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ANO 6 - ED 73 - SETEMBRO DE 2005

ARTIGO
A polêmica sobre os embriões e a falta que nos faz a boa metafísica

Rev. Valdinei A. Ferreira

O professor Valdinei Ferreira foi um dos participantes do primeiro debate realizado em maio, no Instituto Ciência e Fé, sobre clonagem, células-tronco e terapia celular. Pastor da Igreja Presbiteriana Independente, professor de Teologia da Faculdade Evangélica e doutorando em Sociologia na Universidade de São Paulo, Valdinei Ferreira apresentou a questão do ponto de vista religioso, enriquecendo o debate com os seus posicionamentos. Leia aqui a íntegra da sua palestra.

Desde que o filósofo David Hume (1711-1776) afirmou que todos os textos de metafísica deveriam ser lançados às chamas, pois não continham nada além de sofismas e ilusões ficamos entregues ao reducionismo da matéria. Mas de que trata a metafísica? Segundo Simon Blackburn (1997) o termo metafísica aplica-se a qualquer investigação que levante questões sobre a realidade que esteja por detrás ou além daquelas que podem ser tratadas pelos métodos da ciência. O discurso religioso é por excelência um discurso metafísico, embora não seja o único. Em todos os momentos a religião está afirmando que há algo (ou alguém) além daquilo que os olhos vêem, ainda que amplificados pelo microscópio ou pelo telescópio. Na Bíblia encontramos várias definições de fé, mas há uma que destaco em especial para o caso em tela: "A fé é um meio de conhecer as realidades que não se vêem. [...] Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram organizados pela Palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem a sua origem nas coisas manifestas (Hebreus 11.1,3 - Bíblia de Jerusalém). O termo grego traduzido por "coisas manifestas" é "fenômeno", isto é, podemos dizer que o mundo visível não tem sua origem nos fenômenos que são captados e traduzidos no discurso científico, em termos de causa e efeito. Isto não implica, da parte do discurso religioso metafísico, numa pretensão de desqualificar o conhecimento científico da realidade. Bem como não deveria implicar, no discurso científico, numa negação de tudo que não se enquadre dentro de seus métodos. Mas, à parte as incompreensões de ambos os lados, devemos dizer que em matéria de ciência e fé nunca deveríamos pensar em termos de isto ou aquilo, mas sim, de isto e aquilo.

O debate em torno do uso de embriões na pesquisa trouxe ao cenário contemporâneo uma questão metafísica. O embrião é apenas "algo" ou é "alguém"? Ou dito de outra forma: por detrás do pequenino "algo" que é o embrião esconde-se "alguém"? Nas igrejas cristãs os fiéis perguntam aos pastores e padres: "O embrião tem alma?" Que não é senão outra forma de perguntar se o embrião é "algo" ou "alguém". Da resposta a esta questão depende, não o futuro da pesquisa, porque esta guia-se por uma lógica diferente, mas o aprofundamento da auto-compreensão humana, o aprofundamento da compreensão daquilo que nos faz especificamente humanos e diferenciados das demais espécies.

O embrião tem alma? Em que momento a alma começa a existir? Para responder a questão, peço licença para aborrecê-los com um pouco de teologia com cheiro de Idade Média. São três as opiniões que circularam na história do pensamento cristão:
Criacionista afirma que cada alma é criada diretamente por Deus, em algum tempo antes do nascimento da criança.
Traducionista afirma que o homem transmite aos filhos todo o seu ser, corpo e alma, reproduzindo-se, conforme todos os animais, segundo a sua espécie.

Preexistencialista afirma que as almas preexistem ao seu nascimento. Excetuando-se a visão preexitencialista, que apesar de denfendida por grandes nomes do cristianismo tais como Orígenes (185-254) e Scotus Erígena (810-877), nunca foi incorporada pela fé cristã, as demais claramente possuem elementos válidos da visão cristã. Cristãos vêem na geração de uma nova vida tanto uma causa humana, quanto uma ação divina. Isso foi formulado em termos pastorais, com clareza ímpar, pelo Catecismo Holandês (1966, p.441) nos seguintes termos:

Cada pessoa humana é tão exclusiva e única que, ao vê-la chegar à existência, logo compreendemos, intuitivamente, que não podemos dizer, simplesmente: "Deus criou todas as coisas", mas, sim: "Deus está criando todas as coisas". No passado, explicava-se isso desta maneira: Deus criou o mundo e o homem e mantém-nos agora na existência; quanto às almas humanas, porém, Deus as cria cada uma em particular, de modo direto e pessoal. Mas esta explica não considera, suficientemente, duas coisas: 1. o fato de que a própria criação é realidade de tendência ascendente e, 2. o fato de que o corpo e a alma são inseparáveis. Parece, pois, melhor exprimirmos o mesmo de outra maneira e dizermos: a onipotência criadora de Deus dá existência e crescimento à realidade, em cada momento. A origem de novo homem é instante sagrado, em que se manifesta, de modo particularmente claro, a onipotência criadora de Deus. Com efeito, meus pais não queriam determinantemente a "mim": queriam um filho ou uma filha. Quem me queria a mim era só Deus. Um "eu", capaz de dizer "Tu" a Deus e de ter relações pessoais com Ele, é chamado à existência, através da hereditariedade humana, que tem a sua fonte primordial no próprio Criador. A atividade desses dois fatores é, em última instância, uma só.

Para a teologia a introdução do tema alma na discussão é fundamental. Destaco duas razões: 1. o ser humano, do ponto de vista teológico, nasce com abertura para o transcendente. Na linguagem do texto acima - é um "eu" capaz de dizer "Tu" a Deus. 2. o ser humano, na perspectiva teológica, continuará sua história após a morte. Sendo assim, conceitos utilizados para delimitação do aparecimento da vida humana tais como: "pessoa", "eu", "consciência", "cérebro", embora sejam importantes e também sejam considerados na reflexão cristã, não são o ponto de onde parte a reflexão propriamente teológica. O que a teologia abandonou no século XX foi a visão dualista que separava radicalmente alma e corpo. Abandonou também, não a idéia de que a alma seja uma criação divina, mas a concepção de que isto ocorra fora do processo natural de formação da vida humana. Dentro dessa perspectiva, da atividade divina na formação da vida humana, reproduzo a seguir a belíssima passagem do Salmo 139.

SALMO 139
Revista e Atualizada J. Ferreira de Almeida

V.13 Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe.
V.14 Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso
me formaste; as tuas obras são admiráveis e a minha obra o sabe muito bem;
V.15 os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
V.16 Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.
SALMO 139
Bíblica de Jerusalém

V.13 Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno.
V.14 Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas! Conhecias até o fundo do meu ser;
V.15 meus ossos não te foram escondidos quando eu era feito, em segredo, tecido na terra mais profunda,
V.16 teus olhos viam o meu embrião. No teu livro estão todos inscritos, os dias que foram fixados e cada um deles nele figura.

Deus, na passagem bíblica reproduzida acima, é descrito como participante ativo na formação do ser humano antes do nascimento. Deus é quem "tece" a vida humana. Deus é descrito como aquele que vê a "substância ainda informe". A moderna tecnologia nos coloca uma nova questão para a teologia - embriões isolados do útero materno também possuem alma? Penso que o teólogo protestante Paul Tillich (1886-1965) ao formular o conceito de unidade multidimensional da vida nos oferece novos elementos para análise da questão. Na formação da vida as seguintes dimensões devem estar presentes: biológica, relacional e espiritual. No caso em questão biologicamente o embrião está programado, o acompanhamento divino para geração de alma se faz presente, mas o processo está paralisado pela ausência da dimensão relacional. Mas que é o embrião fora do útero? Um conjunto de códigos. Metaforicamente falando, ousaria dizer que o embrião fora do útero é uma espécie de alfabeto, sem que seja inserido num útero e numa teia de relações humanas nunca se tornará um texto. Compreendo que seja legítimo o uso de embriões para o desenvolvimento de pesquisas. O fato de destacar o aspecto multidimensional da vida e de apontar a implantação no útero como marco para aquisição da dimensão relacional da vida, não implica em dizer que embriões sejam realidades pré-humanas por não possuírem ainda alma. Muito menos significa que possam ser tratados como "coisas" ou "produtos". O poeta sacro assim diz: "Ó Deus, tu cuidas das pessoas e dos animais", "Tu és a fonte da vida e, por causa da tua luz, nós vemos a luz". Como não pensar que Deus cuida também dos embriões, pois são parte da multidimensionalidade que habita nosso planeta?!

Gosto muito da palavra mistério. Durante muito tempo entendi mistério como sinônimo daquilo que não pode ser conhecido e daquilo que não faz sentido. Algo misterioso - pensava eu - é algo cujo sentido me escapa. Hoje começo a pensar diferente. Mistério não é aquilo que não pode ser conhecido ou aquilo que seja destituído de sentido. Mistério, na verdade é aquilo que tem tanto sentido e significado que por qualquer via que o abordemos, restará sempre muito a dizer e muito a contemplar. Neste sentido, meus queridos irmãos e irmãs, a vida é, por excelência, mistério - quer pela via da ciência ou da fé, restará sempre muito sentido e significado na vida. Diante da vida - na conhecida expressão de Albert Schweitzer (1875-1965) - nos caberá sempre a reverência!

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