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Frei Betto (Carlos Alberto Libâneo de Christo), frade dominicano,
estudou Jornalismo, Antropologia, Filosofia e Teologia.
Foi professor de Física, Química e Biologia.
Integra o conselho da Fundação Sueca dos Direitos Humanos
desde 1993. Assessor da Pastoral Operária, é também
diretor da revista "América Libre".
Considerado um dos principais expoentes da Teologia da Libertação,
escreveu 30 obras.
Em 1983, recebeu o Prêmio Jaboti por seu livro de memórias
"Batismo de Sangue".
Recebeu ainda o Prêmio Juca Pato, em 1987, e o Prêmio Fundação
Bruno Kreiski, em Viena, por seu trabalho em prol dos direitos humanos.
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Deus,
a questão
Frei
Betto
Só
há uma questão verdadeiramente filosófica, diz
Kirilov, personagem de Dostoiévski: a existência de Deus.
Se Deus não existe, então tudo é permitido. Paulo,
o apóstolo, preferiu sobrepor o amor à fé. "Ainda
que eu tivesse a fé capaz de transportar montanhas, mas não
tivesse o amor, seria como o bronze que soa e isso de nada me adiantaria".
Quatro séculos mais tarde, santo Agostinho resumiria o hino paulino
numa proposta: "Ama e faze o que quiser."
Deus inquieta-nos. Não é fácil ignorá-lo.
Prova disso é que não se restringem à mera indiferença
aqueles que o negam; constituem-se num movimento de rejeição
militante: o ateísmo.
Muito contribuíram para suscitar o interesse por Deus os manuais
soviéticos que pregavam o ateísmo, disse-me em Moscou
um teólogo da Igreja Ortodoxa russa. A insistência em negá-lo
despertava em crianças e jovens o apetite pelo "fruto proibido".
Deus era conatural às civilizações antigas. A Anbtropologia
desconhece casos de tribos atéias. Isso levou Comte a acreditar,
induzido por uma lógica mecanicista, que a religião era
um estágio primitivo de cultura e a ciência, o ápice.
Três séculos antes, Descartes admitira sua finitude frente
à infinitude divina: como seres imperfeitos como nós podem
trazer na mente a idéia de um ser perfeito? Bafejado por Artistóteles,
Tomás de Aquino, no século XIII, cedeu à tentação
de querer provar a existência divina pela via racional.
Um deus que precisa ser provado não merece ser Deus. Banhar-se
nas águas do rio é muito diferente do que conhecer a fórmula
e as propriedades químicas da água. Outrora, os deuses
promoviam a coesão dos povos. O céu estava povoado por
inúmeros deles.
Até que um casal de sem-terra do atual Iraque, Abraão
e Sara, foi para o Egito em busca de melhores condições
de vida. Ao passar pelo monte Moriá, na atual Jerusalém,
recebeu a revelação de Javé, o Deus único.
Jesus fez Deus descer de sua solidão celestial e habitar o humano.
"E o Verbo se fez carne". Fundiram-se, então, o céu
e a terra, o divino e o humano. O Senhor dos Exércitos, cujo
nome era impronunciável pelos hebreus, revelou-se, em Jesus,
como Abba, o Pai amoroso que cobre de beijos o filho pródigo.
Essa avassaladora paixão do Criador por suas criaturas assusta
os que pretendem ser seus únicos porta-vozes. Daí a tendência
de as religiões aprisionarem Deus na figura de um irado inquisidor,
burocratizando o amor divido e congelando-o em doutrinas maniqueístas,
nas quais o castigo predomina sobre o perdão e a disciplina sobre
a liberdade.
No século XX, o clamor de duas grandes guerras encheu céus
e corações humanos de silêncio de Deus. Motivados
pelo racionalismo, Marx e Freud já haviam concordado que a idéia
de Deus é uma inversão compensatória de nossas
incompletudes.
Só não se deram conta de que a razão é a
imperfeição da inteligência.
Deus, no entanto, mostra-se agora mais vivo do que nunca. Como predisse
Rimbaud, há uma "gula de Deus", da expansão
de novas igrejas ao esoterismo, do gnosticismo acadêmico aos movimentos
pentecostais. É o ateísmo que se encontra em crise. Quando
muito, o cético diz-se agnóstico.
Enquanto isso, Deus - que não tem religião - desborda
os cânones institucionais, burla a vigilância eclesiástica
e ocupa, com seu toque sutil, o coração dos pobres e também
dos físicos, dos intelectuais e dos artistas renomados. Ele sabe,
como diria Tomás de Aquino, que são habitados por um outro
que não é eles e, no entanto, restaura-lhes a verdadeira
identidade. A fé, aliás, é um fenômeno da
inteligência.
Mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos,
como afirmou Agostinho, Deus é, de fato, a questão axial
da existência humana. Tudo mais são contingências.
Mas, para acolhê-lo, é preciso dobrar os joelhos e deixar-se
habitar por seu espírito amoroso.
Como mero objeto de fé, Deus não passa de mito, se, em
nossas vidas, não se traduz em amor que liberta, segundo os novos
mandamentos descritos no Sermão da Montanha. E, para nós
cristãos, o centro da revelação divina é
Jesus, com quem Dostoiévski, se instado a escolher, preferiria
ficar a ficar com a verdade.
Artigo
publicado no Jornal de Ciência e Fé em maio de 2001, ano
2, nº 30
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