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ANO 6 - ED 71 - JULHO DE 2005
Esperança
homeopática
Romeu de Bruns Neto
Produzido
no Paraná, o Canova está ajudando milhares de pessoas
em tratamento de câncer e Aids

Professora Dorly de Freitas Buchi, da UFPR: "O
africano não tem
tolerância ao atual coquetel de drogas utilizado no tratamento
da Aids.
Por isso o Canova vem despertando tanto interesse das autoridades
africanas".
Na
vila de Gabane, próxima à capital de Botswana, as pessoas
estão acostumadas com a morte. Nesse país da região
Centro-Sul do continente africano, a expectativa de vida está
em torno dos 40 anos. Mais de um terço da população
adulta é de portadores do vírus HIV. Conforme a tradição,
as pessoas de uma mesma tribo tratam-se como irmãos, mesmo quando
não há laços sangüíneos. Por isso,
em Gabane, sempre que alguém morre, a vila inteira pára.
E isso era algo que acontecia praticamente toda semana.
Essa realidade começou a mudar em 2003, quando uma equipe de
pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desembarcou
no país levando na bagagem o medicamento homeopático Canova.
O convite partiu do Ministério da Saúde de Botswana, que
tomou contato com a novidade em um seminário realizado na África
do Sul em 2001, a pedido da embaixada africana no Brasil. Como se trata
de homeopatia e não há nenhum grande laboratório
envolvido, a divulgação do Canova é assim mesmo,
na base da propaganda boca-a-boca.
Depois de algumas semanas de implantação do projeto "Ação
do medicamento homeopático Canova em pacientes portadores de
HIV/Aids em Botswana", a primeira mudança observada pelos
habitantes de Gabane é que já fazia algum tempo que ninguém
morria.
E isso contribuiu para que crescesse a fama do remédio. Então
saiu uma reportagem no Quênia, outra na Tanzânia e apareceram
convites dos ministérios da saúde desses países
e também do da Namíbia, para que o projeto fosse ampliado
naquele continente. "O africano não tem tolerância
ao atual coquetel de drogas utilizado no tratamento da Aids. Por isso
o Canova vem despertando tanto interesse das autoridades africanas",
conta a professora Dorly de Freitas Buchi, do Departamento de Biologia
Celular da UFPR.
Pioneirismo
Dorly é uma das pioneiras nas pesquisas científicas a
respeito desse medicamento desenvolvido pelo médico argentino
Francisco Canova, na década de 50 do século passado. Na
época, ele buscava um remédio para sua mãe, acometida
de carcinomatose, já em fase de metástase em vários
órgãos da região abdominal, o que provocava dores
terríveis. Canova, por sua vez, era discípulo de Joaquim
Alvarez de Toledo, médico de Buenos Aires que publicou em 1910
o livro "Nociones practicas de Homeopatia". Na obra, ele apresenta
estudos sobre como a necrose de tecidos e a morte de órgãos
ou de partes do corpo produzem substâncias tóxicas que
infeccionam a totalidade do corpo. Em termos de conceitos, é
algo muito próximo às recentes pesquisas sobre câncer,
que passaram a ter como foco o Fator de Necrose Tumoral (TNF, em inglês).
Das pesquisas de Canova, resultou um medicamento derivado de substâncias
vegetais, minerais e animais, que são extraídos de forma
particular e misturados seguindo uma seqüência especial.
A combinação e a seqüência de dinamização
desses componentes é essencial no processo de ação
do medicamento. O Canova age sobre os macrófagos, células
de defesa que estão presentes em todo o corpo e são responsáveis
pela fagocitose de organismos invasores.
Com o auxílio de fotografias feitas através do microscópio,
Dorly aponta os efeitos do homeopático sobre essas células.
"O macrófago fica 'ativado', aumenta de tamanho e tem sua
capacidade de fagocitose ampliada", explica a professora, que atualmente
coordena uma equipe responsável por sete teses, entre mestrados
e doutorados, a respeito do Canova. Além disso, o medicamento
aumenta o número de macrófagos, o que também acontece
com os linfócitos T e B, e com as citoquinas - estruturas que
fazem parte do sistema imunológico. Dessa forma, contribui para
uma redução do TNF e contenção da evolução
do tumor.
A farmacêutica Elenice Stroparo trabalha na UFPR em duas linhas
de pesquisa: os efeitos do Canova sobre as células e a qualidade
de vida dos pacientes. Segundo ela, além de não terem
sido registrados efeitos colaterais (o remédio atua apenas sobre
as células de defesa, enquanto a quimioterapia, por exemplo,
age em todas as células que estão em divisão),
o tratamento com Canova tem resultados rápidos e sensíveis
na melhora da disposição dos doentes, recuperação
do apetite, maiores níveis de atenção, redução
da dor, entre outros benefícios.

Pesquisadoras Elenice Stroparo e Ana Paula Abud:
reconhecimento
gradativo.
Evolução
Recentemente, a equipe coordenada pela professora Dorly Buchi publicou
quatro papers em revistas internacionais. Conforme a mestranda Ana Paula
Ressetti Abud, que desenvolve trabalho sobre a ação do
Canova nas células de medula óssea de camundongos, os
resultados positivos das pesquisas estão atraindo mais atenção
para o medicamento. "Mas ainda é muito difícil publicar
os trabalhos", informa Ana Paula. "As revistas científicas
não aceitam trabalhos sobre homeopatia, mas isso já foi
pior", acrescenta.
Os bons resultados do Canova também são atestados pelo
médico cirurgião oncológico Paulo Castanheira,
de Belo Horizonte. A primeira vez que tomou contato com o medicamento
foi em um congresso de medicina, através do médico argentino
Walfrido Valente. Sua reação foi de ceticismo. "Cirurgião
é o médico mais halopata que existe", justifica.
Há 10 anos, ele receitou o Canova para um paciente em estágio
muito avançado de câncer. Em 15 dias, ele estava almoçando
com a família, sem dor. De lá para cá, Castanheira
já repetiu o tratamento para 1.782 pessoas. "O resultado
é o que todo médico deseja para o seu paciente: resposta
rápida, significativa e sem efeitos colaterais", afirma
o médico.
Castanheira diz que a persistência dos bons resultados na utilização
do Canova tem mudado a atitude de muitos médicos em relação
à homeopatia. "Antes havia oposição. Hoje,
há uma resistência desarmada. Uma lâmina ao microscópio
em que se prova a ação do Canova sobre um tumor é
inquestionável. Não há argumentos contra isso",
defende. Castanheira ressalta que o medicamento não substitui
a quimioterapia, mas torna seus efeitos mais suportáveis. Dessa
forma, o paciente não precisa interromper o tratamento. Ou então
uma pessoa idosa, que não poderia passar pela terapia, com Canova
pode.
Crianças
e o HIV
Da mesma forma como ameniza os efeitos da quimioterapia, o remédio
tem resultado equivalente em relação aos anti-virais usados
no tratamento da Aids. Em Curitiba, o Canova vem auxiliando duas ONGs
que tratam crianças portadoras do HIV. São cerca de 60
pacientes no total. Na Associação Paranaense Alegria de
Viver (Apav), o medicamento contribuiu para reduzir os efeitos da lipodistrofia,
uma série de deformidades físicas causadas pelo uso dos
inibidores de protease (empregados para barrar o avanço do HIV,
eles agem quando o vírus já atacou a célula e evitam
que o núcleo seja destruído). Essas deformidades ocorrem
quando as defesas estão muito baixas; o paciente perde massa
muscular, o baço incha, rosto, pernas e braços afinam.
O Canova estimula a busca por proteínas (as pesquisas mostram
o aumento do consumo de carne) e de quebra aumenta também a presença
de vitaminas do complexo B - de que os doentes necessitam para repor
a massa muscular. "Gostaria que a medicina se voltasse mais para
a pesquisa de medicamentos que não fossem tão agressivos",
queixa-se a presidente da Apav, Maria Rita Teixeira.
Apesar de os pesquisadores e médicos envolvidos com a pesquisa
ressaltarem que o Canova não substitui os tratamentos halopáticos
convencionais, Maria Rita afirma que os portadores de HIV que apenas
tomam o Canova têm resultados mais visíveis. Porém,
o protocolo da Apav com o Hospital de Clínicas não permite
a suspensão do coquetel. "Se eu tratasse 100 crianças
com o coquetel e se dessas 50 morressem, a culpa seria do vírus.
Se eu tratasse as mesmas 100 somente com Canova e uma delas viesse a
falecer, a culpa seria da homeopatia", desabafa.
Dificuldades
com registro
Nas contas do laboratório Canova do Brasil, atualmente, cerca
de 8 mil pessoas no Brasil e 100 na África usam o medicamento.
Segundo o diretor Roberto Piraino, 80% da produção é
doada. Os 20% restantes correspondem às vendas a particulares,
resultado das receitas encaminhadas por médicos. Cada frasco
é vendido a cerca de R$ 80,00 e o faturamento é todo empregado
nas pesquisas. Mas a comercialização é feita apenas
como fórmula magistral. Ou seja, cada frasco é produzido
individualmente. Por isso, se houvesse escala, o produto seria mais
barato.
“A ANS (Agência Nacional de Saúde) não deixa
industrializar, apesar de terem sido cumpridas todas as exigências",
diz Piraino, colocando sobre a mesa todos os registros internacionais
já obtidos pelo laboratório e reclamando das dificuldades
em se obter um registro para industrialização no Brasil.
Para o médico Paulo Castanheira, somente quando o Canova for
distribuído por um grande laboratório internacional, com
preço em dólar, é que a comunidade médica
dará a devida atenção a esse medicamento.
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