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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
JUNHO DE 2005

IMAGO
CLEMENTE IVO JULIATTO
D
outor em universidade

Aroldo Murá G. Haygert


(foto Diego Singh)


Os hortigranjeiros produzidos na chácara de Ulisses Juliatto e sua esposa, Maria Bassa Juliatto, em Costeira, distrito de colonização italiana de São JOsé dos Pinhais, acabaram tendo, por caminhos oblíquos, papel importantíssimo na montagem de um ensino superior de qualidade no Paraná. Tudo porque foi com o trabalho de plantar e levar frutas e verduras a escolas de Curitiba, de quem era fornecedor, que Ulisses acabou se aproximando ods irmãos Maristas, em cujo seminário menor o filho do casal - Clemente Ivo, então com 10 anos - iria, decorrência dos contatos paternos, entrar em 1950 na congregação dos educadores.

Clemente Ivo Juliatto percorreu onze anos de formação marista. Vida, naqueles tempos, até espartana, embora morando numa clássica edificação, e que hoje abriga — curiosamente — uma universidade, no bairro em Curitiba agora conhecido como Champagnat.
E Marcelino Champagnat, o santo e suas propostas pedagógicas e espirituais, geraram o educador com títulos raríssimos, na vida brasileira. Um deles, o de doutor em Organização e Administração Universitária, pela Columbia University, de Nova Iorque, onde Clemente também conquistou dois mestrados stricto sensu, na área, e depois um pós-doutorado em Harvard University, Boston, na especialidade. Tudo de 1980 a 1984.

O garoto de Costeira, vizinho do distrito de Mergulhão (onde nascera o pai), neto e bisneto de italianos, irmão de Ulisses Filho e Rafael, nunca teve dificuldades de conciliar a defesa de valores cristãos definitivos — como o respeito à vida humana desde a fecundação, um dos dogmas mais caros aos católicos — com a parceria com a ciência.
Hoje a PUC-PR, de que Juliatto é reitor desde 1998, coloca-se — só um exemplo — como produtora privilegiada de ciência no País, com o seu Laboratório de Engenharia de Transplante Celular. Uma referência.

Tudo sem romper com os postulados cristãos. Ali Juliatto montou um
raro viveiro de qualidade científica em que sobressaem nomes como os de Waldemiro Gremski, Paulo Roberto Brofman e Miguel Riella, dentre outros. Afinal, a medicina do futuro-presente não repousa nos avanços da genética?


Recebendo o título de Dr. Honoris Causa em Aix,
Provence, 2002
(foto Diego Singh)

Status especial

Vive a PUC-PR desde 1975, quando começou, primeiro com o reitor Osvaldo Arns, depois continuou ao lado do reitor Euro Brandão, a implantar os dois campi pioneiros, o de Curitiba e o de São José dos Pinhais.

Na Associação Brasileira de Universidades Comunitárias (ABRUC) é vice-presidente. A entidade envolve 38 instituições comunitárias de ensino superior que atendem pelo menos 700 mil alunos.
Juliatto abraça ardorosamente uma das teses que ele e o presidente da ABRUC, Aldo Vannucchi, da Universidade de Sorocaba, vão defendendo ardorosamente, com vistas à reforma universitária: “Universidade comunitária é universidade pública não-estatal. Tem status especial”, vai repetindo, em tom catequético, o reitor da PUC-PR. Afinal, educar não será também repetir?

Elegante em todos os sentidos, Juliatto é, no certeiro testemunho de um motorista da casa, “um homem sereno”, que dirige o próprio carro, mora em comunidade com meia dúzia de religiosos, e “jamais foi visto alterando o tom de voz, mesmo em momentos difíceis”, opina um dos seus assessores.

Para reivindicar status especial às universidades comunitárias, como a sua, Juliatto construiu na PUCPR uma inserção privilegiada em ações comunitárias. Em Tijucas do Sul, ao encaminhar para a universidade doação de 3 mil hectares de área com mata nativa que o iugoslavo Sergius Erdelyi e esposa queriam fazer-lhe como presente pessoal, Juliatto implantou um amplo programa de preservação ecológica. Lá estão 200 mil mudas de araucária e um centro de triagem de animais silvestres, além de programas gratuitos de apoio a pessoas carentes nas áreas médicas, odontológicas e de assistência rural. Imersão comunitária que hoje se aprende na universidade com gestos práticos: o aluno da PUC-PR passa obrigatoriamente, a partir do quinto período letivo, a cumprir 36 horas de trabalhos em ações sociais.

Algumas em ambientes da própria universidade, como a Fazenda Experimental, localizada em Fazenda Rio Grande, centro de aprendizado e de pesquisas agronômicas, um dos marcos arquitetônicos e funcionais gestados pelo gênio do arquiteto Manoel Coelho (a cujo lado Juliatto sempre está, na concepção física dos campi).

Mas há diversas clínicas médicas, odontológicas, psicológicas, hospitais, centro de saúde, creche mantidos pela universidade onde a ação pode ocorrer, requisito para a graduação. Se na vida tudo é mensurável, eis alguns números (apenas alguns) de bom exemplo de universidade comunitária — talvez a primus inter pares, no Brasil, e segundo estatísticas de 2004: são 7 mil funcionários e professores, 29 mil alunos de graduação, pós-graduação e doutorado, 91 grupos de pesquisas, 3.774 produções intelectuais cadastradas no Lattes, 152 bolsas de iniciação científica, sistema integrado de biblioteca com 550 mil exemplares, 27 bases de dados virtuais (com 537.340 consultas ao banco de dados), 7.204 bolsas de estudos distribuídas a estudantes em 2003, FIES 819, 2.913 alunos participantes de projetos comunitários acompanhados, 28.128 atendimentos do Programa de Ação Comunitária e Ambiental.

Formação continuada

O professor Belmiro Valverde Jobim Castor é um qualificado e insuspeito avaliador da contribuição de Juliatto à educação no Estado: “É admirável sua visão estratégica. Ao levar a PUC-PR a Londrina, o segundo centro universitário do Estado, e ao estender a universidade a cidades como Maringá e Toledo, irmão Juliatto enxerga com olhos de futuro. Tem uma correta noção de que limites geográficos da universidade teriam de ser ampliados”. Limites sem fimque agora passam a ser ofertados pela web, num vasto programa de ensino à distância continuado. Mais contemporâneo do futuro, impossível. Para o mesmo Belmiro, a PUC-PR tem qualidade de ensino inquestionável.

Se o antigo provão e atual Enade não identificaram todos os avanços, “não seria o caso de se indagar até que ponto isso não se deve às ausências às provas incentivadas por setores universitários?”, indaga um antigo mestre, dos mais antigos, da PUC-PR. Uma universidade que pode ostentar hoje 83% de seu corpo docente com os títulos de mestres e/ou doutores — enquanto no País fixam-se metas de 33% dessas titulações como número a ser atingido para a universidade brasileira —, “a PUC-PR não seria um oásis de excelência?”, indaga o mesmo acadêmico.

Não joga xadrez. Mas Juliatto é um enxadrista da educação superior. Em 2000 introduziu projetos pedagógicos com métodos moderníssimos. Um deles, polêmico, mas frutífero: muda-se o foco da universidade, o aluno passa a ser o mais importante da história. Ao mestre compete fazer do estudante um bom aprendiz. Essa nova visão hoje reinante na PUC-PR dá ênfase à chamada aprendizagem superior, substituindo a idéia de ensino superior simplesmente. Um exemplo de a quantas andam a acuidade e a agilidade do educador Juliatto é o método PBL (problem based learning), a aprendizagem baseada em problema.

De origem canadense, o PBL é uma das aquisições que esse globe-trotter da educação apropria à realidade paranaense.
No caso, os beneficiados são os estudantes de Medicina. O professor orienta o aluno a fazer as descobertas, assim conduzindo à autonomia da aprendizagem.


No Edifício da Biblioteca Central, tempo para reflexão, emoldura do por painéis como o de Sergius Erdelyi (foto Diego Singh)

De Juliatto não se ouvem palavras amargas ou críticas a pessoas. Tudo é parte daquele cavalheirismo inconfundível que o assessor de imprensa da universidade, Pedro Bernardi, identifica como marcas do reitor. É um nobre, discute idéias, não nomes, conforme o adágio. Para o reitor, que, anos atrás, esteve “na fronteira da eternidade”, ao lutar contra um câncer, o que mais parece importar são realidades como a Aliança Saúde, a salomônica solução que Juliatto encontrou para preservar a Santa Casa de Curitiba e o Hospital Psiquiátrico N. S. da Luz que, na prática, se incorporaram à PUC-PR.

O que só fez crescer um projeto acadêmico que comporta também hospitais como o Cajuru, Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos, Centro de Triagem de Animais Silvestres, estações de rádio — capitaneadas pela Rádio Clube, das mais antigas do País —, gráfica e editora universitária, centro de comunicação, emissora da TV...

Novas realidades não assustam, estimulam essa personalidade que é usina de idéias. No momento, prepara a universidade para receber mais cinco doutorados (hoje há o de Ciências da Saúde).
De olhos grudados no compromisso da educação marista, Juliatto às vezes se “retira”. Vai à Biblioteca Central, um dos edifícios dominantes do campus de Curitiba. E contempla longamente os imponentes painéis de Ida Hannemann de Campos (pinhão e gralha azul são o tema); Abraão Assad (as profissões); Poty Lazzarotto (registro da comunicação); Sergius Erdelyi (história da civilização). Parece viver intenso recolhimento interior, tempo de refrigério, de avaliação de seu papel de cristão, educador e religioso.

E ali mesmo o matemático cartesiano, o doutor e pós-doutor em planejamento universitário, dá pistas de que está a alargar espaços para o homem de fé. Parece estar repetindo a frase-mantra que o acompanha: “O que você é constitui um presente de Deus para você; o que você se torna é o seu presente para Deus”.

Transcrita da Revista Idéias edição 23, junho de 2005

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