|

Frei Betto (Carlos Alberto Libâneo de Christo), frade dominicano,
estudou Jornalismo, Antropologia, Filosofia e Teologia.
Foi professor de Física, Química e Biologia.
Integra o conselho da Fundação Sueca dos Direitos Humanos
desde 1993. Assessor da Pastoral Operária, é também
diretor da revista "América Libre".
Considerado um dos principais expoentes da Teologia da Libertação,
escreveu 30 obras.
Em 1983, recebeu o Prêmio Jaboti por seu livro de memórias
"Batismo de Sangue".
Recebeu ainda o Prêmio Juca Pato, em 1987, e o Prêmio Fundação
Bruno Kreiski, em Viena, por seu trabalho em prol dos direitos humanos.
|
Religião
do consumo
Frei
Betto
O
"Financial Times", de Londres, noticiou que a Young &
Rubicam, uma das maiores agências de publicidade do mundo, divulgou
a lista das dez grifes mais reconhecidas por 45.444 jovens e adultos
de 19 países. São elas: Coca-Cola (35 milhões de
unidades vendidas a cada hora), Disney, Nike, BMW, Porsche, Mercedes-Benz,
Adidas, Rolls-Royce, Calvin Klein e Rolex.
"As marcas são a nova religião. As pessoas se voltam
para elas em busca de sentido", declarou um diretor da Young &
Rubicam. Disse ainda que essas grifes "possuem paixão e
dinamismo necessários para transformar o mundo e converter as
pessoas em sua maneira de pensar".
A Fitch, consultoria londrina de design, no ano passado realçou
o caráter "divino" dessas marcas famosas, assinalando
que, aos domingos, as pessoas preferem o shopping à missa ou
ao culto. Em favor de sua tese, a empresa evocou dois exemplos: desde
1991, cerca de 12 mil pessoas celebraram núpcias nos parques
da DisneyWorld, e estão virando moda os féretros da marca
Halley, nos quais são enterrados os motoqueiros fissurados em
produtos Halley-Davidson.
A tese não carece de lógica, Marx já havia denunciado
o fetiche da mercadoria. Ainda engatinhando, a Revolução
Industrial descobriu que as pessoas não querem apenas o necessário.
Se dispõem de poder aquisitivo, adoram ostentar o supérfluo.
A publicidade veio ajudar o supérfluo a se impor como necessário.
A mercadoria, intermediária na relação entre seres
humanos (pessoa-mercadoria-pessoa), passou a ocupar os pólos
(mercadoria-pessoa-mercadoria). Se chego à casa de um amigo de
ônibus, meu valor é inferior ao de quem chega de BMW. Isso
vale para a camisa que visto ou para o relógio que trago no pulso.
Não sou eu, pessoa humana, que faço uso do objeto. É
o produto, revestido de fetiche, que me imprime valor, aumentando a
minha cotação no mercado das relações sociais.
O que faria um Descartes neoliberal declarar: "Consumo, logo existo".
Fora do mercado não há salvação, alertam
os novos sacerdotes da idolatria consumista.
Essa apropriação religiosa do mercado é evidente
nos shopping centers, tão bem criticados por José Saramago
em "A Caverna". Quase todos possuem linhas arquitetônicas
de catedrais estilizadas. São os templos do deus mercado. Neles
não se entra com qualquer traje, e sim com roupa de missa de
domingo. Percorrem-se os seus claustros marmorizados ao som do gregoriano
pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Ali dentro
tudo evoca o paraíso: não há mendigos nem pivetes,
pobreza ou miséria. Com olhar devoto, o consumidor contempla
as capelas que ostentam, em ricos nichos, os veneráveis objetos
de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode pagar à
vista se sente no céu; quem recorre ao crediário, no purgatório;
quem não dispõe de recurso, no inferno. Na saída,
entretanto, todos se irmanam na mesa "eucarística"
do McDonald's.
A Young & Rubicam comparou as agências de publicidade aos
missionários que difundiram pelo mundo religiões como
o cristianismo e o islamismo. "As religiões eram baseadas
em idéias poderosas que conferiam significado e objetivo à
vida", declarou o diretor da agência inglesa.
A fé imprime sentido subjetivo à vida, objetivando-as
na prática do amor, enquanto um produto cria apenas a ilusória
sensação de que, graças a ele, temos mais valor
aos olhos alheios. O consumismo é a doença da baixa auto-estima.
Um São Francisco de Assis ou Gandhi não necessitava de
nenhum artifício para centrar-se em si e descentrar-se nos outros
e em Deus.
O pecado original dessa nova "religião" é que,
ao contrário das tradicionais, ela não é altruísta,
é egoísta; não favorece a solidariedade, e sim
a competitividade; não faz da vida dom, mas posse. E o que é
pior: acena com o paraíso na Terra e manda o consumidor para
a eternidade completamente desprovido deste lado da vida.
A crítica do fetiche da mercadoria data de oito séculos
antes de Cristo, conforme este texto do profeta Isaías: "O
carpinteiro mede a madeira, desenha a lápis uma figura, trabalha-a
com o formão e aplica-lhe o compasso. Faz a escultura com medidas
do corpo humano e com rosto de homem, para que essa imagem possa estar
num templo de cedro. (...) O próprio escultor usa parte dessa
madeira para esquentar e assar seu pão; e também fabrica
um deus e diante dele se ajoelha (...) e faz uma oração,
dizendo: 'Salva-me, porque tu és o meu deus!'" (44,13-17).
Da religião do consumo não escapa nem o consumo da religião,
apresentada como um remédio miraculoso, capaz de aliviar dores
e angústias, garantir prosperidade e alegria. Enquanto isso,
"Ele tem fome e não lhe dão de comer" (Mateus
25, 31-40).
Artigo
publicado no Jornal de Ciência e Fé em abril de 2001, ano
2, nº 29
|
Leia também,
do mesmo autor:
Intervenção
branca no Timor Leste
Deus,
a questão
|