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Eleidi Alice Chautard Freire-Maia
Bacharel e Licenciada em História Natural, pela Univ. Fed. do Paraná, em 1965.

Doutora em Ciências, na área da Genética, pela Unive. Fed. do Rio Grande do Sul, em 1974.

Professora Titular (por concurso) do Depto. de Genética da Univer. Fed. do Paraná, onde lecionou para Cursos de Graduação e de Pós-graduação. Ingressou como Auxiliar de Ensino em 1967 e se aposentou como Titular em 1991. Desde a aposentadoria, tem continuado suas atividades didáticas e de pesquisa, como Professora Sênior.

Bolsista do Conselho Britânico, com estágio de 2 anos e 3 meses, na Univ. de Birmingham, Inglaterra, de setembro de 1970 a dezembro de 1972.

Estágio de 1 mês, com bolsa do Conselho Britânico, na Univ. de Indiana, Estados Unidos, em março de 1972.

Implantou, em 1974, um laboratório de pesquisa (Laboratório de Polimorfismos e Ligação), no Depto. de Genética da UFPR, que tem dirigido desde seu início e onde tem orientado muitos estudantes.

Tem se dedicado principalmente a estudos sobre: a) efeitos genéticos dos casamentos consangüíneos sobre a mortalidade precoce, morbidade, dados antropométricos e desempenho escolar; b) mapeamento do genoma humano; c) polimorfismos e monomorfismos de interesse antropológico e clínico, relacionados com. a determinação de características de natureza multifatorial (altura, índice de massa corporal, obesidade, doenças cárdio vasculares, psoríase, susceptibilidade a agrotóxicos) e monofatorial (displasias ectodérmicas).

A produção científica se constitui em 180 publicações, que compreendem 58 trabalhos completos (incluindo 14 de revisão ou de divulgação científica) e 122 resumos. Os 44 trabalhos completos, com dados obtidos em projetos de pesquisa, têm sido publicados em sua maioria (33) no exterior (Estados Unidos, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha e Itália).

Orientação ou co-orientação de 20 pós-graduandos (17 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado); atualmente orienta mais dois doutorandos e um mestrando. Orientação de 16 projetos de Iniciação Científica.

Participação em cerca de 60 reuniões científicas no Brasil e 20 no exterior (Inglaterra, França, Estados Unidos, Uruguai, Israel e Peru).

Proferiu cerca de 100 palestras e seminários, no Brasil e na Inglaterra.

Bolsista do CNPq desde 1967. Pesquisadora do CNPq de 1973 a 2000, tendo o nível IA desde 1984.

Conselheira da SBPC (1981-1985; 1991-1995); Membro da Diretoria da SBG (1984-1986); Membro da Diretoria da SBPC (1987-1989) e Membro do Comitê Assessor de Genética do CNPq (1/89 a 12/90).



A Evolução dos Seres Vivos

Eleidi A. Chautard Freire-Maia

O filósofo da ciência, Thomas Kuhn, em seu livro "A estrutura das revoluções científicas", propõe duas situações diferentes através das quais a ciência progride: revolução científica e evolução. A revolução científica é determinada pelo aparecimento de um novo paradigma. É através de um paradigma científico que o pesquisador interpreta os dados já observados, bem como aqueles que ainda serão verificados. Um novo paradigma propicia novos caminhos para a interpretação dos fatos, permite novas análises e soluções de problemas, bem como determina o tipo de hipóteses a serem formuladas. Dois paradigmas principais e opostos foram propostos para que o ser humano entendesse a história natural das espécies de seres vivos, através dos tempos. O mais antigo deles foi o fixismo, que admitia a imutabilidade das espécies e vigorou até o século XIX. Foi em 1800 que se iniciou a revolução científica sobre esse assunto, com o surgimento de um novo paradigma, isto é, o evolucionismo. Foi nesta época que a primeira teoria da evolução foi formulada, por Jean Baptiste Lamarck. Meio século depois, em 1858, Charles Darwin e Alfred R. Wallace apresentaram seus trabalhos independentes a respeito da teoria da seleção natural. Era uma nova revolução que se fundamentou, mais profundamente, com a publicação do livro "Origem das espécies", de Darwin, em 1859.

A outra forma da ciência progredir, a evolução, é a situação da ciência considerada normal e que se situa entre duas revoluções. Às vezes, dentro da ciência normal aparecem crises, que podem vir a enriquecer o paradigma da época ou dar origem à uma nova revolução científica. No que se refere ao estudo da evolução dos seres vivos, estamos atualmente vivendo a ciência normal. A teoria da evolução adotada atualmente é denominada de teoria sintética da evolução e foi elaborada, em seus princípios gerais, entre 1935 e 1950. Trata-se de uma teoria néo-darwinista. Ela admite algumas das proposições de Darwin como, por exemplo, o fator evolutivo seleção natural, exclui algumas hipóteses formuladas por Darwin, como as hipóteses de herança por mistura e herança dos caracteres adquiridos e incorpora novos conhecimentos científicos, como as leis da herança biológica formuladas por Mendel em 1866 e redescobertas em 1900 (revolução científica no que se refere à explicação da herança biológica), o DNA como material hereditário da grande maioria dos seres vivos, enfim uma série de conhecimentos fornecidos pela Geologia e, principalmente, pelos vários campos da Biologia.

A teoria da evolução biológica admite que os seres vivos atuais derivaram, por modificações sucessivas, de seres ancestrais e, assim, repetidamente, até o início da vida, isto é, até o aparecimento do primeiro ser vivo.
Se fôssemos representar, em forma de desenho esquemático, o modo como se tem processado a evolução, teríamos uma representação do tipo de uma árvore, como a mostrada na figura 1(B). Há uma raiz na origem (primeira espécie de ser vivo) e o caule vai se ramificando, à medida em que vão aparecendo espécies novas, com alguns ramos interrompidos, simbolizando as espécies que se extinguiram e, assim, sucessivamente, até chegarmos às espécies atuais. De acordo com a teoria da evolução, todos os seres vivos se relacionam uns com os outros, alguns com ancestrais comuns mais próximos, outros com ancestrais comuns mais distantes. A representação evolucionista na figura 1 (B) contrasta com a figura 1 (A), desenhada com base no que se propunha antes da teoria da evolução. Esta representação (A) é inspirada no oposto do evolucionismo, é inspirada no fixismo, que admitia que todos os seres de épocas recentes eram iguais aos seres criados no início da vida. Neste caso não havia extinções de espécies, uma espécie não tinha relação de origem comum com qualquer outra e as espécies eram imutáveis. O fixismo era uma teoria científica até parte do século XIX, tendo sido rejeitada por ser considerada incorreta e foi substituída pelo evolucionismo, visão que é atualmente adotada pela teoria sintética da evolução.

A - F I X I S M O
B - E V O L U C I O N I S M O

FIG. 1. Representações esquemáticas dos dois paradigmas opostos, utilizados pela pela ciência para explicar a história natural das espécies de seres vivos através dos tempos.

A teoria sintética da evolução não diz apenas que a evolução ocorreu, mas indica quais os fatores necessários para que ela ocorra. A seguir trataremos desses fatores, chamados de fatores evolutivos.
Quando examinamos qualquer espécie de ser vivo, observamos que dentro de cada espécie os indivíduos diferem quando comparados entre si. Em qualquer grupo de pessoas se observam diferenças quanto à estatura; à forma da cabeça, dos braços, das mãos; à cor da pele, dos olhos, dos cabelos etc. É por isto que dizemos que todas as espécies mostram variação. No grupo das araras, temos evidente variação na coloração das penas, entre outras características variáveis. Entre alguns moluscos observamos variação nos padrões de coloração das conchas, por exemplo. A maior parte da variação que observamos entre os seres da mesma espécie é de origem genética, isto é, foi herdada biologicamente. Por que as estruturas, as cores, a estatura, enfim, várias características variam entre um indivíduo e outro da mesma espécie? Numa análise mais aprofundada, vemos que essas diferenças são devidas à variação num grupo de substâncias muito importantes que entram na formação dos seres vivos e que são chamadas de proteínas. As proteínas formam as mais diversas estruturas dos seres vivos e determinam seu metabolismo. Um tipo especial de proteínas, as enzimas, fazem com que os diferentes tipos de reações bioquímicas ocorram em todos os seres vivos, isto é, em última análise determinam a síntese e degradação das substâncias químicas que compõem um ser vivo e que são responsáveis pelos processos vitais. Todo ser vivo possui um número muito grande de tipos de proteínas e enzimas próprias, cada tipo tendo uma função definida. Na espécie humana temos milhares de proteínas e enzimas diferentes. Se considerarmos dez seres humanos, por exemplo, e examinarmos algumas proteínas e enzimas presentes em seu sangue, veremos que entre essas pessoas poderá aparecer variação entre proteínas e entre enzimas consideradas iguais quanto à sua classificação bioquímica. Isto é, poderão aparecer tipos diferentes de hemoglobina A, de transferrina, de haptoglobina, de butirilcolinesterase, de fosfatase ácida, de fosfoglucomutase 1 etc. Por que a transferrina de um indivíduo poderá diferir daquela de outro indivíduo? A resposta é que os componentes dessas duas transferrinas não são totalmente iguais. Toda proteína ou enzima é formada por uma ou mais cadeias de substâncias chamadas de amino-ácidos. A diferença em apenas um amino-ácido será suficiente para produzir variação em qualquer tipo de proteína.

Cada ser vivo possui suas proteínas e enzimas próprias porque ele as produz a partir de duas fontes que se complementam: sua herança biológica e o ambiente que o cerca. Esse ambiente é representado principalmente pelas substâncias, elementos químicos e energia que recebe através da alimentação, do ar, da água (organismos aquáticos) e do sol. Sua herança biológica é determinada por um ácido, o ácido desoxirribonucleico (DNA), próprio da grande maioria dos organismos vivos, ou o ácido ribonucleico (RNA), que é o material hereditário de alguns vírus. O DNA é formado de duas fitas complementares, tendo cada uma delas uma lateral formada por açúcar e fosfato e uma parte interna formada por 4 bases nitrogenadas: adenina, guanina, citosina e timina. Cada gene é formado por uma seqüência dessas substâncias, sendo que o número de pares de bases varia de um gene a outro. O código para determinar a formação de um amino-ácido é dado por uma seqüência de três bases, denominada de triplete. Assim, quando observamos que dois indivíduos apresentam transferrinas diferentes, já inferimos que elas deverão diferir por, pelo menos, um amino-ácido e que, conseqüentemente, deverá haver uma base diferente quando se comparam moléculas de DNA dessas duas pessoas, no que se refere ao gene da transferrina.

A existência dessa variação protéica permite que haja evolução. O fator evolutivo capaz de criar essa variação genética é a mutação. A mutação é qualquer alteração no material hereditário, desde simples mudança em uma base do DNA (mutação de ponto) até alterações maiores que incluem partes de cromossomas ou mesmo cromossomas inteiros ( aberrações cromossômicas). Costuma-se dizer que a mutação cria a matéria prima para a evolução. Se o fenômeno da mutação não existisse, não teria sido possível a evolução, pois não haveria mudança no material genético, através das gerações.

O DNA é uma substância química que apresenta o fenômeno da duplicação. Antes que uma célula entre no processo de divisão celular, que dará origem a duas células, o DNA se duplica, de modo que cada célula leva sua herança biológica total (mitose, divisão que ocorre nas células somáticas) ou metade dela (meiose, divisão típica da formação de gametas). Nesse processo de duplicação é que ocorre a mutação. Em taxas muito baixas, em geral de 1 caso em 100.000 gametas humanos, um determinado gene poderá apresentar o fenômeno da mutação. A mutação pode ser considerada como um erro que ocorre durante o processo de duplicação e que não foi corrigido bioquimicamente. A mutação de ponto se constitui na troca de uma base por outra. É um erro que ocorre ao acaso. Quando se diz que ocorre ao acaso, não se pretende dizer que não tenha tido uma causa. Neste contexto, significa que sua ocorrência se deu de forma espontânea, ao acaso, e não em resposta a uma necessidade de melhor adaptar o organismo ao seu meio ambiente. Como na espécie humana estima-se que haja cerca de 100.000 genes, espera-se encontrar cerca de uma mutação nova por gameta recém-formado.

Quando se deseja resumir a ação dos fatores evolutivos, costuma-se dizer que a evolução é um fenômeno de duas faces: produção de variação pela mutação e escolha de variantes pela seleção natural. A seleção natural é um fator que se expressa pela reprodução diferencial dos diferentes tipos, isto é, dos diferentes fenótipos. Assim, frente à seleção natural, parte da variação poderá ser adaptativa, isto é, favorecida ou desfavorecida e parte ser neutra, isto é, não ser afetada pela seleção natural. Em cada espécie - com exceção da espécie humana, que faz planejamento familiar - os indivíduos, cujas características hereditárias interagirem melhor com o meio ambiente, deixarão maior número de descendentes que chegarão à idade de reprodução. Assim, espera-se que as variações gênicas que determinarem melhor adaptação estejam representadas, preferencialmente, nas gerações seguintes. Imaginemos, vivendo num ambiente claro, uma população de roedores, os quais mostram variação na cor da pelagem (clara e escura) e consideremos uma espécie de pássaro como predadora desses roedores. Os roedores de coloração escura são os que se destacam mais no ambiente, sendo vistos preferencialmente pelos pássaros predadores e mais facilmente apanhados. Se esse processo continuar por um certo numero de gerações, espera-se que a variação genética determinante da pelagem escura venha a desaparecer dessa população. Costuma-se dizer que a seleção natural, ao favorecer os indivíduos que melhor interagem com o meio ambiente, molda cada espécie, de modo a aumentar sua adaptação ao nicho ecológico. No exemplo que demos, a seleção natural eliminou um dos fenótipos, acabando com a variação no gene considerado. Em alguns sistemas de proteínas e enzimas, uma única mudança de um amino-ácido poderá ser fatal para a sua função, interferindo no processo vital. Nesses sistemas, a variação é raríssima e mantida apenas pelo fenômeno da mutação. É o caso de doenças e malformações hereditárias graves, que se manifestam antes e durante o período reprodutivo do indivíduo. Em outros sistemas genéticos, a seleção natural poderá favorecer ora um fenótipo, ora outro (seleção dependente de freqüência, seleção dependente de densidade). Poderá também favorecer o indivíduo que porte dois variantes para o mesmo gene, isto é, o fenótipo heterozigoto (seleção a favor do heterozigoto). Nesses três últimos casos salientados, a seleção natural não acaba com a variação genética; pelo contrário, é o fenômeno da seleção natural que a mantém.

Tanto a mutação quanto a seleção natural são fatores evolutivos pois são capazes de alterar as freqüências de alelos, isto é, de forma variantes do mesmo gene. Esses dois fatores evolutivos são considerados como determinísticos ou sistemáticos, uma vez que a direção, a intensidade e a variância na mudança das freqüências alélicas podem ser calculadas. Um outro fator evolutivo, também considerado como do tipo determinístico é o fluxo gênico. É comum uma espécie apresentar populações que diferem numa série de características genéticas. Essas populações são chamadas de raças ou sub-espécies e diferem entre si nas freqüências de seus alelos. Essas populações que se diferenciaram geneticamente enquanto permaneceram separadas por uma alguma barreira geográfica, podem voltar, por migração, a habitar a mesma localidade e começar a se intercruzar. Pelo intercruzamento se estabelece um fluxo gênico de uma à outra população da mesma espécie. As freqüências alélicas serão diferentes após o fluxo gênico, que tem como principais propriedades favorecer o aumento da variabilidade - por reunir variantes próprios de populações diferentes - e diminuir, entre populações, a diferenciação genética que houvesse acontecido enquanto estas estivessem isoladas geograficamente.

Vimos anteriormente três fatores evolutivos do tipo determinístico (mutação, seleção natural e fluxo gênico) e a seguir apresentaremos a deriva genética, fator evolutivo do tipo estocástico. Um fator estocástico é caracterizado por não poder ser analisado quanto a sua direção e intensidade, mas apenas quanto a sua variância. Quando ocorre deriva genética, não sabemos se a freqüência de um determinado alelo irá aumentar ou diminuir de uma geração à outra, também não sabemos de quanto irá aumentar ou diminuir. Apenas poderemos prever qual será a amplitude da variação na freqüência de um determinado alelo. Admitindo-se uma possibilidade de erro de cerca de 5%, poderemos prever que o alelo A, presente numa população pequena de 30 pessoas, com freqüência de 15% na geração atual, poderá apresentar uma freqüência dentro do intervalo de 6% a 24%, na próxima geração. A deriva genética nada mais é do que o efeito do acaso em populações pequenas. Sabemos que, nas espécies com reprodução cruzada, os indivíduos de cada geração são produzidos a partir de uma amostra dos gametas da geração anterior. Quando a população é grande, essa amostra de gametas que dará origem à próxima geração também é grande, representa bem a variação genética da população e é capaz de originar uma geração filial que é uma boa réplica da geração parental. Assim, se desconsiderarmos os fatores evolutivos, numa população grande sem cruzamentos preferenciais, as freqüências alélicas e genotípicas se mantém constantes ao longo das gerações. Nada muda geneticamente. Entretanto, quando a população é considerada pequena, os poucos gametas que darão origem à geração filial dificilmente irão produzi-la com as mesmas freqüências alélicas da geração dos progenitores. Nestas populações pequenas as freqüências alélicas irão mudar de uma geração à outra, devido ao acaso, que produz a deriva genética. Enquanto o fenômeno da seleção natural eleva a freqüência dos alelos responsáveis por maior valor adaptativo, a deriva genética altera a freqüência de qualquer alelo, independentemente do seu valor adaptativo. Assim, pela ação da deriva genética poderá aumentar a freqüência de alelos desvantajosos. Por exemplo, na Ilha dos Lençóis (Maranhão) ocorre freqüência relativamente alta do alelo determinante do albinismo (falta de pigmentação da pele, dos cabelos, da íris etc) pelo efeito da deriva genética. Em populações grandes, a freqüência de pessoas com este distúrbio genético é de cerca de uma pessoa em 20.000. Na Ilha dos Lençóis, Newton Freire-Maia e colaboradores relatam a ocorrência de um caso de albinismo em cada 17 pessoas. Este exemplo ilustra a ação do acaso durante a ocupação da ilha por poucos fundadores, sendo um tipo especial de deriva genética, conhecido pelo nome de efeito do fundador.

A ação dos quatro fatores evolutivos expostos anteriormente modifica geneticamente as populações. Podemos dizer que a mutação cria variação nova, que o fluxo gênico pode disseminá-la através das populações, que a seleção natural e o fluxo gênico geram mudanças direcionais na variação e que a deriva genética ocasiona mudanças ao acaso na variação.

Consideremos uma espécie, constituída por duas populações intercruzantes, entre as quais passa a existir uma barreira geográfica. Esta barreira pode ser uma montanha, o mar ou um rio para seres terrestres, uma faixa de terra para seres aquáticos, um deserto, uma faixa de gelo etc. A barreira geográfica passa a impedir o intercruzamento e com isto cessa o fluxo gênico entre essas populações. Com o passar das gerações essas populações vão começar a diferir quanto à variação genética. As mutações novas que aparecerem em uma das populações poderão ser diferentes daquelas que aparecerem na outra, os ambientes diversos poderão gerar diferentes tipos de seleção natural, a deriva genética poderá atuar de forma diversa em uma e outra população. Geralmente essa diferenciação produz, no seu início, apenas raças diferentes. Duas raças no caso de nosso exemplo. Caso desapareça a barreira geográfica e essas raças voltem a se encontrar, ocorrerá o intercruzamento entre elas. O fluxo gênico é restabelecido e quando for completo se desfará a diferenciação em raças, formando-se uma única população enriquecida pela variação proveniente das duas raças. A evolução que causa diferenciação até o aparecimento das raças geográficas é denominada de microevolução. A microevolução pode ser observada em experimentos de laboratório e a diferenciação observada neste nível de evolução é reversível. Imaginemos uma outra situação na qual, ao desaparecer a barreira geográfica, já tenha havido diferenciação suficiente entre essas populações, de modo a impedir o cruzamento entre elas (mecanismos pré-copula) ou atuar após o intercruzamento, inviabilizando a progênie híbrida (mecanismos pós-cópula). Nesta situação a diferenciação genética originou o isolamento reprodutivo entre essas populações, de modo que já não pertencem à mesma espécie. São duas espécies diferentes. Ocorreu o fenômeno de especiação ou multiplicação de espécies. Tínhamos uma espécie e agora temos duas. Que tipos de diferenciações entre duas populações podem levá-las ao isolamento biológico? No caso das diferenciações que impedem o intercruzamento temos: adaptação a diferentes habitats, maturação sexual em épocas diferentes, comportamento de côrte diferente (caso de animais), diferenças anatômicas. Entre os problemas que aparecem após a cópula temos: incompatibilidade das células sexuais, híbridos inviáveis, híbridos estéreis, descendência degenerada a partir dos híbridos. Não estamos mais tratando de eventos microevolutivos, pois o aparecimento de espécie nova já faz parte da macroevolução. Uma espécie nova não reverte como uma raça, ela terá sua história evolutiva independente. Este tipo de especiação do qual tratamos e que se desenvolveu na dependência de uma barreira geográfica, enquanto as populações estavam ocupando áreas separadas, é denominado de especiação alopátrica. Os pesquisadores da área de evolução acham que este é o tipo de especiação mais freqüente. Há outros tipos de especiação: parapátrica, simpátrica, estasipátrica, por poliploidia etc. Também admite-se que uma espécie pode se modificar através do tempo, pelos mesmos fatores evolutivos já citados, constituindo o que se chama de evolução filética. Neste caso não há multiplicação de espécies, não há especiação. Em cada época do registro geológico há sempre uma só espécie, que numa época pode receber um nome específico e em outra época ser conhecida por outro nome específico, uma vez que os especialistas observam diferenças morfológicas suficientes entre elas para considerá-las como espécies diferentes. Tratam-se de crono-espécies.

Há muitas observações que são interpretadas como evidências da evolução orgânica. São encontradas nas várias disciplinas da Biologia. A seguir relacionaremos algumas dessas observações.

1) Genéticas - A transmissão da herança biológica em todos os organismos vivos é feita pelo DNA ou pelo RNA, no caso de certos vírus. Com raríssimas exceções, o código genético tem o mesmo significado em todos os seres vivos. Estas observações são interpretadas com base na teoria da evolução como evidências de que todos os seres vivos tiveram uma origem comum. Além disso, seres vivos com ancestral comum mais próximo possuem DNA mais semelhante do que aqueles com ancestral comum mais distante.

2) Embriológicas - Seres de espécies diferentes aparentadas, como por exemplo, os vertebrados, vão apresentar várias semelhanças em fases embrionárias. Quanto mais inicial a fase, maiores as semelhanças encontradas. Em geral, quanto maior a semelhança nos adultos, maior a semelhança na fase embrionária. O embrião humano apresenta cauda e brânquias, que podem ser explicadas pelo fato da espécie humana ter tido ancestrais com esses órgãos, respectivamente, primata caudado e ancestral peixe.

3) Vestigiais - Certos órgãos ou estruturas que se apresentam com desenvolvimento normal e função conhecida em algumas espécies, poderão estar presentes em outras espécies como simples vestígios, isto é, pouco desenvolvidos e sem função aparente. No caso da espécie humana, entre outros vestígios, são citados: os músculos das orelhas, a membrana nictitante, os terceiros molares, os pelos corporais, o apêndice vermiforme, os músculos segmentados do abdômen, as vértebras caudais. Com base no paradigma evolutivo, podemos interpretar que esses vestígios representam órgãos ou estruturas presentes em ancestrais, nos quais seriam bem desenvolvidos e com função relevante.

4) Anatômicas - A semelhança anatômica entre órgãos e estruturas, quando se examinam espécies diferentes, são explicadas, muitas vezes, pelo fato dessas espécies terem tido ancestral comum. Quando este é o caso, diz-se que esses órgãos são homólogos. Os membros anteriores da nossa espécie, do cachorro, do porco, do carneiro, e do cavalo, apesar das diferenças apresentadas, mostram grande semelhança entre seus ossos homólogos (omoplata, úmero, ulna, rádio etc). As diferenças entre órgãos de espécies aparentadas são, muitas vezes, interpretadas como devidas a diferentes adaptações, causadas por diferentes pressões da seleção natural.

5) Paleontológicas - Os restos ou vestígios de seres de espécies extintas podem ter ficado registrados em rochas sedimentares. Esses restos ou vestígios são chamados de fósseis. Os fósseis representam uma das evidências mais fortes da evolução biológica.

6) Biogeográficas - Entre as evidências biogeográficas vamos nos ater ao aparecimento de espécies novas em ilhas oceânicas formadas a partir da erupção dos vulcões. No início de sua formação esses ambientes não apresentam vida. Após um tempo apreciável de anos vai se verificar que nessas ilhas se encontram espécies diferentes daquelas das outras ilhas e do continente próximo. São documentos preciosos do processo evolutivo. A explicação mais provável é que essas espécies novas surgiram através da diferenciação genética in loco de espécies fundadoras vindas das regiões mais próximas.
Para finalizar gostaria de voltar à figura 1 (B), que mostra a árvore da evolução dos seres vivos. Este diagrama nos revela que todos os seres vivos estão unidos por linhas de parentesco. É belo constatar que estamos todos unidos através da história evolutiva. Grande parte da diferenciação ocorreu provavelmente pelo processo de especiação, ou multiplicação de espécies. No que se refere à nossa espécie (Homo sapiens sapiens), observamos que as diferenciações genéticas entre as suas populações estão se desfazendo pelo fluxo gênico. Se este fenômeno continuar, a espécie humana apresentará cada vez menos diferenciações do ponto de vista biológico, sem perda de sua apreciável variação genética. Seu processo de evolução será do tipo de evolução filética, no qual a espécie se diferencia através do tempo, sem se multiplicar em espécies contemporâneas. Espera-se que também no campo sócio- econômico as diferenças entre os grupos humanos se desfaçam e que se atinja a justiça social.

Resumo

O presente artigo comenta a respeito dos dois paradigmas (fixismo e evolucionismo) propostos para entender a história natural dos seres vivos através dos tempos. Explica a teoria sintética da evolução, analisando os fatores evolutivos (mutação, seleção natural, fluxo gênico e deriva genética), que promovem tanto a microevolução (diferenciação até raças ou sub-espécies) como a macroevolução (diferenciação a partir do nível da espécie). Analisa, ainda, algumas observações que podem ser consideradas como evidências da evolução biológica.

Abstract

The present paper deals with the two paradigms (fixism and evolutionism) proposed for the understanding of the natural history of living organisms through the times. It explains the synthetic theory of evolution and analyses the evolutionary factors (mutation, natural selection, gene flow and random genetic drift) which promotes both microevolution (differentiation up to races or sub-species) and macroevolution (differentiation from species onwards). It also analyses some data that may be considered as evidences of biological evolution.


Bibliografia sugerida

Dobzhansky, T. 1970. Genética do processo evolutivo. Tradução de Celso Abbade Mourão. Editora da Universidade de São Paulo/ Editora Polígono, São Paulo, SP.

Freire-Maia, N. 1986. Criação e evolução. Deus, o acaso e a necessidade. Editora Vozes Ltda., Petrópolis, RJ.

Freire-Maia, N. 1988. Teoria da evolução: de Darwin à teoria sintética. Editora Itatiaia Ltda./ Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP.

Futuyma D. J. 1993. Biologia evolutiva ( 2a edição). Coordenador da Tradução: Mário de Vivo. Coordenador da Revisão Técnica: Fábio de Melo Sene. Sociedade Brasileira de Genética, Ribeirão Preto, SP.

Palestra proferida no I Ciclo de Palestras do Instituto Ciência e Fé
"Ser Humano, Universo e Vida" em 13 de outubro de1995 em Curitiba - PR

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da mesma autora:

O GENOMA
HUMANO

I
Significado
e Função

II
Diversidade e Semelhança

III
Aplicações do Conhecimento e Implicações Éticas

IV
Ontem e Hoje


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