Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks

 

 


Evaristo Eduardo de Miranda
Diretor do Instituto Ciência e Fé, Doutor em Ecologia, pesquisador da Embrapa, autor do livro "Sábios Fariseus" entre outros


J U N H O  D E   2 0 0 4

ARTIGO
Um rabi da Galiléia

Evaristo Eduardo de Miranda

Nos tempos evangélicos haviam samaritanos, galileus, judeus, levitas etc. A palavra judeu designava os nascidos na Judéia, assim como os galileus eram os nascidos na Galiléia. Quando tratava-se de referir-se a todo o povo hebreu, os evangelhos usam a expressão israelitas ou filhos de Israel, como faz Jesus no episódio de Natanael, no evangelho de João. Naquele tempo, judeus eram os da Judéia. Hoje, o termo judeu designa todos israelitas. Ninguém pode estender aos israelitas, as críticas feitas à classe política da Judéia, tratada como judeus nos evangelhos, principalmente no caso de João.

Para muitos Jesus era judeu [1e2], pelo alcance moderno dado a esse termo. Na verdade, Jesus era galileu (Jó 7,41-42) [3], provavelmente de Nazaré e não da Judéia (Belém) onde escribas cristãos (de origem judeana?), situaram seu nascimento. Hoje nos evangelhos, os tradutores mais rigorosos usam a palavra judeano, ao invés de judeus. Isso evita transmitir ou estender ao conjunto do povo hebreu, críticas e episódios limitados a alguns dirigentes da Judéia, "os donos" de Jerusalém. Entre a morte de Salomão e o nascimento de Jesus, mesmo submetida a uma administração de origem judeana, a Galiléia viveu sua própria maneira de compreender as tradições israelitas.

O Primeiro Testamento foi escrito, em sua grande maioria, a partir do sul de Israel, da Judéia, com tendência a desvalorizar o que vinha do norte: monarcas julgados infiéis, templos dissidentes, cultos idólatras. Boa parte dos conflitos de Jesus com escribas judeanos podem ser entendidos - em parte - como reflexo dos esforços constantes das classes dirigentes do sul em impor sua visão religiosa à Galiléia, uma terra israelita, grega e pagã [4]. Jesus se opõe sistematicamente ao ideal centralizador do sul. Ele exerceu o essencial de seu ministério numa Galiléia devastada pela ocupação romana e, após sua morte na Judéia, é lá que tudo recomeça (Mc 16,7).

O rabi Jesus não escreveu um evangelho [5]. Quais foram as primeiras ou primitivas palavras de Jesus? Nunca teremos acesso às palavras autênticas de Jesus. Todas as palavras (logia) disponíveis nos dias de hoje foram "escutadas", ouvidas e transmitidas oralmente e, posteriormente, apoiadas em anotações escritas. Os primeiros escritos cristãos não tinham a preocupação de legar às gerações futuras uma documentação de caráter representam as várias maneiras cristãs e pós-pascais de escutar a Única Palavra [6]. Histórico sobre a vida de Jesus. Buscavam testemunhar sua fé. Sempre foi mais fácil contar a história da fé cristã do que a história do cristianismo e principalmente do seu nascimento. Marcos, Mateus, Lucas, Tomé, João e tantos outros representam as várias maneiras cristãs e pós-pascais de escutar a Única Palavra .

Qual era a vida e o mundo das comunidades que deram origem aos quatro evangelhos? Como essas comunidades relacionavam-se com as diversas tendências do judaísmo? Como organizaram-se para preservar-se e crescer? O comportamento das primeiras comunidades cristãs tem sido objeto de diversos estudos científicos. Com a ampliação dos métodos e a crescente disponibilidade de fontes e materiais arqueológicos, a natureza e a forma das comunidades primitivas está sendo melhor entendida.

As comunidades cristãs primitivas não se constituíram a partir dos textos evangélicos. Pelo contrário, foram elas quem deram origem e sistematizaram os textos evangélicos, a partir do anúncio recebido.
Isso é fundamental para entender-se a questão do farisianismo e do judaísmo nos evangelhos. A vida, a visão e as realidades das primeiras comunidades cristãs terminaram transpostas nos evangelhos, muitas vezes anacronicamente.

Apesar da experiência original da fé, os textos evangélicos foram socialmente construídos em contextos determinados. Nenhum texto bíblico é autônomo ou alheio aos fatos e eventos de seu tempo e à sua volta. Os evangelhos são o resultado do encontro de pelo menos duas realidades: o mundo social e o mundo do texto, da fé. Até o século IV, os cristãos falavam unicamente do Evangelho ou, em hebraico, Bessorá, o único Anúncio de Iehoshua ben Iossef (Jesus filho de José), distinguindo suas quatro partes por referência a seus autores Matyah, Marcos, Lucas e Iohanan.

Com grande fidelidade aos relatos evangélicos, Mel Gibson oferece esse mariano filme sobre a Paixão de Cristo. Durante a Quaresma, ele fez, e ainda faz, mais gente meditar do que muitas pregações. O século XX e uma cristologia muito preocupada em divinizar Jesus acabaram limpando o corpo do martirizado, pelourinhos - pode-se contemplar um espelhar de fidelidade entre a única paixão do Jesus de Nazaré e suas imagens barrocas e holiwoodianas. O filme e as igrejas barrocas seguem altamente recomendados. Representado apenas com algumas esfoladuras e gotas de sangue no rosto. O Jesus desse filme está em todos os Cristos barrocos.

Imagens do Jesus enterrado por seus amigos e seguidores fariseus, Nicodemos e José de Arimatéia, e não pelos discípulos. Nas igrejas barrocas do Brasil, nas imagens do Senhor morto - num tempo em que o chicote ainda falava nos pelourinhos - pode-se contemplar um espelhar de fidelidade entre a única paixão do Jesus de Nazaré e suas imagens barrocas e holiwoodianas. O filme e as igrejas barrocas seguem altamente recomendados.

1 Hugo Schlesinger & Humberto Porto. Jesus era judeu. Paulinas. S. Paulo. 1979.

2 Marie Vidal. Um judeu chamado Jesus. Uma leitura do evangelho à luz da Torá. Ed. Vozes. 1997.

3 André Myre. C´était un galiléen. in Le Monde de la Bible. N.134. Paris. 2001.

4 Pierre Debergé. La Galilée: une terre grecque païenne? in Le Monde de la Bible. N.134. Paris. 2001.

5 Gueza Vermes. Religião de Jesus - o Judeu. Ed. Imago. Rio de Janeiro. 1995.

6 Os estudos exegéticos e históricos mais recentes estimam em 18% as palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos como sendo realmente genuínas ou tido sido efetivamente pronunciadas por ele.


< retorna ao sumário

Página Inicial