Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks

 

 


LUIZ PAULO HORTA

é jornalista


N O V E M B R O   D E   2 0 0 4

OPINIÃO
Uma nova idade média?

Luiz Paulo Horta

Um dos dados conhecidos da carreira do presidente Bush é a sua ligação com representantes do fundamentalismo cristão. Essas correntes estão agora representadas na Casa Branca como em nenhuma outra época da República americana. É um fato perturbador destes tempos que o crítico literário Harold Bloom já definiu como a Era Teocrática - ou que outros descrevem, em tons mais sombrios, como "uma nova Idade Média".

A carência de valores é geral. Aquilo que já foi a civilização ocidental cristã parece esvaziada da sua idéia-força - penosamente à procura de um novo código de conduta.

As conseqüências disso podem ser as mais variadas. Na velha Europa, por exemplo, o distanciamento dos valores cristãos é uma tendência que já vem de longe - e que agora resulta em igrejas vazias, baixíssima freqüência aos cultos religiosos. Mas uma das formas de reagir a esse vazio pode ser, paradoxalmente, uma nova busca da experiência religiosa - que é unificadora, que traz embutido um sentido para as coisas.

Os Estados Unidos, se nem sempre deram essa impressão, constituem um país que nasceu ancorado em princípios religiosos; e princípios rígidos, como os dos velhos Fundadores da República - aqueles puritanos que vieram da Europa no "Mayflower" para dar início a uma nova civilização. Algo da severidade dos Fundadores deixou sua marca na cultura americana - e foi, inclusive, motivo para a reação contrária.

Agora, de novo o pêndulo aponta para uma atração das origens. Desde os anos 80, as seitas protestantes de caráter carismático - chamadas "evangélicas" - conquistam mais espaço, em todos os setores da vida americana. Converteram muita gente - ou reconverteram. Como foi o caso do jovem George W. Bush, que, vindo de família bastante tradicional, "reconverteu-se" em seguida a um mergulho no drama do alcoolismo. Não há por que duvidar da sinceridade das convicções do presidente - que "reencontrou" o caminho ao ser chamado a participar de um grupo de leituras bíblicas. Ali ele teve o apoio - ou a luz - de que precisava para romper com o alcoolismo, que por pouco não destruía o seu casamento. O "novo Bush" subiu ladeira acima em seguida a essa redescoberta dos valores religiosos. Mas, filho de político, ele não deixou de perceber que nesses valores religiosos residia também uma alavanca para ações políticas - os evangélicos representando, hoje, cerca de 25% do eleitorado americano. Na campanha do pai, ele ajudou a fazer a ponte com os grupos evangélicos - trabalho em que Bush pai não era muito bom. A ponte ficou; também se mostrou útil na eleição de Bush filho; e foi a partir daí que a religião entrou pela porta da frente da Casa Branca.

Para a reeleição de Bush, os mesmos dados estavam postos na mesa. Líderes evangélicos como o reverendo Jerry Falwell se gabam de que o Partido Republicano, hoje, não elege um presidente sem o seu apoio. Temas de interesse para os religiosos - aborto, união dos gays, células-tronco - tiveram uma influência indiscutível nessa campanha. Por causa disso, e de suas posições mais liberais, o católico John Kerry foi apresentado, em muitos comícios, como sendo um inimigo da família americana, dos valores perenes da nação.

A vitória de Bush parece confirmar as referências a uma Era Teocrática. E tudo isso fica mais dramático se se pensa que, no outro lado do espectro, está Osama bin Laden com o seu fundamentalismo que é um fanatismo islâmico.

Mas essa explosiva mistura de religião com política jamais deu resultados previsíveis, ou confiáveis. Mesmo no lado islâmico, estudos recentes mostram como muitos muçulmanos estão revendo ou reestudando a sua fé a partir de fatos como o 11 de Setembro ou a tragédia de Beslan. Se, desse lado, os fundamentalistas são, por ampla margem, os mais barulhentos e vistosos, não é verdade que o islamismo se resuma a interpretações fanáticas como a de Bin Laden.

Do mesmo modo, uma leitura cuidadosa do processo político que acaba de se fechar nos EUA mostra que não há uma unidade "fundamentalista" protegendo os muros da Casa Branca. É verdade, existe uma opinião média americana - sobretudo fora das grandes cidades - que considera o mundo moderno uma combinação assustadora de violência e corrupção; e que, por causa disso, gostaria de se dar as mãos em torno dos velhos ideais. Mas a própria divisão que essa eleição exibiu mostra que a opinião pública americana atravessa um período de inquietação extrema, e de revisão de propostas.

Mesmo dentro do movimento evangélico, Bush não foi capaz de encontrar apoio unânime. Foram muitas as vozes que se levantaram para dizer que o presidente, tudo bem, estava certo ao se opor ao aborto e ao casamento dos gays; mas que era difícil encontrar princípios cristãos no modo como foi decretada a guerra contra o Iraque.

Concluir, assim, que um partido religioso conservador garantiu a vitória de Bush pode ser um exagero. O que não significa negar que, na onda conservadora que varreu os EUA, o componente religioso certamente pesou, e tem livre trânsito no Salão Oval.

Transcrito do jornal O GLOBO de 05/11/2004


< retorna ao sumário

Página Inicial