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IMAGO Aroldo Murá G. Haygert
Clemente
Ivo Juliatto percorreu onze anos de formação marista. Vida,
naqueles tempos, até espartana, embora morando numa clássica
edificação, e que hoje abriga — curiosamente —
uma universidade, no bairro em Curitiba agora conhecido como Champagnat.
Status especial Vive a PUC-PR
desde 1975, quando começou, primeiro com o reitor Osvaldo Arns,
depois continuou ao lado do reitor Euro Brandão, a implantar os
dois campi pioneiros, o de Curitiba e o de São José dos
Pinhais. Para reivindicar status especial às universidades comunitárias, como a sua, Juliatto construiu na PUCPR uma inserção privilegiada em ações comunitárias. Em Tijucas do Sul, ao encaminhar para a universidade doação de 3 mil hectares de área com mata nativa que o iugoslavo Sergius Erdelyi e esposa queriam fazer-lhe como presente pessoal, Juliatto implantou um amplo programa de preservação ecológica. Lá estão 200 mil mudas de araucária e um centro de triagem de animais silvestres, além de programas gratuitos de apoio a pessoas carentes nas áreas médicas, odontológicas e de assistência rural. Imersão comunitária que hoje se aprende na universidade com gestos práticos: o aluno da PUC-PR passa obrigatoriamente, a partir do quinto período letivo, a cumprir 36 horas de trabalhos em ações sociais. Algumas em ambientes da própria universidade, como a Fazenda Experimental, localizada em Fazenda Rio Grande, centro de aprendizado e de pesquisas agronômicas, um dos marcos arquitetônicos e funcionais gestados pelo gênio do arquiteto Manoel Coelho (a cujo lado Juliatto sempre está, na concepção física dos campi). Mas há diversas clínicas médicas, odontológicas, psicológicas, hospitais, centro de saúde, creche mantidos pela universidade onde a ação pode ocorrer, requisito para a graduação. Se na vida tudo é mensurável, eis alguns números (apenas alguns) de bom exemplo de universidade comunitária — talvez a primus inter pares, no Brasil, e segundo estatísticas de 2004: são 7 mil funcionários e professores, 29 mil alunos de graduação, pós-graduação e doutorado, 91 grupos de pesquisas, 3.774 produções intelectuais cadastradas no Lattes, 152 bolsas de iniciação científica, sistema integrado de biblioteca com 550 mil exemplares, 27 bases de dados virtuais (com 537.340 consultas ao banco de dados), 7.204 bolsas de estudos distribuídas a estudantes em 2003, FIES 819, 2.913 alunos participantes de projetos comunitários acompanhados, 28.128 atendimentos do Programa de Ação Comunitária e Ambiental. Formação continuada O professor Belmiro Valverde Jobim Castor é um qualificado e insuspeito avaliador da contribuição de Juliatto à educação no Estado: “É admirável sua visão estratégica. Ao levar a PUC-PR a Londrina, o segundo centro universitário do Estado, e ao estender a universidade a cidades como Maringá e Toledo, irmão Juliatto enxerga com olhos de futuro. Tem uma correta noção de que limites geográficos da universidade teriam de ser ampliados”. Limites sem fimque agora passam a ser ofertados pela web, num vasto programa de ensino à distância continuado. Mais contemporâneo do futuro, impossível. Para o mesmo Belmiro, a PUC-PR tem qualidade de ensino inquestionável. Se o antigo provão e atual Enade não identificaram todos os avanços, “não seria o caso de se indagar até que ponto isso não se deve às ausências às provas incentivadas por setores universitários?”, indaga um antigo mestre, dos mais antigos, da PUC-PR. Uma universidade que pode ostentar hoje 83% de seu corpo docente com os títulos de mestres e/ou doutores — enquanto no País fixam-se metas de 33% dessas titulações como número a ser atingido para a universidade brasileira —, “a PUC-PR não seria um oásis de excelência?”, indaga o mesmo acadêmico. Não joga xadrez. Mas Juliatto é um enxadrista da educação superior. Em 2000 introduziu projetos pedagógicos com métodos moderníssimos. Um deles, polêmico, mas frutífero: muda-se o foco da universidade, o aluno passa a ser o mais importante da história. Ao mestre compete fazer do estudante um bom aprendiz. Essa nova visão hoje reinante na PUC-PR dá ênfase à chamada aprendizagem superior, substituindo a idéia de ensino superior simplesmente. Um exemplo de a quantas andam a acuidade e a agilidade do educador Juliatto é o método PBL (problem based learning), a aprendizagem baseada em problema. De origem
canadense, o PBL é uma das aquisições que esse globe-trotter
da educação apropria à realidade paranaense.
De Juliatto não se ouvem palavras amargas ou críticas a pessoas. Tudo é parte daquele cavalheirismo inconfundível que o assessor de imprensa da universidade, Pedro Bernardi, identifica como marcas do reitor. É um nobre, discute idéias, não nomes, conforme o adágio. Para o reitor, que, anos atrás, esteve “na fronteira da eternidade”, ao lutar contra um câncer, o que mais parece importar são realidades como a Aliança Saúde, a salomônica solução que Juliatto encontrou para preservar a Santa Casa de Curitiba e o Hospital Psiquiátrico N. S. da Luz que, na prática, se incorporaram à PUC-PR. O que só fez crescer um projeto acadêmico que comporta também hospitais como o Cajuru, Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos, Centro de Triagem de Animais Silvestres, estações de rádio — capitaneadas pela Rádio Clube, das mais antigas do País —, gráfica e editora universitária, centro de comunicação, emissora da TV... Novas realidades
não assustam, estimulam essa personalidade que é usina de
idéias. No momento, prepara a universidade para receber mais cinco
doutorados (hoje há o de Ciências da Saúde). E ali mesmo
o matemático cartesiano, o doutor e pós-doutor em planejamento
universitário, dá pistas de que está a alargar espaços
para o homem de fé. Parece estar repetindo a frase-mantra que o
acompanha: “O que você é constitui um presente de Deus
para você; o que você se torna é o seu presente para
Deus”. Transcrita
da Revista Idéias edição 23, junho de 2005 |
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