
Evaristo Eduardo de Miranda
Diretor do Instituto Ciência e Fé, ministro das
exéquias, Doutor em Ecologia, pesquisador da Embrapa, autor dos
livros "Sábios Fariseus" e "A sacralidade das águas
corporais" pelas Edições Loyola, entre outros, com
obras editadas na França e na Itália
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
ARTIGO
Mestres
de Humanidade
Evaristo Eduardo
de Miranda
"Quando
eres um festim,
convida pobres, leijados,
coxos e cegos." (Lc 14,13)
Ágata é pequenina, bem pequenina no seio de sua mãe.
Sua mamãe e seu papai sentem seu viver, seu desenvolvimento e a
amam. Ela tem cinco meses e um exame de ecografia descobriu que ela não
tem cérebro. Nascendo, não poderá viver. O médico
tenta consolar a família, esmagada pela dor, propondo que poderiam
ir aquele dia mesmo ao hospital e efetuar um chamado aborto terapêutico.
Muitos vão falar aos pais nesse sentido, evocando a razão.
Os pais, apesar do imenso sofrimento, tomam a seguinte decisão:
esse bebe é nosso, ele vive, é necessário guardá-lo
e sobretudo amá-lo. Ágata ficará até o final
nesse berço de ternura que é o seio da sua mamãe.
Nos meses seguintes, eles são obrigados a resistir a todas as pressões
do seu meio ambiente que consideram sua decisão um ato de loucura.
Há também aqueles que os apoiam: alguns parentes próximos,
um padre amigo, as irmãs religiosas da maternidade... Ágata
nasceu com oito meses. Ela viveu uma meia hora. Foi nos braços
de seu pai que ela foi batizada.
Meses depois os pais puderam dizer: "Nós estamos em grande
sofrimento e também em grande serenidade. Ágata vive junto
ao Pai, numa paz que nós desconhecemos na Terra(1).
Ela participa, do seu modo, na nossa vida de todos os dias, bem como na
vida de toda a Terra . Essa é a história da pequenina Ágata,
uma pedrinha preciosa (Ap 2,17) e não pedra no caminho.
Todos nascemos extremamente deficientes e carentes. Durante toda a vida
continuamos frágeis. Ninguém vive num refúgio onde
não possa ocorrer uma enfermidade, um acidente ou simplesmente
um cansaço. Se uma morte repentina ou acidental não colher
a vida do jovem ou adulto, a entrada na velhice é uma experiência
certa de portar-se sucessivos limites e ampliadas deficiências e
fragilidades. "Os membros do corpo que parecem os mais fracos são
necessários e devem ser os mais honrados" (1Cor 12, 22-25).
Negar a presença da fragilidade na vida humana é negar a
realidade da morte. As deficiências e fraquezas sempre lembram a
última despossessão, a mais absoluta de todas: a morte.
Numa sociedade de super-homens, as pessoas não aceitam a fragilidade,
a fraqueza e a deficiência. Irritam-se com o choro das crianças,
ficam irados com a surdez ou a dependência dos idosos e repudiam
um epiléptico e suas crises. A fraqueza e a diferença despertam
em alguns a cólera e a rejeição. Em outros, a deficiência
incita a um amor possessivo e perigoso. A fragilidade do outro e de cada
um deveria ser uma fonte de compaixão. Quando alguém é
rejeitado por sua fraqueza pode tornar-se deprimido e confuso. Quando
alguém é aceito, apreciado, escutado e amado por suas fraquezas,
estas convertem-se em fonte de paz e alegria. A compaixão pode
ser, ao contrário da rejeição e do preconceito, uma
fonte real de crescimento e bem estar para os mais pequeninos(2).
A fraqueza não ilude. A ilusão está no desejo de
ser forte e poderoso, rejeitando as realidades da fragilidade e da morte
na vida de cada um.
Para
o cristianismo, ser humano eqüivale a aceitar a coabitação
em cada um da força e fraqueza, da saúde e doença,
da perfeição e imperfeição, da vida e morte.
Os deficientes são eficientes. O clamor e a confiança de
seus corações são capazes de abrir corações
totalmente fechados e mudar vidas. Os mais fracos suscitam potências
de amor escondidas no coração dos poderosos. Para Mahatma
Gandhi, "a vida é somente vida quando existe o amor".
A imagem socialmente aceita do ser humano ideal é um mito: uma
pessoa autônoma, eficaz e competente (se possível rica e
bela). A sociedade deveria definir-se como um lugar onde leva-se em conta
as necessidades de todos os seus membros, sem exceção e
onde reconhece-se os dons de cada um. Esse é o sentido da civilidade
e da civilização, como nas palavras do papa João
Paulo II: "A qualidade de uma sociedade ou de uma civilização
não se mede pela sua riqueza, nem pela sua eficiência, mas
pelo respeito que ela manifesta com relação ao mais pequeninos".
Sem ouvir e acolher os deficientes, a sociedade não é capaz
de usufruir de sua sabedoria escondida, de seu perfume, fora das normas.
E eles são mestres de humanidade.
A tradição espiritual judaica e cristã mostra caminhos
para descoberta de uma humanidade comum e escondida em todas as pessoas,
muito além das diferenças, consideradas por alguns como
ameaçadoras ou perigosas. Os frágeis e deficientes trazem
insegurança e ajudam os humanos a descobrir suas feridas, seus
limites e sua humanidade comum. Quem aceita suas fraquezas e limites,
vive na insegurança. Essa insegurança gera uma disponibilidade
para conhecer novos espaços e realidades. Ela retira do isolamento,
do alcance das seitas, do sectarismo e da ilusão da onipotência
e da onisciência. Passa-se a pertencer a uma comunidade, sem exclusão
possível, um sentimento tão forte no judaísmo e nos
judeus (Is 58,6-7)
1-
Marie-Hélène Mathieu. Dieu m´aime comme je suis.
Saint Paul, Versailles, 1998
2- Jean Vanier. Accueillier notre humanité.
Presses de la Renaissance, Paris, 1999.
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