|

Frei Betto (Carlos Alberto Libâneo de Christo), frade dominicano,
estudou Jornalismo, Antropologia, Filosofia e Teologia.
Foi professor de Física, Química e Biologia.
Integra o conselho da Fundação Sueca dos Direitos Humanos
desde 1993. Assessor da Pastoral Operária, é também
diretor da revista "América Libre".
Considerado um dos principais expoentes da Teologia da Libertação,
escreveu 30 obras.
Em 1983, recebeu o Prêmio Jaboti por seu livro de memórias
"Batismo de Sangue".
Recebeu ainda o Prêmio Juca Pato, em 1987, e o Prêmio Fundação
Bruno Kreiski, em Viena, por seu trabalho em prol dos direitos humanos.
|
Intervenção
branca no Timor Leste
Frei
Betto
O
presidente Fernando Henrique visitou por algumas horas, em janeiro,
o Timor Leste, administrado pela ONU através da Untaet. Esse
organismo para a administração transitória daquele
país é presidido pelo diplomata brasileiro Sérgio
Vieira de Melllo. O panorama timorense, visto de sob a ponte (e não
por cima, como nos passa a versão oficial), é bem diferente.
A.M. é brasileira, missionária leiga católica que,
por iniciativa da CNBB, encontra-se no Timor Leste, atuando junto à
população. Seu relato da situação do país,
enviado a mim há dias, vale a pena ser conhecido:
"Toda a ajuda que vem de fora fica nas mãos da Untaet. É
uma mina de ouro. Técnicos, tropas, intelectuais e funcionáriso
estrangeiros vêm fazer turismo na ilha, ganhando muito dinheiro.
São um luxo os 'palácios' da Untaet, os hotéis,
os restaurantes, enquanto o povo continua a morar em barracos e as crianças
a dormir amontadas em esteiras. Em Laleia, onde vivo, desde pequeninas
as crianças carregam água, lenha e muito peso na cabeça.
Alimentam-se basicamente de arroz, vivem doentes e não dispõem
de medicamentos. A assistência médica é prestada
por um "enfermeiro" da aldeia. As roupas doadas pelo Brasil
e outros países são vendidas nos mercados. Também
os medicamentos são vendidos. Quase nada chega à população.
O desemprego é geral. Aqui virou cabide de empregos para estrangeiros.
A maioria trata os timorenses como 'macacos'. Na estrada, quando passa
um carro da Untaet, os verdadeiros donos da terra, os timorenses, são
obrigados a darpassagem. São os 'faraós' arrogantes e
autoritários. Não vêm para servir. Vêm para
mandar e ser servidos. Começa a despontar a prostituição,
é claro! Eles têm os dólares. O povo passa fome.
Em Dili, os meninos de rua começam a ficar rebeldes, a roubar,
a formar gangues. Enquanto gastam-se milhões com os 'intrusos',
o povo não tem escolas, hospitais, empregos. O país continua
em ruínas. Por trás de tudo, sempre a supremacia político-econômica
da globalização, que não tem nenhum interesse empequenos
países livres e independentes. A Ásia e a África
foram repartidas entre os grandes.
Em frente aos palácios da Untaet há centenas de carros
com som e ar condicionado, parados, à disposição
dos mandões. Em Laleia, não há luz, nem água,
nem transporte. Viajamos em 'bis' e 'microlés' abarrotados de
gente em cima e embaixo, nas portas, nas laterais, entre galos, porcos,
cabritos, sacos de arroz e vômito, e calor sufocante. Ensino às
minhas crianças noções básicas de higiene
e cuidados pessoais. Mas elas lavam roupa, tomam banho e bebem a água
contaminada da Ribeira, enquanto a tropa gasta fortunas com água
mineral e alimentos importados. E ainda os soldados são considerados
heróis pelo mundo, porque vieram 'arriscar' a vida no Timor.
Quem corre risco de vida são as nossas crianças.
Outro dia, um carro da Untaet atropelou e matou o pequeno Eugênio,
um menino de três anos, aqui em Laleia. Nem parou para dar assistência.
Jamais será denunciado. Era um funcionário da Untaet.
Que diferença faz para eles atropelar e matar uma galinha ou
uma criança timorense? Passam em alta velocidade pelas estradas
que cortam as aldeias, onde as crianças caminham com água
ou lenha na cabeça.
Quando morre um adulto, colocam uma bandeirinha preta no lugar onde
foi atropelado. Quando é criança, uma bandeirinha branca.
Outro dia, em viagem, contei mais de vinte bandeirinhas, pretas e brancas.
A minha voz não tem importância, a não ser quando
faz eco da voz desse povo pequenino, paciente e corajoso, que ousou
lutar e vencer. Não podemos permitir que lhe usurpem a vitória,
conquistada a preço do sangue de seus filhos. Lutaram por mais
de vinte anos, corajosamente. Resistiram a todo tipo de atrocidade.
Agora que venceram, não são aptos para administrar o seu
país? Isso é piada! Quando estavam sendo massacrados,
ninguém achou que precisavam de ajuda. Todos se omitiram. Agora
vem muitaajuda de fora. Fazem crer ao mundo que são nobres e
servidores, a serviço da paz e da reconstrução
do país. Mentirosos! Mudaram os dominadores e a forma de opressão.
Agora é camuflada. Antes era a Indonésia. Agora é
uma legião."
A 5 de dezembro, em Bruxelas, Xanana Gusmão, presidente do CNRT
(Conselho Nacional da Resistência Timorense), cobrou do embaixador
Vieira de Mello, da Comissão Européia e do Banco Mundial,
presentes à Conferência de Apoio ao Timor Leste, a lenta
e exígua ajuda econômica ao país e o demorado processo
de timorização das estruturas de governo. Segundo Xanana,
"não chega a haver cinco timorenses no Gabinete de Transição,
e mesmo estes não têm acesso aos recursos humanos e financeiros
para realizar as tarefas para as quais foram indigitados". Os timorenses
não merecem ser tratados como um povo de classe inferior.
Artigo
publicado no Jornal de Ciência e Fé em março de
2001, ano 2, nº 28
|
Leia também,
do mesmo autor:
Deus,
a questão
Religião
do Consumo
|