
DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, SJ arcebispo de Mariana - MG.
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
BIOÉTICA
2
A
vida humana é inviolável
Dom Luciano
Mendes de Almeida
“Buscamos
um mundo possível e melhor,
que só acontecerá com a afirmação clara e
convicta
da dignidade da vida humana”
Os
massacres, fruto do ódio entre grupos rivais, infelizmente marcam
a história da humanidade. São atos hediondos de destruição
covarde de seres humanos. Hoje, os fatos continuam atestando a violação
constante do direito fundamental de viver que compete à pessoa
humana. Quem não se impressiona com as notícias de atentados
terroristas que eliminam inocentes e com represálias cada vez mais
absurdas? Para onde caminha a humanidade?
O que está em questão é a sacralidade da vida humana,
que tem sua origem e razão de sua dignidade no ato criador de Deus.
Mesmo para aqueles que não fazem uma leitura religiosa da vida
humana, ninguém tem o direito de violar a vida do próximo.
O reconhecimento da dignidade da pessoa é base para toda lei positiva,
e compete ao cidadão contar com a proteção das leis
contra os que agridem a sua vida e tentam eliminá-la.
A beleza e a evidência dessas afirmações encontram-se
gravemente atingidas pelas discussões em curso nos últimos
meses no Supremo Tribunal Federal e no Congresso Nacional.
A primeira causa de perplexidade encontra-se na decisão do ministro
do STF em que entende não haver crime de aborto nos casos de interrupção
de gravidez de fetos anencéfalos e autoriza, assim, a interrupção
voluntária da gestação de uma vida humana. A CNBB
e tantas vozes já se elevaram para discordar dessa decisão
e para afirmar o direito soberano à vida.
A segunda agressão ética à vida acaba de ser anunciada
com a recente votação no Senado, que se pronunciou pela
utilização para pesquisa científica de embriões
humanos, vivos e congelados.
O debate sobre essas questões abrange aspectos muito complexos
e importantes, que devem ser considerados e respeitados.
Lembramos os cuidados durante a gestação de fetos anencéfalos,
com especial solicitude pela mãe, o valor da pesquisa científica
e as grandes possibilidades de cura por meio das células-tronco,
que podem ser obtidas de outras fontes, como da medula.
No entanto há algo primordial que deve iluminar tudo o que se refere
à vida humana: é sua inviolável dignidade à
luz de Deus. A vida humana precisa ser sempre respeitada, não importando
o estágio ou a condição em que se encontra. Os juízos
morais não dependem de plebiscito ou da opinião da maioria
e, sim, unicamente da adequação à verdade.
O ser humano é o mesmo em qualquer fase de seu desenvolvimento
e possui igual dignidade desde o início de sua concepção,
ainda que seja embrião ou feto, portador ou não de defeito
genético e de doença incurável.
Portanto não é lícito e nenhuma razão pode
justificar que se sacrifique uma vida humana já presente no embrião
em benefício de outra nem é permitida a interrupção
provocada da gravidez do anencéfalo.
Nossos magistrados e legisladores têm o dever de salvaguardar o
pleno direito à vida que cabe a todo cidadão. Buscamos um
mundo possível e melhor, mas que só acontecerá com
a afirmação clara e convicta da dignidade da vida humana.
Com que coerência lutamos contra guerras, terrorismo, torturas e
assassinatos se somos coniventes com a eliminação de seres
humanos inocentes e indefesos? A vida humana é inviolável.
Transcrito
da Folha de São Paulo, 16/10/2004
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