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Rubem Alves psicanalista e escritor, é professor
emérito da Unicamp e colunista do caderno Sinapse. Autor de,
entre outras obras, "A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar
que Pudesse Existir" (Papirus, 2001) |

ANO 6 - ED 73 - SETEMBRO DE 2005
ARTIGO
A hora da tristeza
Rubem
Alves
O
meu celular tocou. Era o meu filho Sérgio. "Pai, estou a
caminho de Atibaia. Antes da cidade há um mastro alto com uma
enorme bandeira do Brasil. A bandeira está murcha, caída,
enrolada no mastro. Tive a impressão de que ela estava enrolada
no mastro para esconder a vergonha. Agora só se fala sobre essa
vergonheira da corrupção. Mas há tantas coisas
bonitas acontecendo. Parece que ninguém vê. Ninguém
fala nelas. Será que você pode fazer alguma coisa?"
Não havia raiva na sua voz. Era apenas tristeza. O que posso
fazer é coisa fraca -escrever. Disso sabia o Vinícius,
que disse ter uma "imensa piedade da sua inútil poesia"...
A primeira reação do país foi o espanto. O espanto
faz o pensamento parar. O susto toma conta de tudo. O que estava acontecendo
era o inimaginável.
Passado o espanto inicial, veio a indignação. Raiva. Como
se, de repente, descobríssemos que a esposa pura (e como se gabava
da sua pureza!) era uma prostituta. A imagem é bruta? Tirei-a
do Antigo Testamento, do livro do profeta Oséias.
Mas a voz do meu filho sugeriu que a alma do povo estava entrando em
um outro momento. Sem nada poder fazer com a raiva, a alma se dá
conta da sua impotência e começa a chorar.
Choramos... D. Miguel de Unamuno, filósofo espanhol que Guimarães
Rosa muito amava, disse que "o que existe de mais sagrado num templo
é o fato de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere
cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino
vale tanto quanto uma filosofia". Creio que ele me permitiria uma
inversão. Eu diria: "Um lugar aonde se vai chorar em comum,
qualquer que seja, transforma-se em um templo". Em que templo enorme
se transformou o Brasil! Só nos falta um poeta que nos componha
um Miserere para cantarmos!
Até agora, as sucessivas safadagens que vieram ao conhecimento
público envolvendo políticos e empresas só provocaram
indignação e raiva. A indignação e a raiva
tornam-nos guerreiros. O guerreiro deseja a vingança. Mas, quando
a indignação e a raiva se descobrem impotentes, deixamos
de ser guerreiros e nos tornamos pranteadores.
Nossa alma estava melhor nos anos de ditadura. Computados os seus horrores
de torturas e assassinatos, brilhava em nós "essa pequenina
luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança".
(Vinícius). Por causa da esperança, os poetas cantavam
canções que do terror faziam brotar a beleza: "Apesar
de você, amanhã há de ser novo dia"... Havia
beleza e, por isso, a alma cantava. Mas agora já não há
beleza. A alma não canta mais.
Desisti de acompanhar os noticiários. Eles não me ajudam
em nada. Só fazem aumentar a consciência da extensão
das metástases.
Parece existir um acordo: a corrupção não é
a coisa. A corrupção é apenas um sintoma da coisa,
pústulas fétidas de uma doença que circula no sangue,
como se fosse varíola. Varíola não se cura raspando-se
as pústulas. É preciso ir ao sangue, que é o lugar
donde as pústulas nascem. Isso só com uma reforma das
leis que regem o jogo da política.
Concordo. Mas não sei quem fará essa mudança. Não
acredito que lobos e raposas sejam capazes de abandonar sua dieta carnívora
e aprovar uma dieta vegetariana. O profeta duvidava e perguntava: "Pode
o tigre mudar suas listras?". Mas a sua pergunta já continha
a resposta: o tigre não pode mudar suas listras... Pessoalmente,
duvido de que o Congresso Nacional seja capaz de fazer a reforma de
que necessitamos.
Eu acreditaria, sim, se a lei da dita reforma começasse com essa
afirmação:
"Nós, senadores e deputados, representantes do povo, portadores
do seu sofrimento e de suas esperanças, por este ato declaramos
abrir mão de todos os privilégios que nos colocam acima
do povo. De hoje em diante, as leis que determinam os nossos direitos
serão as mesmas leis que determinam os direitos de todos os cidadãos,
os mais humildes. Declaramos, portanto, abolidas todas as leis que nos
colocam acima do povo. Estamos proibidos de legislar em causa própria.
Jamais votaremos os nossos salários porque o povo não
pode votar os seus próprios salários".
O que faz um povo? Santo Agostinho dizia que um povo acontece quando
as pessoas se unem em torno de um mesmo sonho. É preciso devolver
ao povo a capacidade de sonhar, para que ele volte a ser povo. Mas,
para que isso aconteça, é preciso que o povo tenha confiança
nos representantes que elegeram. Mais do que isso: que se orgulhem deles.
Faço minhas as palavras de Unamuno: "Pelo que me diz respeito,
jamais de bom grado me entregarei nem outorgarei a minha confiança
a um condutor de povos que não esteja penetrado da idéia
de que, ao conduzir um povo, conduz homens, homens de carne e osso,
homens que nascem, sofrem e, ainda que não queiram morrer, morrem;
homens que são fins em si mesmos e não meios"...
Não sei fiz o que meu filho pediu. Fiz o melhor que pude fazer
com a minha inútil poesia...
www.rubemalves.com.br
Transcrito da Folha
de São Paulo 04/11/05
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