo-o agora fico perplexo. Como é que eu consegui
cometer tantos erros crassos em tão poucas páginas? Na realidade,
é um livro que tem mais erros do que letras. E, por isto, tornou-me
um inimigo violento do autodidatismo. Francamente, ninguém (a não
ser um gênio) pode estudar sozinho e produzir algo que preste"!
Após este pecado da juventude, no entanto, o nosso herói
produziu uma obra invejável em termos de qualidade e quantidade,
de mais de 200 artigos científicos "in extenso", 19 livros
(dois deles publicados nos EUA), 22 capítulos de livros e um grande
número de artigos para jornais e revistas não-científicas.
Fico feliz em lembrar ter eu
encaminhado para Ciência Hoje o que deve ter sido um de seus últimos
artigos de divulgação ("câncer: causas, prevenção
e tratamento", em colaboração com Enilze Ribeiro, publicado
no número de dezembro de 2002 daquela revista).
Quais foram os temas que mais o empolgaram durante a sua carreira? Em
termos de genética humana desenvolveu várias pesquisas sobre
demografia genética e a variabilidade de características
normais, mas de especial interesse para esta audiência foram seus
estudos sobre: (a) os efeitos genéticos sobre a mortalidade precoce
e patologias diversas dos casamentos consangüíneos; (b) os
efeitos genéticos das radiações ionizantes; (c) malformações
reducionais dos membros; (d) retardamento mental; e (e) displasias ectodérmicas.
Com relação a essas últimas condições,
quando ele iniciou seus estudos sobre as mesmas, o número de displasias
ectodérmicas descritas variava de 1 a 8. Em 1999 ele chegava a
quase 160, e cerca de 12% deste total eram síndromes novas, descritas
por ele e sua colaboradora, Marta Pinheiro. O trabalho inicial sobre esta
série foi publicado em 1971 na revista "Human Heredity",
editada na Suíça. Sobre este trabalho ele me escreveu a
seguinte nota "Querido Salzaninho (ele sempre me chamava assim!)
O Newton da Costa diz que cada cientista publica, em geral, um trabalho
importante em toda a sua vida. Mendel publicou um; Einstein chegou a quatro.
Este, pelo que me parece, é o trabalho mais importante de todos
os meus 50 anos de trabalho. Pequenino (quatro páginas), mas mudou
o paradigma da área".
Nenhuma avaliação sobre a vida de Newton Freire-Maia poderia
deixar de mencionar sua personalidade encantadora. Eleidi, sua segunda
esposa, salientou recentemente que um aspecto marcante desta personalidade
era o seu respeito pela liberdade do próximo, fosse ele seu parente,
aluno, colega ou desconhecido. Além disso, ele sempre expôs
suas idéias em defesa da justiça social, mesmo na época
da ditadura. Segundo ela Freire-Maia na intimidade era um esposo, pai
(4 filhos, um falecido prematuramente) e avô (nove netos) amoroso
e compreensivo, que alegrava as reuniões familiares com sua capacidade
de contar casos. "Sua capacidade em fazer amigos e conservar as amizades
era notável. Newton foi um ser humano muito bom, verdadeiro e de
ótimo gênio" concluiu Eleidi.
Após sua morte Freire-Maia tem recebido muitas homenagens. O reitor
da Universidade Federal do Paraná decretou luto oficial de três
dias após o seu falecimento. A Assembléia Legislativa do
Paraná aprovou voto de pesar na mesma época; e o governador
Roberto Requião informou, em 22 de maio, que o Parque da Ciência,
naquele estado, será reaberto com o nome de Newton Freire-Maia.
A este reconhecimento oficial somam-se os da enorme legião de seus
amigos e admiradores. Newton foi um exemplo marcante de uma vocação
irresistível pela ciência (ao contrário do que ele
denominava de vocações resistíveis!). Ele permanecerá
sempre na memória de seus discípulos e colegas, cientistas
ou não-cientistas, mesmo porque, como afirmou Octavio Paz, se a
memória se dissolve o homem se dissolve.
Transcrito
da Revista da SGB
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