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OSWALDO GIACOIA JÚNIOR
, doutor em filosofia pela Universidade Livre de Berlim, é professor do Departamento de Filosofia da Unicamp e Autor de Nietzsche & Para Além de Bem e Mal, pela Jorge Zahar Editor, entre outros giacoia@tsp.com.br


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OPINIÃO
Religião, moral e política

Oswaldo Giacoia Jr


Fica difícil afastar a impressão de que, no interior dos EUA, é como se a vitória de Bush tivesse suprimido a outra América

Absorvido o impacto da última eleição presidencial norte-americana, começa-se a relativizar, ou pelo menos a colocar em questão, o suposto peso decisivo de motivações fundadas em valores religiosos e morais na opção dos eleitores por George W. Bush. Não que se desconsidere a importância do fator representado pela coligação entre fé religiosa e valores morais, sobretudo se comparado com elementos de convicção que costumam atuar como variável decisiva em processos eleitorais.

Argumenta-se, por exemplo, com a alteração na configuração demográfica atual do eleitorado americano, particularmente com o papel representado pelos hispano-americanos e suas convicções e idiossincrasias, com o número expressivo de seu comparecimento ao pleito, sua percepção da candidatura Bush como a mais condizente com sua formação majoritariamente cristã, com suas expectativas de segurança, seus desejos de reconhecimento e ascensão sociopolítica. Especula-se também com o pesado investimento que a campanha republicana recebeu por parte do grande capital.

Passado algum tempo, parece um exagero considerar que a maior democracia do planeta, nascida no bojo da luta pela liberdade, direitos e garantias fundamentais, venha a se abismar num obscurantismo fanático, que impõe barreiras ideológicas medievais ao livre pensamento secular. Exageros à parte, mesmo agora, no entanto, não se pode deixar de reconhecer que temas como a pregação antiaborto, a aversão ao casamento entre homossexuais e a liberação de pesquisas com células-tronco representaram um papel de grande vulto tanto no cenário cultural da discussão política quanto no resultado eleitoral.

Em relação a esse fenômeno, meu interesse maior está em perguntar pela modalidade própria, pelo funcionamento e significação desse recurso a questões morais e convicções religiosas por parte tão expressiva do eleitorado de uma das democracias mais sólidas e progressistas do mundo, a ponto de gerar a discussão sobre seu status de fator preponderante no resultado das urnas.

Em sociedades pluralistas como as constituídas pelos modernos Estados democráticos de Direito, o recurso a artigos de fé religiosa ou a posições ético-metafísicas substancialistas não tem o poder de se legitimar por argumentos capazes de receber livre assentimento racional, o que redunda num apego dogmático a crenças religiosas ou morais, que são apresentadas como os únicos verdadeiros baluartes das supremas referências valorativas que definem a identidade coletiva de um grupo cultural. Porém, sob as condições do pluralismo ético contemporâneo, os valores substantivos tradicionais, que fornecem o substrato ético da identidade comunitária, têm que se abrir ao contato com o diferente, num confronto que não necessariamente deve ser hostil, mas no qual ficam abaladas as até então hígidas certezas sobre o universal e o absoluto.

O atritamento com a alteridade, por desestabilizador que seja, pode, no entanto, ser vivido na chave positiva do reconhecimento e da tolerância. Mas também pode sê-lo na chave negativa da exclusão, como oposição hostil e absoluta. É isso que ocorre quando, sob os efeitos irreversíveis da globalização planetária, o monolítico alicerce cultural constituído pelos referenciais religiosos e éticos começa a sofrer abalos sísmicos.

Em tais condições, o retorno à pretensa verdade inabalável dos valores originários não costuma ser uma prova da inesgotável potência vital dessa reserva ética nem mesmo uma postura existencial afirmativa e segura de si, mas aparece como signo de um fundamentalismo reativo, cuja dinâmica interna se alimenta da desqualificação do outro.

O que se encontra em operação, nesse caso, é um ressentimento insidioso, um apego negativo a constelações de valores que sente como ameaça à sua coesão originária a mera possibilidade de exposição de sua particularidade.

Esse jogo se torna perigoso quando essa espécie ressentida de crença religiosa e valoração moral passa a determinar os rumos dos processos na esfera política da sociedade, tal como parece ser o caso da onda fundamentalista que ajudou a eleger Bush, com o auxílio prodigiosamente eficaz da direita cristã reacionária. O uso político da guerra contra o terrorismo, a obsessiva preocupação com a segurança da própria nação, o fervor missionário característico dos "eleitos da verdadeira fé", o desprezo pelos valores emancipatórios da razão esclarecida, em suma, a violência obscurantista e preconceituosa exige, para afirmar-se, a negação do outro.

Por isso fica difícil afastar a impressão de que, no interior dos EUA, é como se a vitória de Bush tivesse suprimido a outra América -aquela aberta, tolerante e secular-, mesmo que a eleição tenha revelado que a nação está como que cindida ao meio.

Paradoxalmente, e segundo a mesma lógica, um processo semelhante se desenrola no pólo do "eixo do mal". Também entre os fundamentalistas islâmicos o fanatismo bárbaro, a violência destrutiva, o apego obstinado à pureza da única fé verdadeira podem ser vistos como "ultima ratio" de uma vontade de sobrevivência que só consegue se manter de pé ao preço da autodenegação de seu declínio, do ofuscamento inconsciente perante as fendas que a globalização e a modernidade produziram no ancestral núcleo granítico de seus valores culturais identitários.

Mais importante do que saber a expressão numérica exata do peso proporcional das "questões morais" no desfecho das eleições americanas seria perguntar-se pelo sentido da tendência histórica e cultural que ela sinaliza, assim como empenhar-se numa reflexão profunda sobre o que se encontra implicado na atual instrumentalização política da religião ou no enquadramento fundamentalista-religioso da política.


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