
ANTONIO CARLOS COELHO
professor, diretor do Instituto Ciência e Fé
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
ARTIGO
Surpreender-se,
um mandamento divino
Antonio Carlos
Coelho
(ilustrações
Jubal S Dohms)
Surpreender-se
a si, aí está a questão
Uma
amiga contou-me que estava conflitada. Sua vida tinha tomado rumos inesperados.
Teve que tomar decisões de ordem pessoal, familiar e profissional
que jamais imaginara. Surgiram problemas com os filhos, já adultos
e encaminhados, teve necessidade de buscar up-grade profissional, e outras
coisas mais, não menos complicadas. Para quem já tinha ligado
o piloto automático da vida, essas novas situações
a colocaram em conflitos que envolviam questões de princípios
morais, religiosos. Agora ela teria que absorver, de uma hora para outra,
os impactos dos fatos. Teria que refazer seus conceitos que pareciam tão
sólidos, suficientes para explicar e sustentar as situações
da vida.
Ora, a minha amiga não é a única pessoa que se encontra
nessa situação. Acredito que muitos organizam a sua vida,
passam um bom tempo vivendo o previsível e o seguro. Imaginam estarem
definidos em suas carreiras e na vida familiar quando, de repente, acontecem
coisas que exigem uma ruptura e conseqüente revisão de valores.
São problemas de diversas ordens, que em cada caso, a cada pessoa,
se manifestam em diferentes proporções. Tomar uma posição
diante deles pode, muitas vezes, contrariar princípios, conceitos
e valores que até então pareciam inquestionáveis.

Certa vez o Rabino Sami, da comunidade judaica de Curitiba, em sua pregação,
contou uma história: Havia, há muito tempo, um rei que tinha
um costume muito peculiar. Ele conduzia cada um dos seus prisioneiros
a um salão do palácio real. Nesse salão havia um
arqueiro com a flecha pronta para ser lançada contra o prisioneiro.
Do outro lado havia uma porta muito grande e escura, com caveiras e dragões
entalhados. Ainda, para ficar mais aterrorizante, a porta estava manchada
com sangue. Ao prisioneiro eram dadas duas opções: a porta
ou a flecha.
Estava bem claro, para o prisioneiro, que se escolhesse a flecha teria
a morte certa, poderia até prever a dor que sentiria caso a morte
não fosse instantânea, mas tinha certeza do seu destino.
Já escolher sair pela sinistra porta, nada estava claro, era um
grande risco. Ela era assustadora e sugeria ser a porta do inferno. Dado
um tempo para a tomada de decisão, o rei, ordena ao prisioneiro
que escolha: tomar o rumo da porta ou ser atingido pela mortal seta. O
prisioneiro escolhe ser atingido pelo arqueiro. Opta conscientemente pela
morte.
Passados alguns dias, o faxineiro do palácio foi fazer a limpeza
do salão. Ao limpar próximo à porta acabou abrindo-a.
Ela nem estava trancada. Curioso, vai olhar, e o que vê não
condiz com o que todos pensavam: além daquela aterrorizante passagem
havia um belo jardim, com fontes, pássaros, árvores frutíferas.
Parecia o paraíso. A aparência da porta não condizia
com o que havia além dela.
Quando temos que fazer alguma escolha, daquelas mais sérias, que
envolvem situações que possam ter grandes conseqüências,
na maioria das vezes, optamos pelo conhecido, pelo previsível,
mesmo sabendo não ser o ideal, é o que nos permite uma antevisão
do resultado das nossas decisões. Tememos ousar, transgredir a
regra, errar e sofrer censura. Temos medo do descrédito e também
não queremos abandonar valores que nos foram fundamentais, que
constituem a nossa personalidade e que nos orientaram nas opções
mais significativas.
Como o prisioneiro da história, somos levados ao salão e,
diante da necessidade de escolha, preferimos pelo conhecido. Preferimos
enfrentar a dor prevista da flecha e a sua conseqüência fatal
do que arriscar pela porta que nos aparenta traiçoeira.

Lembro dos homens da Bíblia. Os grandes sempre optaram pela horrenda
porta. Preferiram correr o risco. Preferiram romper com o esperado, com
o destino fatal da repetição e da regra tida como natural
da vida.
Abraão, por exemplo, deveria dar continuidade às tarefas
e ao modo de vida dos seus pais, no entanto, preferiu enfrentar o desconhecido.
A história bíblica não nos conta os motivos da sua
opção. Fala-nos de uma "ordem divina", mas podemos
imaginar o quanto foi sofrido para ele tomar a decisão de partir,
largar casa e parentes, pegar o rumo de uma terra que não sabia
nem o endereço. E Abraão partiu, nos diz a Bíblia.
Esse partir consiste em transgredir o rumo natural da vida. Esse transgredir,
em muitas das vezes, consiste no obter o novo, o surpreendente. Consiste
em encontrar a integridade própria.
A ordem divina que fez com que Abraão tomasse a decisão
de partir, foi: "vai para ti mesmo" (no texto original). Ora,
vai para ti mesmo, é buscar-se a si, buscar a vida que possa completar
cada pessoa. Essa é a ordem divina para todos nós. O cumprimento
dessa ordem é exigente. É preciso ter coragem. É
preciso escapar da flecha do arqueiro e enfrentar a porta por mais tenebrosa
que nos pareça.
Jacó, o terceiro patriarca, enganou seu irmão. Inverteu
a ordem da primogenitura. Por isso precisou fugir, escapar da morte prometida,
mergulhar em terras estranhas. Lutou com D'us. Lutou com o mais forte,
com o intocável, o inquestionável. E, se assim, não
fizesse, seria ele o patriarca de uma grande família?
Moisés, com quarenta anos, revoltou-se com a injustiça.
Foi obrigado a abandonar a casa real do Egito e a deixar para trás
a vida cômoda e próspera dos príncipes do Nilo. Teve
que encarar o deserto, o nada, o desolamento, a solidão, o abandono.
O príncipe tornou-se pastor das cabras do seu rico sogro. De nobre
a pastor de cabras, o que teria passado na cabeça de Moisés?
Mas foi ele, o ex-príncipe que certamente escandalizou a corte
pelos seus atos, que se tornou libertador do seu povo. Moisés tornou-se
grande, abençoado entre os homens, porque optou pela passagem escura
da vida. Porque seguiu a ordem divina dada ao seu antepassado Abraão:
vai para ti mesmo. Moisés, ao longo da sua vida, se fez completo.
Muitas
vezes fazemos coisas surpreendentes, e somos admirados por isso. No entanto,
surpreendemos aos outros e não a nós mesmos. Temos consciência
de que não fizemos nada mais do que a contingência nos permitia.
Surpreender-se a si, aí está a questão. Abraão
e Moisés certamente surpreenderam-se a si com suas opções,
com a coragem de romper a ordem prevista da vida. É natural que
queiramos escapar dos conflitos. Eles nos importunam com suas exigências
e oferecem obstáculos que preferiríamos não ter que
ultrapassá-los. Como minha amiga, preferiríamos manter a
ordem natural da vida, no entanto, os conflitos apontam para uma nova
oportunidade. Talvez, através deles, consigamos nos surpreender
a nós mesmos. Talvez no conflito esteja a voz divina nos dizendo:
vai para ti mesmo.
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