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Jamil Snege nasceu em Curitiba, PR, onde reside.
É formado em Sociologia e Política pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná.
Escritor e publicitário, divide seu tempo entre os livros e sua
agência.
Publica crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta
do Povo.
É o escritor mais reconhecido pela classe literária curitibana,
autor de mais de dez obras, entre as quais Tempo sujo (1968), Ficção
Onívora (1978), Para Uma Sociologia das Práticas
Simbólicas (ensaio, 1985), O Jardim, a Tempestade (minicontos,
1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) Viver
é Prejudicial à Saúde (1998), Os Verões
da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).
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Para matar um grande amor
Jamil Snege
Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus.
No entanto não há gesto tão profundamente humano
quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não
apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo
inteiro. O amor relativisa; a renuncia absolutiza. E não há
sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados
após o derradeiro abraço, o último e desesperado
entrelaçar de mãos.
Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que
sobrevivem incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida
inteira e podem até ser chamados de amor - mas nunca foram ou serão
um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o dom da finitude, abrupta e
intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem
medo e temor de destruição.
Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não
poder retê-lo, porque nossas cordas afetivas são muito frágeis
para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação.
Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate - e por
fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção:
o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos
de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.
Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande
amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira
astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência
de cada um dos amantes. Morrer um pouco para continuar vivendo. E poder
usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a
voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro
se afastar como se através de uma cortina líquida ou de
um vitral embaçado.
A visão é o último e o mais frágil dos sentidos
que ainda nos une ao que acabamos de perder.
Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento
de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses
feitos para durar uma vida inteira.
Publicado no Jornal Gazeta do Povo
edição de 09/07/2000
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