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Antonio Carlos Coelho
é professor de Ecumenismo e Judaísmo do Studium Theologicum e diretor do Instituto Ciência e Fé.

Estudou em Israel arqueologia bíblica e tradição judaica. Tem artigos publicados em diversos jornais e revistas. Lançou "Encontros Marcados com Deus - Expressão da unidade do povo de Deus" pela Paulinas, em abril de 1990.

A busca do diálogo
Entre o desejo e a realidade

Antonio Carlos C. Coelho


No princípio deste mês de maio o Papa percorreu os caminhos de Paulo: Grécia, Síria, Malta. Locais históricos que abrigaram importantes comunidades da Igreja primitiva. O Papa, que no ano passado tinha visitado Israel, berço primeiro da fé cristã, agora, em sua última viagem, percorreu importantes locais que abrigaram ricas experiências da vida cristã.

Não foi uma viagem fácil. O Papa teve que enfrentar manifestações pouco amistosas, fruto de ressentimentos seculares da Igreja Grega Ortodoxa. Surpreendente rejeição. Esperava-se uma maior reciprocidade por parte dos irmãos de mesma fé. Tal atitude demonstrou o quanto foi pequeno progresso do diálogo entre as Igrejas Romana e Grega, iniciado por Paulo VI em 64: ocasião em que foram suspensas as mútuas excomunhões.

Na Síria, país que abrigou uma das mais importantes comunidades cristãs primitivas, um dos berços do monaquismo, a visita do chefe da Igreja tornou-se mais política do que pastoral. Lamentável. A presença de João Paulo II naquele antigo país, de relevância no mundo islâmico, poderia ter recebido um significado único na sua missão de diálogo e paz, se não fosse o caráter político que a marcou. Apesar de ninguém duvidar da seriedade desse velho homem vestido de branco e das boas razões que o levaram a cumprir a 93ª viagem, sua visita pastoral tornou-se um grande momento de agressão a Israel e aos judeus. Os líderes islâmicos não perderam a oportunidade da sua presença e da atenção da imprensa mundial. Manifestaram o enraizado ódio anti-judaico. Um ataque que, ultrapassando o caráter político, alcançou o âmbito do anti-semitismo. Aproveitaram o momento. Julgaram que antigas acusações cristãs feitas aos judeus ainda prevaleciam - ou talvez, as mesmas ainda prevaleçam na comunidade árabe cristã da região.

O Papa não retrucou. Talvez desejasse manter o caráter pacifista e de abertura ao diálogo da sua presença. Mas, por outro lado, tendo em vista o passado, parece claro que, para Igreja, é mais importante preservar a integridade das comunidades cristãs no conturbado Oriente Médio do que tomar posição em favor de Israel e dos os judeus.

Esta preferência política fez com que o Vaticano só reconhecesse o Estado de Israel 45 anos depois da sua criação. No entanto, deveria ter sido o primeiro a fazer tal reconhecimento, senão por razões políticas, por motivações teológicas: reabilitar teológicamente a Igreja na sua relação com Israel. Reconhecer o Estado de Israel, e Jerusalém como a sua capital, é reconhecer a realização e a permanência da Aliança. Tal reconhecimento é inquestionável e necessário para a Igreja, assim como o seu comprometimento incondicional com Israel e seu povo.

No atual e conturbado momento, a visita do Papa a Síria não poderia dar em outra coisa: Israel, mais uma vez, apareceu ao mundo como a intolerante e intransigente diante do processo de paz. No dia da estratégica visita à cidade de Kuneitra, em Golan, aparece um bebê morto num ataque. - Quem não se comove com a morte de um inocente? Seria mais uma morte arranjada para essa ocasião tão especial? Tudo foi bem explorado, e a imprensa mundial tirou proveito.

Que importância teve a visita do chefe da Igreja no mundo islâmico? - Queira Deus seja essa uma oportunidade para o diálogo, para a busca da paz entre os povos. Mas isso cabe aos nossos desejos e orações. Na realidade, o cristianismo representa, juntamente com o judaísmo, tudo aquilo que o mundo islâmico não aceita: ambas são símbolos do Ocidente e da corrupção dos valores islâmicos. Assim, nenhuma dessas religiões e povos são bem vistos naquele ambiente. Portanto, a acolhida fraternal dos chefes do islamismo ao Papa, não foi mais do que "finta" - uma forma de fazer bela figura para o mundo e destacar o quanto são oprimidos pelo "imperialismo judaico e ocidental". Foi mais uma oportunidade que líderes islâmicos encontraram para culpar Israel pela falta de democracia, pela desigualdade social, pelo atraso tecnológico e evidente incapacidade que seus países têm para ajustarem-se à nova ordem econômica, cultural e política do mundo.

No final das contas, é mais importante para a Igreja, estar bem com o mundo muçulmano, pois sabe a diplomacia do Vaticano, o quanto é difícil o convívio nesse meio. Já, com os judeus e com o Estado de Israel, sabe que nunca sofreria ofensa e não correria o risco de ter igrejas fechadas e limitada a entrada de religiosos no país.

Passos para a reconciliação entre as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa Grega

Em janeiro de 1964 aconteceu abraço da reconciliação entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras.

- de dezembro de 1965 - suspensão oficial das mútuas excomunhões;

- 1975, criada uma comissão mista preparatória para o diálogo teológico com fins de trabalhar questões comuns da fé trinitária e sacramental. Os trabalhos iniciaram somente em 1979;

- em 1980, aconteceu a primeira reunião em Patmos e Rodas.

- Até hoje três documentos foram produzidos: O mistério da Igreja e da Eucaristia à luz do mistério da Santíssima Trindade ( 1982); Fé, sacramento e unidade da Igreja (1987); O sacramento da ordem na estrutura da Igreja ( 1988).


O Que as Crianças Sírias Aprendem Sobre Israel

O Dr. Meyrav Wurmser, diretor do Instituto Memri (The Middle East Media Research Institute), organização sem fins lucrativos com sede em Washington, há pouco publicou o livro The Schools of Ba'athism em que faz uma análise de quarenta livros escolares atualmente utilizados na Síria por alunos do quarto ao décimo primeiro graus. O conteúdo desses livros diz que sionismo é o mesmo que colonialismo e o mesmo que nazismo, acentuando que o sionismo coloca em perigo o mundo árabe e seu sonho de unificação e que a própria existência de Israel representa uma ameaça ao regime Baathista da Síria. Os escritos também afirmam que é impossível a paz com um inimigo dessa natureza porque qualquer acordo ou reconhecimento de Israel poderia provocar o colapso da essência ideológica do estado sírio.

Em outros capítulos, estes livros escolares ensinam que Israel é um inimigo agressivo e expansionista, sendo o responsável pelo atraso existente no mundo árabe. Assim, sua presença assustadora e onipotente é que acaba determinando as condições internas de toda a região que o circunda. A conclusão inevitável dessas razões é que tal inimigo deve ser confrontado e destruído para preservar a própria sobrevivência física da Síria. Do ódio ao sionismo e a Israel, as lições se voltam para o anti-semitismo, invocando a inamovível e traiçoeira natureza dos judeus que, portanto, devem ser aniquilados.

NetFly, 24 de julho de 2000, em www.bait.com.br



Publicado no Jornal de Ciência e Fé de maio de 2001, ano 2, nº 30

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