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Firme et Constantissime

Alzeli Bassetti

A interpretação dos evangelhos - fonte e guia de sabedoria e amor - tem se constituído, historicamente, como um dos maiores desafios de orientação. Vittorio Messori, jornalista por profissão, nascido em Modena, Itália, laureado em Ciências Políticas pela Universidade de Turim com uma tese sobre História, vem se convertendo num dos mais assíduos interessados no referido tema. A forma de abordagem aos assuntos mais candentes dos evangelhos vem tem rendido a Messori acatamento unânime. O primeiro destaque profissional desse comunicador contemporâneo foi como integrante do grupo La Stampa, onde trabalhou por longo tempo e de onde saiu para reerguer os Periodici Paolini. Deste, passou para o diário Avvenire, dando início à consultoria específica de um grande número de editoras européias de respeito. Messori tem publicadas no Brasil duas de suas obras: "Hipóteses sobre Jesus", editada pelas Edições Paulinas, e "Fé em Crise? O cardeal Ratzinger se interroga", pela Editora Pedagógica Universitária. Há especifidades em todas as suas obras mas o fio da meada tem sido a busca para respostas mais convincentes sobre a relação entre o que os evangelhos contam e o que de fato aconteceu durante a estada física de Jesus no mundo. Quanto ao Novo Testamento, Messori questiona se ele merece constar da estante encimada pela História ou ficaria melhor posicionado no setor de poesia, ficção ou mitologia. Teriam intérpretes e tradutores através dos tempos despojado os evangelhos da verdade histórica?

A dúvida tem atormentado Messori a um número incontável de cristãos e não cristãos. Por isso o competente jornalista tem dedicado ao que ele chama de Caso de Jesus tempo integral. Conseqüentemente a imprensa italiana tem sido gradativamente suprida de artigos e pesquisas sobre a historicidade dos relatos evangélicos, com ênfase especial na paixão do Nazareno. O Caso Jesus versa em palavras claras, despidas de qualquer viés preconceituoso, sobre a real existência do Iscariote, o preço da traição, a opção do povo manipulado pela libertação de Barrabás, o episódio dos dois ladrões que ladearam Cristo na cruz. Messori se vale de seriedade científica ao deter-se nas figuras históricas de Pôncio Pilatos, de Anás e Caifás, de José de Arimatéia, de Nicodemus e de "um certo Simão Cireneu". Esmiuça a tríplice negação de Pedro, a inscrição sobre a cruz, o mistério ainda pouco aprofundado do Qumran, gruta 7.

O impacto das reações

As idéias de Messori em conseqüência da coragem de questionar os evangelhos impactaram teólogos e biblistas profissionais que, a princípio, desdenharam a interpretação nova dada aos textos, alegando inclusive não serem oportunas tanto as pesquisas como a divulgação delas na antecâmara deste novo milênio. Como se a verdade exigisse hora, tempo e lugar específicos para ser estudada, encontrada e revelada. Diziam também à época alguns ditos modernos que a fé nada mais teria a ver com a inteligência humana. Tampouco, segundo eles, deveriam os cristãos modernos levar a sério a Escritura que, segundo Pedro, exorta todos a estarem "sempre prontos para responder a quem quer que lhes pergunte a razão da esperança que os anima" (1 Pd. 3,15). Entretanto foram esses os primeiros a dar a mão à palmatória. A espetacular acolhida do público local e mundial à obra de Messori provou-lhes quão necessário era a oferta à demanda por informação adequada sobre temas evangélicos. O público leitor e interessado reconheceu que o conteúdo da obra integral era mesmo inacatável já que, além de fundamentado em pesquisas e estatísticas, fidedignas, que chegaram à compilação de 300 páginas, tinha o respaldo da comunidade cristã.

O problema central para Messori é a verdade com relação a um antigo hebreu que, em aramaico, assegurara ser ele mesmo a "Verdade". Preocupação quase obsessiva que tem sido compartilhada por leitores e ouvintes, tocados pelo mesmo objetivo de busca, uma vez que em cada ser humano está arraigado o desejo de chegar à verdade. Um sentimento que como a inclinação para a justiça, beleza, bondade e liberdade, está entre todos os traços, marcas, sinais, tão discretos quanto indeléveis, plantados pelo Criador em suas criaturas.

A verdade sobre o cristianismo começa em Cristo que continua sua vida e sua trajetória na história dos séculos através do seu corpo vivo: a Igreja. Como membros do corpo eclesial, os fiéis são parte fundamental dessa caminhada. Não é, pois, o cristianismo uma história passada, como pensam uns. Tampouco defasada, como supõem outros. É presente e é eterna! Assim, ataques e mesmo dúvidas contra a fé passaram e continuam a passar principalmente pela veracidade histórica dos evangelhos: "Vocês pesquisam na Bíblia, pensando encontrar nela a vida eterna; pois é ela que dá testemunha de mim." (Jo - 5,39)

Para Messori, "abrir fendas na confiança aos que narram os textos é a gazua para que todo o edifício caia em ruínas", mas o questionamento em busca da verdade com pureza de intenção é válido ao plano do Criador. Nada de dúvida deve restar à criatura amada. Nunca faltou quem, em tempos remotos, ousasse teorizar sobre a independência da fé em relação à história. Numa perspectiva cristã, tais posições parecem insustentáveis porém é o "sensus fidei" dos crentes que, talvez até instintivamente, refutou e tem refutado teorias exóticas, como a dos desmistificadores cristão da Alemanha, que chegaram a se infiltrar na intellighenzia clerical e católica por um certo tempo mas que, na verdade, jamais se acantonaram aos mais simples. É que estes, em sua pura sabedoria, sempre perceberam com facilidade maior o quão essencial é, para a fé, a coincidência entre os relatos do Novo Testamento e os fatos tais como realmente ocorreram.

Versículo por versículo da Bíblia têm sido submetidos à reflexão sobre a lupa de Vittorio Messori, com atenção redobrada ao Mistério Pascal - ascensão ao céu de Jesus Cristo, nos quais os três sinóticos - Mateus, Marcos e Lucas - seguem juntos um caminho paralelo ao de João. Diferenciam-se nos pormenores, nunca na essência. O Mistério Pascal é o núcleo primitivo, o cerne, o próprio coração dos evangelhos. Portanto, indagar sobre a verdade histórica desse que é "Mistério" de morte e de vida significa também reenergizar a fé, recompô-la e reerguê-la, libertando-a da redução espiritua-lista e moralista, até mesmo da sua dissolução em ética, como se Jesus houvesse sido reconhecido, amada e acatado como o Cristo. Não pelo fato de ter ressuscitado no terceiro dia e sim por ter sido o competente autor de máximas irretocáveis, um perito conhecedor da palavra, uma espécie de Sócrates hebreu. Ora, se pessoas idôneas, piedosas e racionais acreditaram nele como sendo o Messias, obviamente não foi somente pela oratória ou pelo carisma que lhe eram inerentes e sim porque venceu a morte!

O acontecimento

"O Mistério Pascal", diz Messori, "é o conteúdo primário do kerigma, ou seja, do anúncio apostólico. É possível então concluir que todo o ensina-mento de Jesus não é "o prius da fé como tantos pensam, mas está subordinado ao 'Acontecimento' do morrer e do ressuscitar dele". "Todo cristão crê em um Deus que é, ao mesmo tempo, uno e trino, em um Cristo que é verdadeiro homem. Sabe portanto que a Bíblia é tanto obra divina quanto humana. Divina pela inspiração, humana pela redação. Pelas características individuais e culturais do meio em que os evangelistas estavam inseridos. O cristão reconhece o gênero literário nos textos, as características do estilo de pregação, o "feeling", as opções e as sínteses emanadas pelo Concílio Vaticano 2º, ao abordar a Revelação. Não há como esquecer a mensagem solene, proferida pelos Padres conciliares: "A Santa Mãe Igreja com firmeza e máxima constância (firme et constantissime) sustentou e sustenta que os quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação (incunctanter), transmitem fielmente (fideliter) aquilo que Jesus Cristo Filho de Deus, ao viver entre os homens, realmente fez e ensinou para a eterna salvação deles, até o dia em que foi elevado". (Dei Verbum, nº 19)

Vittorio Messori, com competência profissional e dignidade cristã, segue amealhando avanços na árdua tarefa de apurar a verdade integral.

Alzeli Bassetti. Fundadora e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé.

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