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Francisco M. Salzano, Doutor em Ciências, Professor Titular do Departamento de Genética, Instituto de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
francisco.salzano@
ufrgs.br


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GENETICS AND MOLECULAR BIOLOGY
De Boa Esperança para o mundo

Dr. Francisco M. Salzano


Tenho registro de pelo menos três apresentações formais, minhas, do meu querido amigo e quase irmão Newton Freire-Maia, em 1959, 1968 e 1989. Estava longe de imaginar que, um dia, estaria fazendo uma apreciação sobre ele após sua morte. De maneira não muito original vou iniciar esta conversa com as mesmas palavras proferidas há 44 anos atrás: "Era uma vez um rapaz nascido em Boa Esperança, no sul de Minas, que com esforço e tenacidade conseguiu sobrepujar as limitações de seu meio e, apesar de todos os problemas e dificuldades, tornou-se um cientista de renome internacional".

Já tanto se escreveu e falou sobre o Newton que, na verdade, é difícil dizer algo de novo. Felizmente ele foi devidamente apreciado e festejado ao longo dos seus 84 anos de vida. Opto, portanto, para inicialmente mencionar as nossas relações pessoais. Em época tão distante quanto 1951 eu acabara de finalizar meus estudos de graduação e obtivera uma bolsa de aperfeiçoamento da Universidade de São Paulo, para trabalhar em seu Departamento de Biologia, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Acontece que a mesa que eu ocupei no famoso casarão da Alameda Glette era justamente a de Freire-Maia, que estava se afastando do Departamento para fundar um Laboratório de Genética na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Ao fundo da sala havia um armário com uma série de separatas de artigos do Newton que eu, naturalmente, comecei a examinar. Quando de uma passagem rápida pela sala, na minha ausência, ele notou o meu interesse e imediatamente deixou um conjunto delas, com dedicatória, para mim, uma surpresa agradável para um jovem principiante.

Um ano depois eu já havia retornado para Porto Alegre, onde iria se realizar a IV Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e a incumbência que recebi de um de meus orientadores de São Paulo, Antonio Brito da Cunha, era justamente defender o argumento desenvolvido principalmente por Theodosius Dobzhansky de que as inversões cromossômicas em Drosophila tinham caráter adaptativo, o que era questionado pelo Newton. A discussão decorreu em clima amigável, como ocorreria
com muitas outras, pois em geral nos posicionávamos em campos opostos (como ocorreria, nas décadas de 70 e 80, sobre questões relativas à carga genética e à controvérsia selecionismo versus neutralismo).

Os nossos vínculos de amizade se estreitaram mais quando, juntos, estagiamos em 1956/57, por um ano, no Departamento de Genética Humana da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, EUA. Esta minha estréia internacional prolongada foi muito facilitada pelo Newton, que me precedera por três meses lá. Foi ele a primeira pessoa que encontrei, na estação ferroviária de Ann Arbor à minha chegada, e estava à minha disposição imediatamente um apartamento mobiliado (eram três ao todo, um por andar) na casa de madeira em que ele já estava vivendo com sua primeira esposa, Flávia, e duas filhas pequenas. Freqüentemente nossa conversa, no Departamento, se estendia além do horário normal e eram às vezes tão animadas que os americanos vinham verificar se não estávamos brigando!

Após nosso retorno estabeleceu-se um intenso intercâmbio entre os grupos de Curitiba e Porto Alegre, que continua até hoje. As publicações específicas entre o Newton e eu não foram numerosas [duas versões, em português e inglês, de um livro, publicadas respectivamente em 1967 e 1970; um artigo publicado na Suíça sobre a carga genética em índios brasileiros (1962); e a contribuição dele em capítulos de livros que organizei a partir de conferências internacionais
em 1971 e 1975]; mas a interação em termos pessoais e profissionais transcendem de muito estes registros escritos.

Newton Freire-Maia gostava muito de escrever. Seu primeiro livro, denominado "Hereditariedade e vida", foi escrito quando ainda era estudante secundário em Varginha e Belo Horizonte e publicado (através de financiamento paterno) quando ele tinha 19 anos. Eram 500 exemplares que foram amplamente distribuídos entre parentes, amigos, a imprensa e intelectuais de diferentes áreas, inclusive do exterior. Assim, o Newton recebeu cartas neutras ou encorajadoras de pessoas tão importantes quanto Julian Huxley, Aléxis Carrel e Auguste Lumière (o co-inventor, com seu irmão Louis, do cinema). Opinião do Newton sobre esta estréia literária, em sua autobiografia de 1995: "Relendo-o agora fico perplexo. Como é que eu consegui cometer tantos erros crassos em tão poucas páginas? Na realidade, é um livro que tem mais erros do que letras. E, por isto, tornou-me um inimigo violento do autodidatismo. Francamente, ninguém (a não ser um gênio) pode estudar sozinho e produzir algo que preste"!

Após este pecado da juventude, no entanto, o nosso herói produziu uma obra invejável em termos de qualidade e quantidade, de mais de 200 artigos científicos "in extenso", 19 livros (dois deles publicados nos EUA), 22 capítulos de livros e um grande número de artigos para jornais e revistas não-científicas. Fico feliz em lembrar ter eu
encaminhado para Ciência Hoje o que deve ter sido um de seus últimos artigos de divulgação ("câncer: causas, prevenção e tratamento", em colaboração com Enilze Ribeiro, publicado no número de dezembro de 2002 daquela revista).

Quais foram os temas que mais o empolgaram durante a sua carreira? Em termos de genética humana desenvolveu várias pesquisas sobre demografia genética e a variabilidade de características normais, mas de especial interesse para esta audiência foram seus estudos sobre: (a) os efeitos genéticos sobre a mortalidade precoce e patologias diversas dos casamentos consangüíneos; (b) os efeitos genéticos das radiações ionizantes; (c) malformações reducionais dos membros; (d) retardamento mental; e (e) displasias ectodérmicas. Com relação a essas últimas condições, quando ele iniciou seus estudos sobre as mesmas, o número de displasias ectodérmicas descritas variava de 1 a 8. Em 1999 ele chegava a quase 160, e cerca de 12% deste total eram síndromes novas, descritas por ele e sua colaboradora, Marta Pinheiro. O trabalho inicial sobre esta série foi publicado em 1971 na revista "Human Heredity", editada na Suíça. Sobre este trabalho ele me escreveu a seguinte nota "Querido Salzaninho (ele sempre me chamava assim!) O Newton da Costa diz que cada cientista publica, em geral, um trabalho importante em toda a sua vida. Mendel publicou um; Einstein chegou a quatro. Este, pelo que me parece, é o trabalho mais importante de todos os meus 50 anos de trabalho. Pequenino (quatro páginas), mas mudou o paradigma da área".

Nenhuma avaliação sobre a vida de Newton Freire-Maia poderia deixar de mencionar sua personalidade encantadora. Eleidi, sua segunda esposa, salientou recentemente que um aspecto marcante desta personalidade era o seu respeito pela liberdade do próximo, fosse ele seu parente, aluno, colega ou desconhecido. Além disso, ele sempre expôs suas idéias em defesa da justiça social, mesmo na época da ditadura. Segundo ela Freire-Maia na intimidade era um esposo, pai (4 filhos, um falecido prematuramente) e avô (nove netos) amoroso e compreensivo, que alegrava as reuniões familiares com sua capacidade de contar casos. "Sua capacidade em fazer amigos e conservar as amizades era notável. Newton foi um ser humano muito bom, verdadeiro e de ótimo gênio" concluiu Eleidi.

Após sua morte Freire-Maia tem recebido muitas homenagens. O reitor da Universidade Federal do Paraná decretou luto oficial de três dias após o seu falecimento. A Assembléia Legislativa do Paraná aprovou voto de pesar na mesma época; e o governador Roberto Requião informou, em 22 de maio, que o Parque da Ciência, naquele estado, será reaberto com o nome de Newton Freire-Maia.

A este reconhecimento oficial somam-se os da enorme legião de seus amigos e admiradores. Newton foi um exemplo marcante de uma vocação irresistível pela ciência (ao contrário do que ele denominava de vocações resistíveis!). Ele permanecerá sempre na memória de seus discípulos e colegas, cientistas ou não-cientistas, mesmo porque, como afirmou Octavio Paz, se a memória se dissolve o homem se dissolve.

Transcrito da Revista da SGB

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