
Professora
Dra. Maria Luíza Petzl Erler, Coordenadora do Departamento
de Genética do Setor de Ciências Biológicas da Universidade
Federal do Paraná
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M A I O D E 2 0 0 4
Ciência e sabedoria
Dra. Maria Luíza Petzl Erler
A ausência do nosso querido Professor Newton muito nos entristece,
porém, é com grande alegria que estamos aqui, para contar
um pouco sobre a sua história e sobre o seu legado e as profundas
impressões que deixou em seus alunos colegas, colaboradores e amigos.
Como um dos fundadores da Genética no Brasil, de algum modo, Newton
Freire-Maia está presente nas realizações de muitos
dos que estão aqui reunidos e de pelo menos outros tantos, ausentes
deste Congresso.
O Professor Doutor Newton Freire-Maia faleceu no dia 10 de maio deste
ano, em Curitiba, aos 84 anos de idade. Teve quatro filhos, Regina Flávia,
Maria de Fátima, Newton Filho (este, já falecido) e Marco
Domiciano, e também nove netos. Deixa viúva a Professora
Eleidi Alice Chautard Freire-Maia, geneticista. Mineiro de Boa Esperança,
nascido em 29 de junho do ano de 1918, Newton Freire-Maia morava no Paraná
desde 1951. Formado em Odontologia, já havia decidido dedicar-se
à Biologia e à Genética. Por indicação
do Professor Padre Jesus Santiago Moure, aceitara o convite do Professor
Homero de Mello Braga para ministrar a disciplina de Biologia Geral para
os alunos de História Natural da antiga Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras e instalar um Laboratório de Genética,
para continuar na Universidade Federal do Paraná as pesquisas que
tinha iniciado na Universidade de São Paulo, sobre genética
das populações de Drosophila. De 1956 a 1957 esteve durante
um ano na Universidade de Michigan, com bolsa da Fundação
Rockfeller, quando passou a estudar Genética Humana. Em 1958, o
Laboratório de Genética da Universidade Federal do Paraná
transformou-se então em Laboratório de Genética Humana
e a equipe do Professor Newton, pioneiro na área de Genética
Humana e Médica, no Brasil, passou a pesquisar sobre casamentos
consangüíneos e malformações dos membros, a
princípio. Esse grupo e seus discípulos originaram o atual
Departamento de Genética do Setor de Ciências Biológicas
da Universidade Federal do Paraná. Newton Freire-Maia foi também
pioneiro na implantação de um Serviço de Aconselhamento
Genético. Doutorou-se em Ciências Biológicas pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1960, com uma tese sobre Casamentos
Consangüíneos no Brasil. Até o início da década
de 1970, foi Chefe do Departamento de Genética da Universidade
Federal do Paraná. Publicou mais de 200 artigos completos em periódicos
científicos especializados e duas dezenas de livros ao longo de
sua carreira, além de 22 capítulos de livros e de numerosos
artigos de divulgação, em jornais e revistas.
Criou o CEDE - Centro de Estudos de Displasias Ectodérmicas, com
a Dra. Marta Pinheiro, o qual logo se tornou referência internacional
sobre o assunto. Descreveu 23 entidades nosológicas novas, além
de ter criado uma definição e uma classificação
clínicas. Publicou três livros sobre as displasias ectodérmicas
e vários artigos de revisão. O número total de displasias
ectodérmicas conhecidas, que era menor que 10 quando o trabalho
foi iniciado, hoje chega a quase 200.
A competência e a capacidade científica do Professor Newton
Freire-Maia estão mais do que demonstradas no seu riquíssimo
currículo, tão recheado de importantes realizações.
Newton Freire-Maia foi representante do Brasil na Organização
Mundial da Saúde, em Genebra na Suíça. Era membro
titular da Academia Brasileira de Ciências, presidente de honra
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade
Brasileira de Genética, da qual fora sócio fundador e Presidente.
Até deixar-nos em maio, foi Professor Emérito da Universidade
Federal do Paraná e um dos diretores do Instituto Ciência
e Fé, do qual foi Co-Fundador. Ao longo de sua carreira, recebeu
numerosos prêmios e homenagens, de instituições de
ensino, de pesquisa, governamentais e de outras instituições,
brasileiras e estrangeiras. Entre as inúmeras homenagens póstumas
que vem recebendo, recentemente, o Parque da Ciência do Estado do
Paraná, localizado na região metropolitana de Curitiba,
recebeu o nome de Newton Freire-Maia.
Newton Freire-Maia contava que "a ciência e o laboratório
entraram muito cedo na vida daquele menino de grupo escolar". O avô
paterno, Domiciano, tinha um laboratório, no qual, entre outras
coisas, produzia gás hidrogênio, utilizado pelos garotos
em seus balões. Foi ali que ele "pôde realizar observações
e experiências e encantar-se com elas. Aos 15 anos, ..., decidiu
ser cientista". Dizia também que "os caminhos para essa
meta não se abriam diante dele com a nitidez e a simplicidade dos
rumos que tomaram os seus colegas. Afinal, depois de alguns tropeços
e atropelos, já com 24 anos de idade, começou a ser cientista,
... em genética de drosófilas, pelas mãos de Dreyfus
e Pavan, no ano de 1946".
Freire-Maia tinha um grande amor pela ciência e uma capacidade ímpar
de trabalho. Aposentado havia 22 anos, nunca parou de trabalhar. Diariamente,
ia ao Departamento de Genética. Dizia: "a minha residência
e esse Departamento são as maiores fontes de felicidade que tenho
em Curitiba". Gostava de ensinar e, principalmente, de aprender.
Gostava de escrever livros, artigos e resenhas e também cartas,
muitas, mantendo intensa correspondência com seu vasto círculo
de amigos, que tão bem sabia cultivar.
Suas qualidades humanas e virtudes deixaram marcas profundas em todos
que o conheceram. É difícil expressar com palavras a profunda
sensação que o Professor Newton deixou em todos os que o
conheceram e que tiveram o privilégio de conviverem com ele. Fica
o testemunho e a saudade daqueles que tiveram a regalia de conviverem
com tão notável pessoa. Tinha uma extraordinária
capacidade de comunicação e suas falas costumavam ter grande
e interessada audiência, de todas as faixas etárias. Homem
discreto, sábio e inquieto, interessava-se por tudo e também
questionava tudo, sempre de forma polida. Seus comentários eram
certeiros e bem-humorados. Preocupou-se sempre com as questões
sociais, em busca de justiça social. Newton Freire-Maia deixou
muitas lições e suas atitudes e idéias permitiram
que muitas sementes germinassem. A melhor homenagem é seguir o
seu exemplo de uma vida rica e criativa, de trabalho proveitoso e prazeroso,
de ação e criação embasadas sempre na honestidade,
na simplicidade, na humildade e na sabedoria. Para finalizar, uma mensagem
do Professor Newton aos jovens. "O jovem que quer ser cientista -
e à ciência dedicar todo o seu tempo e amor - tem pelo menos
três certezas: a de que morrerá um dia (como todo mundo),
a de que não ficará rico (como quase todo mundo) e a de
que se divertirá muito (como pouca gente)".
Posteriormente, as palavras da Profa. Dra. Maria Luíza
Petzl Erler foram publicadas na Revista da Scociedade Brasileira de Genética
(Genetics and Molecular Biology)
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