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Fotos: Francisco Martins e acervo de família |
Por Ana Luzia Palka
A biblioteca se mantém como ele deixou. Era o seu reduto, fonte de suas leituras e de seus pensamentos. Sobre a mesa, organizados a seu modo, os papéis, recortes e rascunhos do que seriam os próximos artigos filosóficos do professor Ubaldo Martini Puppi. A socióloga e professora universitária Edi Ema Sacchelli Puppi enfrenta o momento com inteligência e serenidade: "A vida não nos é tirada. É transformada. Ele está vivo, no sentido de que sua obra e seu pensamento continuam conosco. São nesses valores que acreditamos, revestindo com uma dimensão mais rica, sem a marca do choro, o rompimento de uma ligação afetiva".
O filósofo e professor faleceu no dia 17 de agosto, seis dias antes de completar 82 anos. A sólida formação familiar de base católica, o ensino marista do Colégio Santa Maria e o período de recolhimento no convento dos dominicanos direcionaram Ubaldo Puppi para o estudo da filosofia de Santo Tomás de Aquino, uma linha que adotou ao ingressar no Instituto Católico da Universidade de Paris e à qual se manteve fiel durante toda a sua trajetória. Foi um dos mais respeitados pensadores brasileiros da atualidade.
O 14º dos dezesseis filhos de José e Cecília Puppi, prósperos comerciantes de Campo Largo, não seguiu o destino que o pai lhe reservara. Prevaleceu a vontade de dona Cecília e, ao invés de cuidar dos negócios da família, o menino veio para Curitiba estudar, assim como os outros irmãos, que mais tarde se formaram médicos, engenheiros, dentista e historiadora, além das três irmãs que seguiram a vida religiosa. Ubaldo Puppi cursou o ginásio no Colégio Santa Maria e completou seus estudos no convento dos dominicanos, em São Paulo. Essa ainda não era uma opção de vida, mas uma busca interior e de confirmação sobre o rumo a seguir.
Munido da certeza de que o seu caminho era a Filosofia e com uma bolsa de estudos do governo francês, Puppi embarca em 1947 para a França, onde toma contato com uma Paris em plena efervescência cultural e filosófica. "Ele se considerava um privilegiado por ter vivido aquele período em circunstâncias tão excepcionais para a sua formação", revela dona Edi. Merlot-Ponty e Jean Paul Sartre foram seus contemporâneos. Com eles, teve aulas, compartilhou reflexões e dividiu a mesa nos encontros informais do "Café de Flore". Os laços mais fortes, entretanto, foram mantidos com Jacques Maritain, o maior pensador católico do século 20, mestre que o ajudou a desvendar o tomismo, e de quem foi colaborador e amigo.
Nos cinco anos em que viveu em Paris, Puppi teve oportunidade de viajar por outros países, mas sempre dedicando especial atenção à Itália. De lá ele traz na bagagem uma das raridades de sua biblioteca completa de Tomás de Aquino, reunida numa coleção leonina (produzida no pontificado do papa Leão XIII) de quinze volumes, editados entre 1852 e 1926, em italiano. É com zelo e respeito que a coleção ocupa o seu espaço na biblioteca, aguçando a curiosidade sobre a fonte dos muitos ensinamentos posteriormente repassados por Puppi.
Ao
retornar para o Brasil em 1952, o jovem filósofo publica a sua
tese de doutorado. A obra "Itinerário para a verdade"
(Ed. Agir, 1955), com prefácio de Jacques Maritain, mereceu o
Prêmio Nacional de Filosofia. O original em francês do texto
de Maritain é guardado como outra preciosidade da família,
assim como o primeiro exemplar do livro, ainda no prelo, cuja dedicatória
emocionante dirigia-se à futura noiva Edi.
Em 1960, com dois filhos, transferem-se para Marília, no interior de São Paulo. O professor aceita o convite para atuar no curso de Filosofia da Universidade do Estado de São Paulo e lá permanece por 26 anos. Mantendo firmes os preciosos contatos que estabeleceu em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro, Ubaldo Puppi teve influência decisiva sobre os rumos do ensino naquela universidade. Por muito tempo dirigiu o Departamento de Filosofia e viveu o universo acadêmico com tudo o que tinha direito: integrando bancas de pós-graduação, concursos e congressos, presidindo comissões de reconhecimento de cursos, de análise de projetos, escrevendo artigos para revistas especializadas.
Juntamente
com alguns padres e com o professor Antonio Quelce Salgado, também
da Faculdade de Filosofia de Marília, Puppi vinha aprofundando
e divulgando a doutrina social da Igreja, com base nas encíclicas
do Concílio Vaticano II. Era responsável pela formação
de monitores para alfabetização de adultos, pelo método
Paulo Freire, o que na época representava também uma dinâmica
de politização das camadas mais pobres da sociedade. Sem
nenhuma acusação consistente, mas sob a pecha de serem
líderes católicos de esquerda, em abril de 1964 Puppi
e Quelce são perseguidos e presos pelo regime militar. Interrogados
no DOPS da capital paulista, os dois foram transferidos para a prisão
do Hipódromo e lá ficaram dez dias. Nesse tempo, com as
crianças pequenas, Edi se viu na urgente missão de sair
em busca de atestados da idoneidade do marido. Vem a Curitiba onde consegue
o apoio do reitor da Universidade Federal e do arcebispo D. Manuel da
Silveira D'Elboux, entre outras autoridades. Por interferência
do secretário da Justiça de São Paulo, o advogado
e colega Miguel Reale, os professores foram transferidos de volta para
Marília e postos em liberdade, mas Puppi foi surpreendido por
sua demissão sumária da Faculdade de Filosofia.
A liberdade não trouxe de volta a segurança profissional
anterior. Por mais de um ano, Puppi sustentou a família com a
venda de livros e produtos de limpeza. Recebeu o apoio de amigos até
a sua reintegração à universidade. A pressão
sobre todos os que se envolviam nos movimentos sociais da Igreja foi
se acirrando e em muitos momentos, até o fim da ditadura, a família
esteve sob ameaça. Cogitou-se, inclusive, o exílio, mas
o casal decidiu permanecer em Marília, apesar de tudo. "A
segurança da nossa inocência nos dava força para
enfrentar a situação", conta Edi.
"Ele
foi um filósofo extremamente capaz, brilhante, agudo no seu pensamento.
Sua forma de analisar e refletir com profundidade levava às causas
últimas da filosofia", observa o filósofo Jamil Iskandar,
doutor em filosofia medieval. Segundo Iskandar, Puppi demonstrou admiração
e respeito à filosofia árabe, bem como reconhecia a sua
importância para a escolástica.
Puppi sempre foi homem de muitos, muitos amigos. A sua morte fez surgir
outros, ainda desconhecidos de Edi. O porteiro do prédio ou o
manobrista do estacionamento certamente desfrutaram da mesma amizade
e da sabedoria que o professor Puppi dispensava aos mais ilustrados.
O valor desse sentimento para Puppi está expresso nas páginas
do "Itinerário para a verdade", onde ele descreve o
que caracteriza a fragilidade de uma amizade e, por outro lado, o que
é ser amigo, no sentido mais nobre e profundo do termo - "O
fim próprio e último da amizade, sem o qual ela não
subsiste e não merece nobreza com esse nome, é que o amigo
ame, bem-queira o amigo por ele mesmo, por sua bondade e amabilidade
própria, e seja amado da mesma maneira". (Leia
um trecho do livro) |
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