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ZUENIR VENTURA
é jornalista e escritor, autor de Chico Mendes - Crime e castigo, entre outros
zuenir@oglobo.com.br


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OPINIÃO
Em nome de Deus

Zuenir Ventura

Pelo menos agora as coisas ficaram mais claras: Bush não é um acidente eleitoral de 2000 que 2004 iria corrigir, nem um desvio de comportamento da sociedade ou uma anomalia na História americana. Na verdade, Bush significa a vontade e o pensamento de quase 60 milhões de pessoas. Mais do que causa, é reflexo e encarnação. Tudo bem que ele mobiliza o que seus seguidores têm de pior, instigando o medo e o ódio. Mas não foi ele quem inoculou isso nos seus eleitores; apenas fez aflorar, dando-lhe voz e expressão.

Não se trata, portanto, de conversão do eleitorado a suas idéias, mas de comunhão, para usar um termo muito adequado a uma relação marcada por conotações religiosas, a começar pela linguagem messiânica de acentos bíblicos. A frase que ele teria pronunciado na Pensilvânia - "Estou certo de que Deus fala através de mim" - foi desmentida pelo porta-voz da Casa Branca, mas não essa outra: "Tenham confiança em mim e em minhas decisões, e serão recompensados."

Não por acaso Karl Rove, o estrategista da campanha, orgulha-se de ter conseguido agora o voto de 4 milhões de evangélicos que, segundo ele, fizeram falta em 2000. De fato, a tão falada onda conservadora na crista da qual Bush surfou é engrossada pelo fundamentalismo religioso.

Sua fé quase sobrenatural em si mesmo, sua ausência de dúvidas, o espírito de "cruzada" do bem contra o mal fizeram dele o escolhido de seus fiéis.

O duro nessas eleições é admitir que, mais do que ele, quem venceu foi essa América regressista, intolerante, belicosa, aquela que ampliou a maioria do governo no Congresso, que recusa as conquistas liberais, que rejeitou em onze estados a união entre homossexuais, que é a favor da guerra e que vai aumentar a representação conservadora na Suprema Corte. Foi, em suma, o triunfo não de uma pessoa e sim do que representa.

Os otimistas alegam que nos EUA os segundos mandatos nunca são iguais aos primeiros, e o de Bush poderá ser o da reconciliação, como ele próprio propôs no seu primeiro discurso após a vitória. Será? Como mudar, se foi isso o que o reelegeu? Por que ele iria adotar a moderação, se a maioria preferiu o radicalismo?

Vai ser curioso observar como o país que não gosta de miscigenação, onde branco é branco e preto é preto, é isso ou é aquilo, fará coexistir pacificamente o vermelho e o azul. Haverá sempre o consolo de que para cada americano que pensa de um jeito há outro que pensa o contrário. E tudo o que de ruim se atribui ao todo é mais justo atribuir-se a uma parte. O problema é que o poder de decidir, de incendiar ou não o mundo não está repartido, mas de um lado só.

Transcrito de jornal O Globo de 06 /11/2004

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