
OSWALDO GIACOIA JÚNIOR, doutor em filosofia pela Universidade
Livre de Berlim, é professor do Departamento de Filosofia da Unicamp
e Autor de Nietzsche & Para Além de Bem e Mal, pela Jorge Zahar
Editor, entre outros giacoia@tsp.com.br
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
OPINIÃO
Religião,
moral e política
Oswaldo Giacoia
Jr

Fica
difícil afastar a impressão de que, no interior dos EUA,
é como se a vitória de Bush tivesse suprimido a outra
América
Absorvido
o impacto da última eleição presidencial norte-americana,
começa-se a relativizar, ou pelo menos a colocar em questão,
o suposto peso decisivo de motivações fundadas em valores
religiosos e morais na opção dos eleitores por George W.
Bush. Não que se desconsidere a importância do fator representado
pela coligação entre fé religiosa e valores morais,
sobretudo se comparado com elementos de convicção que costumam
atuar como variável decisiva em processos eleitorais.
Argumenta-se, por exemplo, com a alteração na configuração
demográfica atual do eleitorado americano, particularmente com
o papel representado pelos hispano-americanos e suas convicções
e idiossincrasias, com o número expressivo de seu comparecimento
ao pleito, sua percepção da candidatura Bush como a mais
condizente com sua formação majoritariamente cristã,
com suas expectativas de segurança, seus desejos de reconhecimento
e ascensão sociopolítica. Especula-se também com
o pesado investimento que a campanha republicana recebeu por parte do
grande capital.
Passado algum tempo, parece um exagero considerar que a maior democracia
do planeta, nascida no bojo da luta pela liberdade, direitos e garantias
fundamentais, venha a se abismar num obscurantismo fanático, que
impõe barreiras ideológicas medievais ao livre pensamento
secular. Exageros à parte, mesmo agora, no entanto, não
se pode deixar de reconhecer que temas como a pregação antiaborto,
a aversão ao casamento entre homossexuais e a liberação
de pesquisas com células-tronco representaram um papel de grande
vulto tanto no cenário cultural da discussão política
quanto no resultado eleitoral.
Em relação a esse fenômeno, meu interesse maior está
em perguntar pela modalidade própria, pelo funcionamento e significação
desse recurso a questões morais e convicções religiosas
por parte tão expressiva do eleitorado de uma das democracias mais
sólidas e progressistas do mundo, a ponto de gerar a discussão
sobre seu status de fator preponderante no resultado das urnas.
Em sociedades pluralistas como as constituídas pelos modernos Estados
democráticos de Direito, o recurso a artigos de fé religiosa
ou a posições ético-metafísicas substancialistas
não tem o poder de se legitimar por argumentos capazes de receber
livre assentimento racional, o que redunda num apego dogmático
a crenças religiosas ou morais, que são apresentadas como
os únicos verdadeiros baluartes das supremas referências
valorativas que definem a identidade coletiva de um grupo cultural. Porém,
sob as condições do pluralismo ético contemporâneo,
os valores substantivos tradicionais, que fornecem o substrato ético
da identidade comunitária, têm que se abrir ao contato com
o diferente, num confronto que não necessariamente deve ser hostil,
mas no qual ficam abaladas as até então hígidas certezas
sobre o universal e o absoluto.
O atritamento com a alteridade, por desestabilizador que seja, pode, no
entanto, ser vivido na chave positiva do reconhecimento e da tolerância.
Mas também pode sê-lo na chave negativa da exclusão,
como oposição hostil e absoluta. É isso que ocorre
quando, sob os efeitos irreversíveis da globalização
planetária, o monolítico alicerce cultural constituído
pelos referenciais religiosos e éticos começa a sofrer abalos
sísmicos.
Em tais condições, o retorno à pretensa verdade inabalável
dos valores originários não costuma ser uma prova da inesgotável
potência vital dessa reserva ética nem mesmo uma postura
existencial afirmativa e segura de si, mas aparece como signo de um fundamentalismo
reativo, cuja dinâmica interna se alimenta da desqualificação
do outro.
O que se encontra em operação, nesse caso, é um ressentimento
insidioso, um apego negativo a constelações de valores que
sente como ameaça à sua coesão originária
a mera possibilidade de exposição de sua particularidade.
Esse jogo se torna perigoso quando essa espécie ressentida de crença
religiosa e valoração moral passa a determinar os rumos
dos processos na esfera política da sociedade, tal como parece
ser o caso da onda fundamentalista que ajudou a eleger Bush, com o auxílio
prodigiosamente eficaz da direita cristã reacionária. O
uso político da guerra contra o terrorismo, a obsessiva preocupação
com a segurança da própria nação, o fervor
missionário característico dos "eleitos da verdadeira
fé", o desprezo pelos valores emancipatórios da razão
esclarecida, em suma, a violência obscurantista e preconceituosa
exige, para afirmar-se, a negação do outro.
Por isso fica difícil afastar a impressão de que, no interior
dos EUA, é como se a vitória de Bush tivesse suprimido a
outra América -aquela aberta, tolerante e secular-, mesmo que a
eleição tenha revelado que a nação está
como que cindida ao meio.
Paradoxalmente, e segundo a mesma lógica, um processo semelhante
se desenrola no pólo do "eixo do mal". Também
entre os fundamentalistas islâmicos o fanatismo bárbaro,
a violência destrutiva, o apego obstinado à pureza da única
fé verdadeira podem ser vistos como "ultima ratio" de
uma vontade de sobrevivência que só consegue se manter de
pé ao preço da autodenegação de seu declínio,
do ofuscamento inconsciente perante as fendas que a globalização
e a modernidade produziram no ancestral núcleo granítico
de seus valores culturais identitários.
Mais importante do que saber a expressão numérica exata
do peso proporcional das "questões morais" no desfecho
das eleições americanas seria perguntar-se pelo sentido
da tendência histórica e cultural que ela sinaliza, assim
como empenhar-se numa reflexão profunda sobre o que se encontra
implicado na atual instrumentalização política da
religião ou no enquadramento fundamentalista-religioso da política.
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