Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks

 

 




M A I O   D E   2 0 0 4

UFPR
Freire-Maia deixa legado científico

Cristina Simião


“A genética brasileira perde um dos seus expoentes. A UFPR perde um dos seus mais conceituados e atuantes pesquisadores. A sociedade paranaense, um, intelectual respeitado e engajado na luta pela democracia.
Perdemos todos nós a convivência diária de um pesquisador crítico, humilde, afável, que a todos encantava pela simplicidade e lucidez de suas idéias."
Glaci Zancam - presidente da SBPC.

O mineiro de Boa Esperança, que passou mais de meio século dentro dos laboratórios do Departamento de Genética e ajudou a tornar a UFPR conhecida internacionalmente, deixa uma vasta contribuição científica, além do exemplo de carisma e humildade. Esta é a opinião do chefe do Departamento de Genética, Elias Karan Júnior, que seguiu a mesma carreira influenciado pelo que considera um mestre.

Além dos 19 livros, dois dos quais publicados nos Estados Unidos, ficam 437 trabalhos científicos, principalmente sobre as displasias extodérmicas que são distúrbios nos tecidos das células. Freire-Maia classificou 22 displasias, das quase 200 doenças que são conhecidas hoje. O pesquisador, considerado o pai da Genética, chegou à UFPR ajudado pelo amigo Padre Jesus Santiago Moure, do Departamento de Zoologia. Aos 90 anos e ainda cumprindo jornada de 8 horas diáariaas no Setro de Biologia, Padre Moure diz que o sonho de Freire-Maia, que tinha formação em Odontologia, era atuar na Genética. "Quando surgiu uma vaga o transferimos de São Paulo, onde ministrava aulas na USP." Padre Moure conta que apesar de se julgar ateu, Freire-Maia costumava assistir as missas no Colégio Santa Maria. "Ele gostava da solenidade, mas não entendia o significado", explica. O porfessor Karam acrescenta: "Freire-Maia dizia que invejava as pessoas que conseguiam ter fé". Mais tarde, por orientação de um padre franciscano, se converteu ao catolicismo a ponto de escrever livros sobre a sensação de ser cristão e a relação entre ciência e religião.

Quando chegou à UFPR, em abril de 1951, Freire-Maia começou a pesquisar moscas domésticas, as drosófilas que coletava nos depósitos de frutas e nas casas. Só anos depois, quando terminou o doutorado no Rio de Janeiro, além de estudos nos Estados Unidos e na Suíça, mudou a linha de trabalho e passou a estudar os efeitos genéticos dos casamentos consangüíneos, como as malformações, retardo mental, entre outros aspectos. "Nas suas aulas, ele consegia
explicar tão bem o aconselhamento genético, que a gente visualizava um casal na frente do professor", lembra Karam, que começou a tabalhar com Freire-Maia ainda menino, há 43 anos. "Eu cuidava das moscas usadas nas pesquisas."

Para a presidente da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Glaci Zancan, Newton era um asceta da ciência. "Sua vasta cultura, capacidade de diálogo e espírito acolhedor fez com que reunisse ao seu redor a jovem intelectualidade curitibana durante o período militar". Glaci lembra que o pesquisador foi um dos mais atuantes da SBPC, chegando a ocupar a vice-presidência no período de maior dificuldade, quando houve confronto com os militares, de 1975 a 1977. Depois passou a ser considerado presidente de honra da entidade. O reitor Carlos Moreira Júnior, ao lamentar a perda do cientista, lembrou da solenidade dos 90 anos da UFPR, ocorrida em 19 de dezembro do ano passado, quando Freire-Maia recebeu uma medalha por ser um dos professores mais antigos em atividade, tendo se dedicado 52 anos à instituição.

Uma pessoa realizada

Numa das últimas entrevistas que concedeu para a Assessoria de Comunicação da UFPR, publicada no Jornal UF Paraná, em junho de 2001, o cientista dizia qu tinha realizado muito mais do que pretendia da vida. "Colhi mais frutos dos que esperava", falou, ao se referir às pesquisas. Explicou também que gostava de ver seu laboratório cheio de jovens interessados pela genética. "Com a idade a gente gosta mais da crianças e dos jovens. Hoje, ao contrário, deixo a porta aberta e quando entra um moço ou uma moça, pra mim é uma alegria. Na mocidade a gente é muito preocupado consigo próprio".


Transcrito de Notícias da UFPR, junho de 2003

< retorna ao sumário

Página Inicial