Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Instituto Ciência e Fé Paslestras e Conferências Contato LInks

 

 


ANO 6 - ED 73 - SETEMBRO DE 2005

Teólogos e cientistas debatem questões de bioética

Por Ana Luzia Palka

O Instituto Ciência e Fé promove no próximo dia 22 de outubro, às 9h, em sua sede em Piraquara, o debate "Questões Emergentes e Bioética", com a participação dos professores Waldemiro Gremski e Mario Antonio Sanches. O encontro dará continuidade às questões levantadas no primeiro encontro, realizado em maio, sobre clonagem terapêutica e uso de células-tronco embrionárias no tratamento de doenças. Professores, teólogos, pesquisadores, religiosos, juristas e jornalistas estarão acompanhando a discussão. Mais do que propor um parâmetro ético para o desenvolvimento da ciência, o encontro servirá para apresentar diversos pontos de vistas e possíveis caminhos para a conciliação entre ciência e religião. A participação de professores renomados garante o alto nível das reflexões. Waldemiro Gremski é Coordenador do Laboratório de Engenharia e Transplante Celular da PUC-PR, um dos mais atuantes do país na pesquisa de células-tronco, e membro da CTNBio - Comissão Técnica Nacional de Biossegurança. Mario Sanches é doutor em Bioética e diretor do Departamento de Teologia da Universidade Católica do Paraná.

O ANTERIOR

O primeiro encontro contou com a participação dos professores Waldemiro Gremski, Paulo Broffmann, Salmo Raskin e Reverendo Valdinei Ferreira, além de uma platéia expressiva composta por especialistas da área científica, médica, filosófica e jurídica. Entre eles estava o professor e filósofo Ubaldo Puppi, em sua última participação pública antes do seu falecimento, em agosto passado. O debate se deu dois dias após o anúncio, por cientistas coreanos, da realização de experimentos que confirmaram a possibilidade de se obter células-tronco embrionárias (pluripotentes) na clonagem terapêutica por transferência nuclear. O mundo científico, naquela ocasião, ainda digeria a novidade, mas os especialistas presentes ao debate no Instituto Ciência e Fé puderam apresentar suas posições a respeito do tema. Para o professor Waldemiro Gremski, a clonagem terapêutica faz parte de um processo de desenvolvimento científico irreversível e se insere num contexto maior. A biotecnologia e a ciência dos materiais passam a constituir as duas grandes frentes de pesquisas do século 21. "Nada mais importante nesse momento que pessoas formadoras de opinião discutam esse tema de forma mais aprofundada. Precisamos nos posicionar diante dele de maneira racional, clara e tranqüila, evitando o dogmatismo", disse. Segundo Gremski, a questão é complicada porque envolve aspectos éticos e religiosos. Podemos questionar até que ponto a vertente transcendental - se o embrião tem alma ou não; se tem status de ser humano ou não - deve permear as discussões.

O médico Paulo Broffmann, cirurgião cardíaco, professor da PUC-PR com doutorado pela USP e pós-doutorado realizado nos Estados Unidos, explicou didaticamente como se procedem as pesquisas em terapia celular. Centrou seu pronunciamento nos trabalhos que coordena no Laboratório da PUC, voltados para células-tronco relacionadas a terapias de cardiomiopatias. Basicamente o objetivo é trabalhar com células-tronco do próprio indivíduo, visando fazer com que elas se diferenciem em célula muscular do coração para implante em pacientes com insuficiência cardíaca ou enfarte. Na sua opinião, ainda que os avanços apareçam quase diariamente em pesquisas realizadas no mundo inteiro, a técnica ainda se encontra em seu estágio inicial. "As perguntas são muitas e as respostas são poucas", disse. Salmo Raskim, médico geneticista, especialista em Genética Médica Molecular e um dos dez brasileiros que participam do Projeto Genoma, observou que a evolução das pesquisas está mais rápida do que se esperava e mudando os paradigmas da sociedade no mundo inteiro. "A ciência está caminhando com uma velocidade estrondosa", disse Raskin. "O trabalho dos coreanos está, inclusive deixando para trás o uso de embriões produzidos nas clínicas de fertilização, pois com o avanço da clonagem terapêutica, em que se produz células-tronco a partir do próprio indivíduo, teoricamente acaba-se com o problema da compatibilidade", explicou. A questão religiosa foi analisada pelo reverendo Valdinei Ferreira, pastor da Igreja Presbiteriana Independente, professor de Teologia da Faculdade Evangélica e doutorando em Sociologia na USP. Valdinei Ferreira entende que, no processo de clonagem, biologicamente o embrião está programado, o acompanhamento divino para geração de alma se faz presente, mas o processo está paralisado pela ausência da dimensão relacional. "O que é o embrião fora do útero? Um conjunto de códigos. Metaforicamente falando, ousaria dizer que o embrião fora do útero é uma espécie de alfabeto, sem que seja inserido num útero e numa teia de relações humanas nunca se tornará um texto", comparou. Valdinei Ferreira considera, portanto, legítimo o uso de embriões para o desenvolvimento de pesquisas, mas ressalta que isso não significa que possam ser tratados como "coisas" ou "produtos".

< retorna ao sumário

Página Inicial