
ZUENIR VENTURA é jornalista e escritor, autor de Chico
Mendes - Crime e castigo, entre outros
zuenir@oglobo.com.br
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
OPINIÃO
Em
nome de Deus
Zuenir Ventura
Pelo
menos agora as coisas ficaram mais claras: Bush não é um
acidente eleitoral de 2000 que 2004 iria corrigir, nem um desvio de comportamento
da sociedade ou uma anomalia na História americana. Na verdade,
Bush significa a vontade e o pensamento de quase 60 milhões de
pessoas. Mais do que causa, é reflexo e encarnação.
Tudo bem que ele mobiliza o que seus seguidores têm de pior, instigando
o medo e o ódio. Mas não foi ele quem inoculou isso nos
seus eleitores; apenas fez aflorar, dando-lhe voz e expressão.
Não
se trata, portanto, de conversão do eleitorado a suas idéias,
mas de comunhão, para usar um termo muito adequado a uma relação
marcada por conotações religiosas, a começar pela
linguagem messiânica de acentos bíblicos. A frase que ele
teria pronunciado na Pensilvânia - "Estou certo de que Deus
fala através de mim" - foi desmentida pelo porta-voz da Casa
Branca, mas não essa outra: "Tenham confiança em mim
e em minhas decisões, e serão recompensados."
Não por acaso Karl Rove, o estrategista da campanha, orgulha-se
de ter conseguido agora o voto de 4 milhões de evangélicos
que, segundo ele, fizeram falta em 2000. De fato, a tão falada
onda conservadora na crista da qual Bush surfou é engrossada pelo
fundamentalismo religioso.
Sua fé quase sobrenatural em si mesmo, sua ausência de dúvidas,
o espírito de "cruzada" do bem contra o mal fizeram dele
o escolhido de seus fiéis.
O duro nessas eleições é admitir que, mais do que
ele, quem venceu foi essa América regressista, intolerante, belicosa,
aquela que ampliou a maioria do governo no Congresso, que recusa as conquistas
liberais, que rejeitou em onze estados a união entre homossexuais,
que é a favor da guerra e que vai aumentar a representação
conservadora na Suprema Corte. Foi, em suma, o triunfo não de uma
pessoa e sim do que representa.
Os otimistas alegam que nos EUA os segundos mandatos nunca são
iguais aos primeiros, e o de Bush poderá ser o da reconciliação,
como ele próprio propôs no seu primeiro discurso após
a vitória. Será? Como mudar, se foi isso o que o reelegeu?
Por que ele iria adotar a moderação, se a maioria preferiu
o radicalismo?
Vai ser curioso observar como o país que não gosta de miscigenação,
onde branco é branco e preto é preto, é isso ou é
aquilo, fará coexistir pacificamente o vermelho e o azul. Haverá
sempre o consolo de que para cada americano que pensa de um jeito há
outro que pensa o contrário. E tudo o que de ruim se atribui ao
todo é mais justo atribuir-se a uma parte. O problema é
que o poder de decidir, de incendiar ou não o mundo não
está repartido, mas de um lado só.
Transcrito
de jornal O Globo de 06 /11/2004
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