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Fotos: Francisco Martins e acervo de família


ANO 6 - ED 73 - SETEMBRO DE 2005


Ubaldo Puppi:
um itinerário de sabedoria e fé

Por Ana Luzia Palka


Puppi em foto da Revista do Globo
(RJ), edição de 21/07/1951

A biblioteca se mantém como ele deixou. Era o seu reduto, fonte de suas leituras e de seus pensamentos. Sobre a mesa, organizados a seu modo, os papéis, recortes e rascunhos do que seriam os próximos artigos filosóficos do professor Ubaldo Martini Puppi. A socióloga e professora universitária Edi Ema Sacchelli Puppi enfrenta o momento com inteligência e serenidade: "A vida não nos é tirada. É transformada. Ele está vivo, no sentido de que sua obra e seu pensamento continuam conosco. São nesses valores que acreditamos, revestindo com uma dimensão mais rica, sem a marca do choro, o rompimento de uma ligação afetiva".

O filósofo e professor faleceu no dia 17 de agosto, seis dias antes de completar 82 anos. A sólida formação familiar de base católica, o ensino marista do Colégio Santa Maria e o período de recolhimento no convento dos dominicanos direcionaram Ubaldo Puppi para o estudo da filosofia de Santo Tomás de Aquino, uma linha que adotou ao ingressar no Instituto Católico da Universidade de Paris e à qual se manteve fiel durante toda a sua trajetória. Foi um dos mais respeitados pensadores brasileiros da atualidade.


Ubaldo aos 4 anos em Campo Largo, sua
terra natal.

O 14º dos dezesseis filhos de José e Cecília Puppi, prósperos comerciantes de Campo Largo, não seguiu o destino que o pai lhe reservara. Prevaleceu a vontade de dona Cecília e, ao invés de cuidar dos negócios da família, o menino veio para Curitiba estudar, assim como os outros irmãos, que mais tarde se formaram médicos, engenheiros, dentista e historiadora, além das três irmãs que seguiram a vida religiosa. Ubaldo Puppi cursou o ginásio no Colégio Santa Maria e completou seus estudos no convento dos dominicanos, em São Paulo. Essa ainda não era uma opção de vida, mas uma busca interior e de confirmação sobre o rumo a seguir.



Carteira de estudante do Instituto
Católico da Universidade de Paris

Munido da certeza de que o seu caminho era a Filosofia e com uma bolsa de estudos do governo francês, Puppi embarca em 1947 para a França, onde toma contato com uma Paris em plena efervescência cultural e filosófica. "Ele se considerava um privilegiado por ter vivido aquele período em circunstâncias tão excepcionais para a sua formação", revela dona Edi. Merlot-Ponty e Jean Paul Sartre foram seus contemporâneos. Com eles, teve aulas, compartilhou reflexões e dividiu a mesa nos encontros informais do "Café de Flore". Os laços mais fortes, entretanto, foram mantidos com Jacques Maritain, o maior pensador católico do século 20, mestre que o ajudou a desvendar o tomismo, e de quem foi colaborador e amigo.


O jovem filósofo em seu quarto de
estudos , em Paris

Nos cinco anos em que viveu em Paris, Puppi teve oportunidade de viajar por outros países, mas sempre dedicando especial atenção à Itália. De lá ele traz na bagagem uma das raridades de sua biblioteca completa de Tomás de Aquino, reunida numa coleção leonina (produzida no pontificado do papa Leão XIII) de quinze volumes, editados entre 1852 e 1926, em italiano. É com zelo e respeito que a coleção ocupa o seu espaço na biblioteca, aguçando a curiosidade sobre a fonte dos muitos ensinamentos posteriormente repassados por Puppi.


O professor, nos corredores da Universidade
de Marília, início dos anos 60

Ao retornar para o Brasil em 1952, o jovem filósofo publica a sua tese de doutorado. A obra "Itinerário para a verdade" (Ed. Agir, 1955), com prefácio de Jacques Maritain, mereceu o Prêmio Nacional de Filosofia. O original em francês do texto de Maritain é guardado como outra preciosidade da família, assim como o primeiro exemplar do livro, ainda no prelo, cuja dedicatória emocionante dirigia-se à futura noiva Edi.

Logo que chegou, Puppi deveria assumir a cadeira de Filosofia na Universidade Federal do Paraná. A Universidade foi o cenário do encontro do casal - ele professor, ela recém-formada em História e Geografia. Casaram-se em 1956 na Igreja Bom Jesus com as bênçãos do frei Carlos Josafá, amigo do tempo de seminário. No ano seguinte, ele é nomeado diretor da Biblioteca Pública do Paraná.


Notícia da absolvição dos professores Ubaldo
Puppi e Antonio Quelce Salgado, durante o
regime militar, com a sentença: ensinar a ler
não é crime (Diário da Manhã, 22/12/64,
Rio de Janeiro)

Em 1960, com dois filhos, transferem-se para Marília, no interior de São Paulo. O professor aceita o convite para atuar no curso de Filosofia da Universidade do Estado de São Paulo e lá permanece por 26 anos. Mantendo firmes os preciosos contatos que estabeleceu em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro, Ubaldo Puppi teve influência decisiva sobre os rumos do ensino naquela universidade. Por muito tempo dirigiu o Departamento de Filosofia e viveu o universo acadêmico com tudo o que tinha direito: integrando bancas de pós-graduação, concursos e congressos, presidindo comissões de reconhecimento de cursos, de análise de projetos, escrevendo artigos para revistas especializadas.


Carta assinada pelo arcebispo D. Manuel de
Silveira D'Elboux, atestando a idoneidade de
Puppi, quando o filósofo foi preso pelo regime
militar

Juntamente com alguns padres e com o professor Antonio Quelce Salgado, também da Faculdade de Filosofia de Marília, Puppi vinha aprofundando e divulgando a doutrina social da Igreja, com base nas encíclicas do Concílio Vaticano II. Era responsável pela formação de monitores para alfabetização de adultos, pelo método Paulo Freire, o que na época representava também uma dinâmica de politização das camadas mais pobres da sociedade. Sem nenhuma acusação consistente, mas sob a pecha de serem líderes católicos de esquerda, em abril de 1964 Puppi e Quelce são perseguidos e presos pelo regime militar. Interrogados no DOPS da capital paulista, os dois foram transferidos para a prisão do Hipódromo e lá ficaram dez dias. Nesse tempo, com as crianças pequenas, Edi se viu na urgente missão de sair em busca de atestados da idoneidade do marido. Vem a Curitiba onde consegue o apoio do reitor da Universidade Federal e do arcebispo D. Manuel da Silveira D'Elboux, entre outras autoridades. Por interferência do secretário da Justiça de São Paulo, o advogado e colega Miguel Reale, os professores foram transferidos de volta para Marília e postos em liberdade, mas Puppi foi surpreendido por sua demissão sumária da Faculdade de Filosofia.

Pesava sobre os professores o processo pedindo que fossem condenados pela Lei de Segurança Nacional. Julgados em todas as instâncias até chegar ao Supremo Tribunal Militar, foram então absolvidos por quatro votos a um.

A sentença favorável do juiz argumenta: "neste país, alfabetizar pessoas não é crime". Ambos tiveram como advogado de defesa o jurista Hélio Bicudo. Esse período é narrado pelos professores num trecho do livro "O Cristo do Povo" (Ed Sabiá), de Márcio Moreira Alves.


Retrato pintado de Ubaldo Puppi pintado
por Miguel Bakun, quando o professor era
diretor da Biblioteca Pública do Paraná,
entre 1957 e 1960

A liberdade não trouxe de volta a segurança profissional anterior. Por mais de um ano, Puppi sustentou a família com a venda de livros e produtos de limpeza. Recebeu o apoio de amigos até a sua reintegração à universidade. A pressão sobre todos os que se envolviam nos movimentos sociais da Igreja foi se acirrando e em muitos momentos, até o fim da ditadura, a família esteve sob ameaça. Cogitou-se, inclusive, o exílio, mas o casal decidiu permanecer em Marília, apesar de tudo. "A segurança da nossa inocência nos dava força para enfrentar a situação", conta Edi.

Os laços com a Igreja sempre se mantiveram estreitos. O arcebispo de Marília D. Hugo Bressani de Araújo reiteradas vezes denunciou a injustiça daquela perseguição. O casal participava intensamente das atividades da arquidiocese, contribuindo com o pensamento social da Igreja. Eles fundaram em Marília e trouxeram posteriormente para Curitiba o Movimento das Equipes de Nossa Senhora., grupo de oração em que casais se reúnem para a troca de experiências e transferência de apoio psicológico.

Em 1985 , com a aposentadoria, a família retorna para Curitiba. Ubaldo Puppi é convidado pelo prefeito Roberto Requião para ser o secretário municipal de Educação, função que exerceu de 1986 a 1988. Depois, por doze anos, integrou e presidiu o Conselho Estadual de Educação. Vários artigos e contribuições continuaram sendo ofertados pelo filósofo à vida acadêmica e cultural de Curitiba. Em 1995, criou, ao lado de outros intelectuais, o Instituto Ciência e Fé, tornando ainda mais consistente o seu trabalho de reflexão unindo razão e fé.

Mestre e amigo - Sobre qual Ubaldo falamos primeiro?, questiona Edi Puppi, tentando ordenar todos os aspectos que seriam relevantes para esta entrevista. O filósofo, o mestre,o pai, o amigo se misturam nos traços da sua personalidade. Traços que tentaram ser captados, por exemplo, pelo amigo e pintor Miguel Bakun e que deram origem ao retrato que se posiciona com reverência na sala de estar do seu apartamento, com vistas para o Parque Barigüi.

Como filósofo, marcou posição de indiscutível destaque na cultura filosófica brasileira. Fernando Arruda Campos, no livro "Tomismo no Brasil" (Ed. Paulus), analisa as obras "Itinerário para a verdade" e "Prius natura". Segundo ele, Puppi repensa o tomismo pela constante abertura ao pensamento moderno e contemporâneo, e enfatiza, sobretudo à luz do pensamento de Tomás de Aquino e de seu discípulo Jacques Maritain, a problemática metafísica e ontológica.

"Puppi não se prendeu à escolástica: aberto ao pensamento e ao Ser, sua pesquisa jamais admitiu limites. É desse modo que redigiu páginas brilhantes e finas sobre estética, ética, política e religião", explica o filósofo Roberto Romano, professor da Universidade de Campinas, discípulo, amigo próximo e afilhado de crisma do casal.


O casal Ubaldo e Edi na Catedral de Notre
Dame, em viagem a Paris por ocasião do
nascimento de um dos netos, em outubro de 1997

"Ele foi um filósofo extremamente capaz, brilhante, agudo no seu pensamento. Sua forma de analisar e refletir com profundidade levava às causas últimas da filosofia", observa o filósofo Jamil Iskandar, doutor em filosofia medieval. Segundo Iskandar, Puppi demonstrou admiração e respeito à filosofia árabe, bem como reconhecia a sua importância para a escolástica.

Enquanto professor, suas verdades vertiam para a realidade brasileira e eram repassadas sem arrogância, como descreve Roberto Romano. "Sua fala silenciava as realidades celestes e nos dirigia para os tema aflitivos da política nacional: fome no campo e na cidade, exploração imperialista, injusto usufruto das rendas, coronelato, capangagem, etc. Ele era fonte onde os jovens secundaristas e universitários sorviam o pensamento mais translúcido sobre a opaca realidade brasileira". Romano ainda lembra: "Encontrá-lo era uma alegria: sem pedantismo, sem nariz erguido, sem crueldade (algo muito comum na filosofia universitária), ele respondia as perguntas e arrazoava - sempre - meditando sobre as origens empíricas e as dificuldades lógicas dos problemas. Ensinava da maneira eficaz, não parecia ensinar". (Leia a íntegra do artigo de Roberto Romano)

Na vida pública, seu discernimento foi preponderante em decisões envolvendo as questões da área de ensino e educação. "Ele participou com muito espírito público em todos os órgãos que trabalhou. Sua palavra era muito importante em todas as discussões. É uma pessoa que se apresentava como uma luz e que faz muita falta neste momento grave da política nacional", afirma o ex-ministro Euclides Scalco, que o conheceu em 1983, quando Puppi foi nomeado pela primeira vez membro do Conselho Estadual de Educação.


Objetos de sua memória de vida - o primeiro
exemplar da obra "Itinerário para a verdade",
cachimbos, o cinzeiro do "Café de Flore", o cruxifixo.

Puppi sempre foi homem de muitos, muitos amigos. A sua morte fez surgir outros, ainda desconhecidos de Edi. O porteiro do prédio ou o manobrista do estacionamento certamente desfrutaram da mesma amizade e da sabedoria que o professor Puppi dispensava aos mais ilustrados. O valor desse sentimento para Puppi está expresso nas páginas do "Itinerário para a verdade", onde ele descreve o que caracteriza a fragilidade de uma amizade e, por outro lado, o que é ser amigo, no sentido mais nobre e profundo do termo - "O fim próprio e último da amizade, sem o qual ela não subsiste e não merece nobreza com esse nome, é que o amigo ame, bem-queira o amigo por ele mesmo, por sua bondade e amabilidade própria, e seja amado da mesma maneira". (Leia um trecho do livro)

A família assumiu imediatamente a missão de zelar pelo patrimônio intelectual deixado pelo professor. Edi e os cinco filhos - Alberto Ireneo, Mônica, Marcelo, João Paulo e André Lúcio - pretendem conservar o riquíssimo acervo particular e resgatar, para uma futura edição, as dezenas de textos por ele produzidos. "Eu me casei com um filósofo e com uma biblioteca", justifica. Vertendo uma profunda admiração pelo marido, Edi certamente não deixará que o legado fique apenas nas lembranças, mas seja sempre uma fonte segura de conhecimentos para quem se dispõe a viver em busca da verdade.

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