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ARTIGO
Desde
que o filósofo David Hume (1711-1776) afirmou que todos os textos
de metafísica deveriam ser lançados às chamas,
pois não continham nada além de sofismas e ilusões
ficamos entregues ao reducionismo da matéria. Mas de que trata
a metafísica? Segundo Simon Blackburn (1997) o termo metafísica
aplica-se a qualquer investigação que levante questões
sobre a realidade que esteja por detrás ou além daquelas
que podem ser tratadas pelos métodos da ciência. O discurso
religioso é por excelência um discurso metafísico,
embora não seja o único. Em todos os momentos a religião
está afirmando que há algo (ou alguém) além
daquilo que os olhos vêem, ainda que amplificados pelo microscópio
ou pelo telescópio. Na Bíblia encontramos várias
definições de fé, mas há uma que destaco
em especial para o caso em tela: "A fé é um meio
de conhecer as realidades que não se vêem. [...] Foi pela
fé que compreendemos que os mundos foram organizados pela Palavra
de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem
a sua origem nas coisas manifestas (Hebreus 11.1,3 - Bíblia de
Jerusalém). O termo grego traduzido por "coisas manifestas"
é "fenômeno", isto é, podemos dizer que
o mundo visível não tem sua origem nos fenômenos
que são captados e traduzidos no discurso científico,
em termos de causa e efeito. Isto não implica, da parte do discurso
religioso metafísico, numa pretensão de desqualificar
o conhecimento científico da realidade. Bem como não deveria
implicar, no discurso científico, numa negação
de tudo que não se enquadre dentro de seus métodos. Mas,
à parte as incompreensões de ambos os lados, devemos dizer
que em matéria de ciência e fé nunca deveríamos
pensar em termos de isto ou aquilo, mas sim, de isto e aquilo.
Para a teologia a introdução do tema alma na discussão é fundamental. Destaco duas razões: 1. o ser humano, do ponto de vista teológico, nasce com abertura para o transcendente. Na linguagem do texto acima - é um "eu" capaz de dizer "Tu" a Deus. 2. o ser humano, na perspectiva teológica, continuará sua história após a morte. Sendo assim, conceitos utilizados para delimitação do aparecimento da vida humana tais como: "pessoa", "eu", "consciência", "cérebro", embora sejam importantes e também sejam considerados na reflexão cristã, não são o ponto de onde parte a reflexão propriamente teológica. O que a teologia abandonou no século XX foi a visão dualista que separava radicalmente alma e corpo. Abandonou também, não a idéia de que a alma seja uma criação divina, mas a concepção de que isto ocorra fora do processo natural de formação da vida humana. Dentro dessa perspectiva, da atividade divina na formação da vida humana, reproduzo a seguir a belíssima passagem do Salmo 139.
Deus, na
passagem bíblica reproduzida acima, é descrito como participante
ativo na formação do ser humano antes do nascimento. Deus
é quem "tece" a vida humana. Deus é descrito
como aquele que vê a "substância ainda informe".
A moderna tecnologia nos coloca uma nova questão para a teologia
- embriões isolados do útero materno também possuem
alma? Penso que o teólogo protestante Paul Tillich (1886-1965)
ao formular o conceito de unidade multidimensional da vida nos oferece
novos elementos para análise da questão. Na formação
da vida as seguintes dimensões devem estar presentes: biológica,
relacional e espiritual. No caso em questão biologicamente o
embrião está programado, o acompanhamento divino para
geração de alma se faz presente, mas o processo está
paralisado pela ausência da dimensão relacional. Mas que
é o embrião fora do útero? Um conjunto de códigos.
Metaforicamente falando, ousaria dizer que o embrião fora do
útero é uma espécie de alfabeto, sem que seja inserido
num útero e numa teia de relações humanas nunca
se tornará um texto. Compreendo que seja legítimo o uso
de embriões para o desenvolvimento de pesquisas. O fato de destacar
o aspecto multidimensional da vida e de apontar a implantação
no útero como marco para aquisição da dimensão
relacional da vida, não implica em dizer que embriões
sejam realidades pré-humanas por não possuírem
ainda alma. Muito menos significa que possam ser tratados como "coisas"
ou "produtos". O poeta sacro assim diz: "Ó Deus,
tu cuidas das pessoas e dos animais", "Tu és a fonte
da vida e, por causa da tua luz, nós vemos a luz". Como
não pensar que Deus cuida também dos embriões,
pois são parte da multidimensionalidade que habita nosso planeta?!
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