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Dom Mauro Morelli
Dom Mauro Morelli é bispo da Diocese de Duque de Caxias desde 1981.
Celebrou, em dezembro de 1999, 25 anos de Episcopado.
É formado em Filosofia, no Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição da Arquidiocese de Porto Alegre, RS; Teologia, no Saint Mary’s Seminary and University, em Baltimore, Maryland, USA.
Ele tem se destacado por uma ação firme em favor de uma Igreja aberta ao mundo e na luta pela dignidade humana. Hoje é uma das principais expressões nacionais no combate à fome e à miséria.
Depois de integrar, junto com Herbert de Souza, o Betinho, a Campanha da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, ele tem continuado a buscar, junto de governos, ONGs e entidades civis, soluções para os graves problemas nacionais. Hoje é presidente do CONSEA (Conselho de Segurança Alimentar) do Governo de Minas Gerais e assessora iniciativas de combate à fome em todo Brasil.

 



CNBB, para onde vais?

Dom Mauro Morelli

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fruto da cumplicidade de monsenhor Montini - que se tornaria o papa Paulo VI -, e do padre Helder Câmara, surge antes do Concílio Vaticano II (1962, 65), como instrumento de comunhão entre bispos, de co-responsabilidade fraterna entre igrejas e de evangelização solidária com o povo brasileiro.

Com profunda gratidão, como tantos bispos, considero a CNBB mãe e mestra no aprendizado do pastoreio. A CNBB muito contribuiu par ao crescimento da união das igrejas no Brasil. Ajudou as dioceses e comunidades católicas a viverem a renovação conciliar. Não sem contradições e sofrimentos, tornou a fé relevante para a vida do povo.

Sem a CNBB, a história recente do Brasil seria escrita de forma bem diversa. O ensaio da democracia que gozamos foi em grande parte orquestrado pela coragem e teimosia da CNBB, unida aos movimentos sociais, oferecendo inspiração e, até mesmo, proteção e guarida a tantas mulheres e homens comprometidos com a liberdade e a justiça. A CNBB transformou pastores em profetas, rompendo o equilíbrio institucional. Alguns de seus dirigentes sofreram incompreensão dentro da própria casa, calúnias e prepotência de adversários e inimigos.

Os altos índices de credibilidade de que a igreja goza na opinião pública se devem, em grande parte, à CNBB, estrela reveladora do caminho da paz que atravessa periferias e favelas, fábricas e roçados, tabas indígenas e acampamentos dos sem-terra ou sem-teto. No campo e na cidade, a CNBB, ao longo de anos de repressão, procurou sempre testemunhar, defender e promover a vida com dignidade e esperança.

A celebração do Jubileu de Jesus trouxe novo alento à CNBB. Prestou grande serviço às nossas dioceses e comunidades com os subsídios que ofereceu em preparação para o ano jubilar.

Ora, com grande sabedoria pastoral, presidência e Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB, inspirando-se nos atos dos apóstolos, convidam-nos a ser igreja no novo milênio do jeito simples e esperançoso da primeira geração apostólica e católica.

Com utopia e martírio, a igreja primitiva ultrapassou os limites da prudência e da conveniência. O Evangelho foi testemunhado e anunciado aos escravos de Roma e aos sábios de Atenas. Com seu testemunho da grandeza e da força da vida, abalou os impérios da corrupção e da morte. Sem construir monumentos e com pouca doutrina, ganhou a simpatia e a adesão de muitos que se puseram a caminho em busca de um mundo fraterno, solidário, e aberto ao novo. Sem nenhuma diplomacia, na diversidade das culturas e no pluralismo da esperança, fermentou a terra e salgou os costumes, assestando as bases para uma civilização sem deuses e senhores.

No crepúsculo de um vigoroso pontificado, apróxima assembléia geral, de 12 a 21 de julho, terá como tema principal vida e organização da CNBB a serviço de sua missão. Um novo estatuto surgirá dessa assembléia. Circulam textos com críticas e sugestões. As críticas maiores são reservadas à autonomia e competência da Comissão Episcopal de Pastoral e aos assessores. Sugere-se uma assembléia geral quase restrita a bispos, com agenda reduzida e pouco aberta às questões sociais e ao ecumenismo.

Sem dúvida, a próxima assembléia será marcada pelas tensões e tentações que estão presentes sempre que se discute a missão da igreja. Prevalecendo a proposta de desmantelamento da Comissão Episcopal de Pastoral, retrocederemos na história. O episcopado e as dioceses não mais disporão de um organismo de coordenação e de animação da ação pastoral e evangelizadora.

Quem realizará o árduo trabalho de estudo da realidade, de reflexão e de formulação de objetivos, prioridades e programas?

A CNBB, ao longo de sua história, produziu uma rica coletânea de documentos, estudos e subsídios. Sem assessoria e sem organismo de articulação, como pretender que a evangelização seja nova em conteúdo, métodos e dinamismo? Uma CNBB que dispense a colaboração da assessoria da própria igreja tornar-se-á uma CNBB irrelevante para a missão evangelizadora e para a cidadania do povo brasileiro.

Preparando seu jubileu de ouro, CNBB, par onde vais? A presidência e a Comissão Episcopal de Pastoral convidam-nos a olhar para a frente, com humildade e confiança. Segundo o testemunho e o ensinamento de Paulo VI e João Paulo II, a evangelização é caminho de esperança, sempre será testemunho, não acontece sem diálogo e acolhimento numa comunidade. Jamais será fruto de cruzadas e conquistas, mas sempre um desabrochar da consciência eda verdadeira liberdade.

Uma nova evangelização não tolera a fome do povo e a degradação do meio ambiente. Que a CNBB, ao término da assembléia geral, transforme o XIV Congresso Eucarístico Nacional em testemunho, anúncio e compromisso da igreja com os famintos e os deserdados do mundo.


Publicado no Jornal de Ciência e Fé de maio de 2001, ano 2, nº 30

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