
DOM GERALDO MAJELLA AGNELO, 71, doutor em teologia com especialização
em liturgia, cardeal-arcebispo de Salvador (BA) e primaz do Brasil, é
o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
BIOÉTICA
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Biogenética:
esperanças, ilusões e riscos
Geraldo Majella
Agnelo
Afirmamos, uma vez mais,
que a vida deve ser respeitada em todos os momentos,
desde o seu início até o seu fim
Apoiamos
as pesquisas científicas em benefício da humanidade.
Em recente documento sobre a clonagem humana, a Santa Sé, uma vez
mais, ressalta seu apoio a tudo o que visa minorar os sofrimentos e propiciar
avanços na qualidade de vida para todos. "Por isso, a Santa
Sé encoraja as pesquisas que estão sendo realizadas nos
campos da medicina e da biologia (...) contanto que sejam respeitosas
para com a dignidade do ser humano". O mesmo texto, que condena a
manipulação de embriões e de células embrionárias,
ressalta que, dentro dos pressupostos usuais da ética, é
preciso prosseguir com as pesquisas desenvolvidas com células-tronco
"adultas" encontradas sobretudo no cordão umbilical.
A atual posição da igreja não é nem nova nem
surpreendente. Até pelo contrário, vem confirmar aquilo
que o santo padre, num dos seus mais inspirados documentos, tão
bem qualifica como sendo o Evangelho da Vida. Nós nos alegramos
com as verdadeiras conquistas que trazem benefícios para todos
sem prejudicar a ninguém. Proclamar o Evangelho da Vida é
o núcleo central da mensagem cristã. Entretanto, como não
existem dois evangelhos (Gálatas; 1,7), também faz parte
integrante da missão da igreja apontar certas sombras que, por
razões nem sempre nobres, são ocultadas aos olhos do público.
É nesse sentido que nos sentimos impelidos a dar nossa contribuição
no momento em que a Câmara dos Deputados deverá avaliar,
uma vez mais, o projeto da Lei de Biossegurança. Esse projeto se
refere tanto à complexa questão dos alimentos transgênicos
quanto ao uso de células-tronco embrionárias como objeto
de pesquisa na busca da cura de males que afetam seres humanos
Descobertas recentes nos mostram que as células-tronco se colocam,
por assim dizer, à disposição dos pesquisadores para
que eles possam direcioná-las na busca de curas de doenças,
mormente de cunho degenerativo. Fica cada vez mais comprovado que a mesma
sabedoria do Criador que colocou essas células na origem de cada
nova vida, ou seja, na fase embrionária dos seres humanos, faz
com que haja nas outras etapas da vida outras tantas células com
potencial igualmente terapêutico.
Certamente levados pelas melhores intenções, mas nem sempre
atentos a todas as dimensões da problemática, certos pesquisadores
julgam encontrar nas células-tronco embrionárias a única
saída para algumas doenças. E, mais, julgam ser mais "racional"
utilizar embriões congelados ou até mesmo produzir embriões
para pesquisa.
Acontece que o uso de células embrionárias esbarra em vários
impasses, uns técnicos e outros éticos. Entre os impasses
técnicos, hoje se sabe que as células embrionárias
são como que "selvagens" e, por isso mesmo, seu uso pode
apresentar sérios riscos, como vem assinalado no referido documento
da Santa Sé, com a devida documentação. Ademais,
mesmo de um ponto de vista estritamente técnico, é preciso
reconhecer avanços em termos de regeneração de órgãos
que apresentam deficiências, mas praticamente nada se conseguiu
ainda em termos do que indevidamente se denomina de "clonagem terapêutica".
Ainda que esse tipo de clonagem apresente objetivos teoricamente diferentes,
envolvem um mesmo processo de produção de embriões.
Ora, é neste ponto que se levantam as maiores objeções
de ordem ética.
Sabidamente, o embrião, desde a primeira fusão e as primeiras
divisões celulares, já dispõe de todas as "informações"
necessárias para os desdobramentos posteriores. A vida é
um processo que tem início com a fecundação. Afirmamos,
uma vez mais, e com toda a ênfase, que a vida deve ser respeitada
em todos os momentos, desde o seu início até o seu fim.
Entretanto, nesse contexto, faz-se ainda necessário chamar a atenção
para verdadeiras manipulações de ordem ideológica,
por vezes ocultando interesses de empresas de biotecnologia que montam
verdadeiro esquema de exploração econômica dos mistérios
da vida. Essa constatação deveria inclusive se constituir
em interpelação para a destinação de verbas
públicas, para que não se invista em hipóteses o
que é necessário para suprir as necessidades mais urgentes
do povo.
O reducionismo de caráter biológico e a maneira categórica
com a qual são apresentadas certas perspectivas terapêuticas
revestem-se de caráter profundamente deseducativo. Em vez de nosso
povo ser incentivado a cuidar de sua saúde, no sentido mais amplo
da palavra, pode acabar acreditando que laboratórios irão
resolver todos os problemas humanos.
Criem-se esperanças, solidariedade; não ilusões.
Transcrito da Folha de São Paulo, 7/11/04
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