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Eleidi
Alice Chautard Freire-Maia
Bacharel e Licenciada em História Natural, pela Univ. Fed. do Paraná,
em 1965.
Doutora em Ciências, na área da Genética, pela Unive.
Fed. do Rio Grande do Sul, em 1974.
Professora Titular (por concurso) do Depto. de Genética da Univer.
Fed. do Paraná, onde lecionou para Cursos de Graduação
e de Pós-graduação. Ingressou como Auxiliar de Ensino
em 1967 e se aposentou como Titular em 1991. Desde a aposentadoria, tem
continuado suas atividades didáticas e de pesquisa, como Professora
Sênior.
Bolsista do Conselho Britânico, com estágio de 2 anos e 3
meses, na Univ. de Birmingham, Inglaterra, de setembro de 1970 a dezembro
de 1972.
Estágio de 1 mês, com bolsa do Conselho Britânico,
na Univ. de Indiana, Estados Unidos, em março de 1972.
Implantou, em 1974, um laboratório de pesquisa (Laboratório
de Polimorfismos e Ligação), no Depto. de Genética
da UFPR, que tem dirigido desde seu início e onde tem orientado
muitos estudantes.
Tem se dedicado principalmente a estudos sobre: a) efeitos genéticos
dos casamentos consangüíneos sobre a mortalidade precoce,
morbidade, dados antropométricos e desempenho escolar; b) mapeamento
do genoma humano; c) polimorfismos e monomorfismos de interesse antropológico
e clínico, relacionados com. a determinação de características
de natureza multifatorial (altura, índice de massa corporal, obesidade,
doenças cárdio vasculares, psoríase, susceptibilidade
a agrotóxicos) e monofatorial (displasias ectodérmicas).
A produção científica se constitui em 180 publicações,
que compreendem 58 trabalhos completos (incluindo 14 de revisão
ou de divulgação científica) e 122 resumos. Os 44
trabalhos completos, com dados obtidos em projetos de pesquisa, têm
sido publicados em sua maioria (33) no exterior (Estados Unidos, Dinamarca,
Inglaterra, Alemanha e Itália).
Orientação ou co-orientação de 20 pós-graduandos
(17 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado); atualmente
orienta mais dois doutorandos e um mestrando. Orientação
de 16 projetos de Iniciação Científica.
Participação em cerca de 60 reuniões científicas
no Brasil e 20 no exterior (Inglaterra, França, Estados Unidos,
Uruguai, Israel e Peru).
Proferiu cerca de 100 palestras e seminários, no Brasil e na Inglaterra.
Bolsista do CNPq desde 1967. Pesquisadora do CNPq de 1973 a 2000, tendo
o nível IA desde 1984.
Conselheira da SBPC (1981-1985; 1991-1995); Membro da Diretoria da SBG
(1984-1986); Membro da Diretoria da SBPC (1987-1989) e Membro do Comitê
Assessor de Genética do CNPq (1/89 a 12/90).
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A Evolução dos Seres Vivos
Eleidi A. Chautard Freire-Maia
O filósofo
da ciência, Thomas Kuhn, em seu livro "A estrutura das revoluções
científicas", propõe duas situações diferentes
através das quais a ciência progride: revolução
científica e evolução. A revolução
científica é determinada pelo aparecimento de um novo paradigma.
É através de um paradigma científico que o pesquisador
interpreta os dados já observados, bem como aqueles que ainda serão
verificados. Um novo paradigma propicia novos caminhos para a interpretação
dos fatos, permite novas análises e soluções de problemas,
bem como determina o tipo de hipóteses a serem formuladas. Dois
paradigmas principais e opostos foram propostos para que o ser humano
entendesse a história natural das espécies de seres vivos,
através dos tempos. O mais antigo deles foi o fixismo, que admitia
a imutabilidade das espécies e vigorou até o século
XIX. Foi em 1800 que se iniciou a revolução científica
sobre esse assunto, com o surgimento de um novo paradigma, isto é,
o evolucionismo. Foi nesta época que a primeira teoria da evolução
foi formulada, por Jean Baptiste Lamarck. Meio século depois, em
1858, Charles Darwin e Alfred R. Wallace apresentaram seus trabalhos independentes
a respeito da teoria da seleção natural. Era uma nova revolução
que se fundamentou, mais profundamente, com a publicação
do livro "Origem das espécies", de Darwin, em 1859.
A outra forma da ciência progredir, a evolução, é
a situação da ciência considerada normal e que se
situa entre duas revoluções. Às vezes, dentro da
ciência normal aparecem crises, que podem vir a enriquecer o paradigma
da época ou dar origem à uma nova revolução
científica. No que se refere ao estudo da evolução
dos seres vivos, estamos atualmente vivendo a ciência normal. A
teoria da evolução adotada atualmente é denominada
de teoria sintética da evolução e foi elaborada,
em seus princípios gerais, entre 1935 e 1950. Trata-se de uma teoria
néo-darwinista. Ela admite algumas das proposições
de Darwin como, por exemplo, o fator evolutivo seleção natural,
exclui algumas hipóteses formuladas por Darwin, como as hipóteses
de herança por mistura e herança dos caracteres adquiridos
e incorpora novos conhecimentos científicos, como as leis da herança
biológica formuladas por Mendel em 1866 e redescobertas em 1900
(revolução científica no que se refere à explicação
da herança biológica), o DNA como material hereditário
da grande maioria dos seres vivos, enfim uma série de conhecimentos
fornecidos pela Geologia e, principalmente, pelos vários campos
da Biologia.
A teoria da evolução biológica admite que os seres
vivos atuais derivaram, por modificações sucessivas, de
seres ancestrais e, assim, repetidamente, até o início da
vida, isto é, até o aparecimento do primeiro ser vivo.
Se fôssemos representar, em forma de desenho esquemático,
o modo como se tem processado a evolução, teríamos
uma representação do tipo de uma árvore, como a mostrada
na figura 1(B). Há uma raiz na origem (primeira espécie
de ser vivo) e o caule vai se ramificando, à medida em que vão
aparecendo espécies novas, com alguns ramos interrompidos, simbolizando
as espécies que se extinguiram e, assim, sucessivamente, até
chegarmos às espécies atuais. De acordo com a teoria da
evolução, todos os seres vivos se relacionam uns com os
outros, alguns com ancestrais comuns mais próximos, outros com
ancestrais comuns mais distantes. A representação evolucionista
na figura 1 (B) contrasta com a figura 1 (A), desenhada com base no que
se propunha antes da teoria da evolução. Esta representação
(A) é inspirada no oposto do evolucionismo, é inspirada
no fixismo, que admitia que todos os seres de épocas recentes eram
iguais aos seres criados no início da vida. Neste caso não
havia extinções de espécies, uma espécie não
tinha relação de origem comum com qualquer outra e as espécies
eram imutáveis. O fixismo era uma teoria científica até
parte do século XIX, tendo sido rejeitada por ser considerada incorreta
e foi substituída pelo evolucionismo, visão que é
atualmente adotada pela teoria sintética da evolução.

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A
- F I X I S M O
|
B
- E V O L U C I O N I S M O
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FIG. 1.
Representações esquemáticas dos dois paradigmas
opostos, utilizados pela pela ciência para explicar a história
natural das espécies de seres vivos através dos tempos.
A teoria
sintética da evolução não diz apenas que a
evolução ocorreu, mas indica quais os fatores necessários
para que ela ocorra. A seguir trataremos desses fatores, chamados de fatores
evolutivos.
Quando examinamos qualquer espécie de ser vivo, observamos que
dentro de cada espécie os indivíduos diferem quando comparados
entre si. Em qualquer grupo de pessoas se observam diferenças quanto
à estatura; à forma da cabeça, dos braços,
das mãos; à cor da pele, dos olhos, dos cabelos etc. É
por isto que dizemos que todas as espécies mostram variação.
No grupo das araras, temos evidente variação na coloração
das penas, entre outras características variáveis. Entre
alguns moluscos observamos variação nos padrões de
coloração das conchas, por exemplo. A maior parte da variação
que observamos entre os seres da mesma espécie é de origem
genética, isto é, foi herdada biologicamente. Por que as
estruturas, as cores, a estatura, enfim, várias características
variam entre um indivíduo e outro da mesma espécie? Numa
análise mais aprofundada, vemos que essas diferenças são
devidas à variação num grupo de substâncias
muito importantes que entram na formação dos seres vivos
e que são chamadas de proteínas. As proteínas formam
as mais diversas estruturas dos seres vivos e determinam seu metabolismo.
Um tipo especial de proteínas, as enzimas, fazem com que os diferentes
tipos de reações bioquímicas ocorram em todos os
seres vivos, isto é, em última análise determinam
a síntese e degradação das substâncias químicas
que compõem um ser vivo e que são responsáveis pelos
processos vitais. Todo ser vivo possui um número muito grande de
tipos de proteínas e enzimas próprias, cada tipo tendo uma
função definida. Na espécie humana temos milhares
de proteínas e enzimas diferentes. Se considerarmos dez seres humanos,
por exemplo, e examinarmos algumas proteínas e enzimas presentes
em seu sangue, veremos que entre essas pessoas poderá aparecer
variação entre proteínas e entre enzimas consideradas
iguais quanto à sua classificação bioquímica.
Isto é, poderão aparecer tipos diferentes de hemoglobina
A, de transferrina, de haptoglobina, de butirilcolinesterase, de fosfatase
ácida, de fosfoglucomutase 1 etc. Por que a transferrina de um
indivíduo poderá diferir daquela de outro indivíduo?
A resposta é que os componentes dessas duas transferrinas não
são totalmente iguais. Toda proteína ou enzima é
formada por uma ou mais cadeias de substâncias chamadas de amino-ácidos.
A diferença em apenas um amino-ácido será suficiente
para produzir variação em qualquer tipo de proteína.
Cada ser vivo possui suas proteínas e enzimas próprias porque
ele as produz a partir de duas fontes que se complementam: sua herança
biológica e o ambiente que o cerca. Esse ambiente é representado
principalmente pelas substâncias, elementos químicos e energia
que recebe através da alimentação, do ar, da água
(organismos aquáticos) e do sol. Sua herança biológica
é determinada por um ácido, o ácido desoxirribonucleico
(DNA), próprio da grande maioria dos organismos vivos, ou o ácido
ribonucleico (RNA), que é o material hereditário de alguns
vírus. O DNA é formado de duas fitas complementares, tendo
cada uma delas uma lateral formada por açúcar e fosfato
e uma parte interna formada por 4 bases nitrogenadas: adenina, guanina,
citosina e timina. Cada gene é formado por uma seqüência
dessas substâncias, sendo que o número de pares de bases
varia de um gene a outro. O código para determinar a formação
de um amino-ácido é dado por uma seqüência de
três bases, denominada de triplete. Assim, quando observamos que
dois indivíduos apresentam transferrinas diferentes, já
inferimos que elas deverão diferir por, pelo menos, um amino-ácido
e que, conseqüentemente, deverá haver uma base diferente quando
se comparam moléculas de DNA dessas duas pessoas, no que se refere
ao gene da transferrina.
A existência dessa variação protéica permite
que haja evolução. O fator evolutivo capaz de criar essa
variação genética é a mutação.
A mutação é qualquer alteração no material
hereditário, desde simples mudança em uma base do DNA (mutação
de ponto) até alterações maiores que incluem partes
de cromossomas ou mesmo cromossomas inteiros ( aberrações
cromossômicas). Costuma-se dizer que a mutação cria
a matéria prima para a evolução. Se o fenômeno
da mutação não existisse, não teria sido possível
a evolução, pois não haveria mudança no material
genético, através das gerações.
O DNA é uma substância química que apresenta o fenômeno
da duplicação. Antes que uma célula entre no processo
de divisão celular, que dará origem a duas células,
o DNA se duplica, de modo que cada célula leva sua herança
biológica total (mitose, divisão que ocorre nas células
somáticas) ou metade dela (meiose, divisão típica
da formação de gametas). Nesse processo de duplicação
é que ocorre a mutação. Em taxas muito baixas, em
geral de 1 caso em 100.000 gametas humanos, um determinado gene poderá
apresentar o fenômeno da mutação. A mutação
pode ser considerada como um erro que ocorre durante o processo de duplicação
e que não foi corrigido bioquimicamente. A mutação
de ponto se constitui na troca de uma base por outra. É um erro
que ocorre ao acaso. Quando se diz que ocorre ao acaso, não se
pretende dizer que não tenha tido uma causa. Neste contexto, significa
que sua ocorrência se deu de forma espontânea, ao acaso, e
não em resposta a uma necessidade de melhor adaptar o organismo
ao seu meio ambiente. Como na espécie humana estima-se que haja
cerca de 100.000 genes, espera-se encontrar cerca de uma mutação
nova por gameta recém-formado.
Quando se deseja resumir a ação dos fatores evolutivos,
costuma-se dizer que a evolução é um fenômeno
de duas faces: produção de variação pela mutação
e escolha de variantes pela seleção natural. A seleção
natural é um fator que se expressa pela reprodução
diferencial dos diferentes tipos, isto é, dos diferentes fenótipos.
Assim, frente à seleção natural, parte da variação
poderá ser adaptativa, isto é, favorecida ou desfavorecida
e parte ser neutra, isto é, não ser afetada pela seleção
natural. Em cada espécie - com exceção da espécie
humana, que faz planejamento familiar - os indivíduos, cujas características
hereditárias interagirem melhor com o meio ambiente, deixarão
maior número de descendentes que chegarão à idade
de reprodução. Assim, espera-se que as variações
gênicas que determinarem melhor adaptação estejam
representadas, preferencialmente, nas gerações seguintes.
Imaginemos, vivendo num ambiente claro, uma população de
roedores, os quais mostram variação na cor da pelagem (clara
e escura) e consideremos uma espécie de pássaro como predadora
desses roedores. Os roedores de coloração escura são
os que se destacam mais no ambiente, sendo vistos preferencialmente pelos
pássaros predadores e mais facilmente apanhados. Se esse processo
continuar por um certo numero de gerações, espera-se que
a variação genética determinante da pelagem escura
venha a desaparecer dessa população. Costuma-se dizer que
a seleção natural, ao favorecer os indivíduos que
melhor interagem com o meio ambiente, molda cada espécie, de modo
a aumentar sua adaptação ao nicho ecológico. No exemplo
que demos, a seleção natural eliminou um dos fenótipos,
acabando com a variação no gene considerado. Em alguns sistemas
de proteínas e enzimas, uma única mudança de um amino-ácido
poderá ser fatal para a sua função, interferindo
no processo vital. Nesses sistemas, a variação é
raríssima e mantida apenas pelo fenômeno da mutação.
É o caso de doenças e malformações hereditárias
graves, que se manifestam antes e durante o período reprodutivo
do indivíduo. Em outros sistemas genéticos, a seleção
natural poderá favorecer ora um fenótipo, ora outro (seleção
dependente de freqüência, seleção dependente
de densidade). Poderá também favorecer o indivíduo
que porte dois variantes para o mesmo gene, isto é, o fenótipo
heterozigoto (seleção a favor do heterozigoto). Nesses três
últimos casos salientados, a seleção natural não
acaba com a variação genética; pelo contrário,
é o fenômeno da seleção natural que a mantém.
Tanto a mutação quanto a seleção natural são
fatores evolutivos pois são capazes de alterar as freqüências
de alelos, isto é, de forma variantes do mesmo gene. Esses dois
fatores evolutivos são considerados como determinísticos
ou sistemáticos, uma vez que a direção, a intensidade
e a variância na mudança das freqüências alélicas
podem ser calculadas. Um outro fator evolutivo, também considerado
como do tipo determinístico é o fluxo gênico. É
comum uma espécie apresentar populações que diferem
numa série de características genéticas. Essas populações
são chamadas de raças ou sub-espécies e diferem entre
si nas freqüências de seus alelos. Essas populações
que se diferenciaram geneticamente enquanto permaneceram separadas por
uma alguma barreira geográfica, podem voltar, por migração,
a habitar a mesma localidade e começar a se intercruzar. Pelo intercruzamento
se estabelece um fluxo gênico de uma à outra população
da mesma espécie. As freqüências alélicas serão
diferentes após o fluxo gênico, que tem como principais propriedades
favorecer o aumento da variabilidade - por reunir variantes próprios
de populações diferentes - e diminuir, entre populações,
a diferenciação genética que houvesse acontecido
enquanto estas estivessem isoladas geograficamente.
Vimos anteriormente três fatores evolutivos do tipo determinístico
(mutação, seleção natural e fluxo gênico)
e a seguir apresentaremos a deriva genética, fator evolutivo do
tipo estocástico. Um fator estocástico é caracterizado
por não poder ser analisado quanto a sua direção
e intensidade, mas apenas quanto a sua variância. Quando ocorre
deriva genética, não sabemos se a freqüência
de um determinado alelo irá aumentar ou diminuir de uma geração
à outra, também não sabemos de quanto irá
aumentar ou diminuir. Apenas poderemos prever qual será a amplitude
da variação na freqüência de um determinado alelo.
Admitindo-se uma possibilidade de erro de cerca de 5%, poderemos prever
que o alelo A, presente numa população pequena de 30 pessoas,
com freqüência de 15% na geração atual, poderá
apresentar uma freqüência dentro do intervalo de 6% a 24%,
na próxima geração. A deriva genética nada
mais é do que o efeito do acaso em populações pequenas.
Sabemos que, nas espécies com reprodução cruzada,
os indivíduos de cada geração são produzidos
a partir de uma amostra dos gametas da geração anterior.
Quando a população é grande, essa amostra de gametas
que dará origem à próxima geração também
é grande, representa bem a variação genética
da população e é capaz de originar uma geração
filial que é uma boa réplica da geração parental.
Assim, se desconsiderarmos os fatores evolutivos, numa população
grande sem cruzamentos preferenciais, as freqüências alélicas
e genotípicas se mantém constantes ao longo das gerações.
Nada muda geneticamente. Entretanto, quando a população
é considerada pequena, os poucos gametas que darão origem
à geração filial dificilmente irão produzi-la
com as mesmas freqüências alélicas da geração
dos progenitores. Nestas populações pequenas as freqüências
alélicas irão mudar de uma geração à
outra, devido ao acaso, que produz a deriva genética. Enquanto
o fenômeno da seleção natural eleva a freqüência
dos alelos responsáveis por maior valor adaptativo, a deriva genética
altera a freqüência de qualquer alelo, independentemente do
seu valor adaptativo. Assim, pela ação da deriva genética
poderá aumentar a freqüência de alelos desvantajosos.
Por exemplo, na Ilha dos Lençóis (Maranhão) ocorre
freqüência relativamente alta do alelo determinante do albinismo
(falta de pigmentação da pele, dos cabelos, da íris
etc) pelo efeito da deriva genética. Em populações
grandes, a freqüência de pessoas com este distúrbio
genético é de cerca de uma pessoa em 20.000. Na Ilha dos
Lençóis, Newton Freire-Maia e colaboradores relatam a ocorrência
de um caso de albinismo em cada 17 pessoas. Este exemplo ilustra a ação
do acaso durante a ocupação da ilha por poucos fundadores,
sendo um tipo especial de deriva genética, conhecido pelo nome
de efeito do fundador.
A ação dos quatro fatores evolutivos expostos anteriormente
modifica geneticamente as populações. Podemos dizer que
a mutação cria variação nova, que o fluxo
gênico pode disseminá-la através das populações,
que a seleção natural e o fluxo gênico geram mudanças
direcionais na variação e que a deriva genética ocasiona
mudanças ao acaso na variação.
Consideremos uma espécie, constituída por duas populações
intercruzantes, entre as quais passa a existir uma barreira geográfica.
Esta barreira pode ser uma montanha, o mar ou um rio para seres terrestres,
uma faixa de terra para seres aquáticos, um deserto, uma faixa
de gelo etc. A barreira geográfica passa a impedir o intercruzamento
e com isto cessa o fluxo gênico entre essas populações.
Com o passar das gerações essas populações
vão começar a diferir quanto à variação
genética. As mutações novas que aparecerem em uma
das populações poderão ser diferentes daquelas que
aparecerem na outra, os ambientes diversos poderão gerar diferentes
tipos de seleção natural, a deriva genética poderá
atuar de forma diversa em uma e outra população. Geralmente
essa diferenciação produz, no seu início, apenas
raças diferentes. Duas raças no caso de nosso exemplo. Caso
desapareça a barreira geográfica e essas raças voltem
a se encontrar, ocorrerá o intercruzamento entre elas. O fluxo
gênico é restabelecido e quando for completo se desfará
a diferenciação em raças, formando-se uma única
população enriquecida pela variação proveniente
das duas raças. A evolução que causa diferenciação
até o aparecimento das raças geográficas é
denominada de microevolução. A microevolução
pode ser observada em experimentos de laboratório e a diferenciação
observada neste nível de evolução é reversível.
Imaginemos uma outra situação na qual, ao desaparecer a
barreira geográfica, já tenha havido diferenciação
suficiente entre essas populações, de modo a impedir o cruzamento
entre elas (mecanismos pré-copula) ou atuar após o intercruzamento,
inviabilizando a progênie híbrida (mecanismos pós-cópula).
Nesta situação a diferenciação genética
originou o isolamento reprodutivo entre essas populações,
de modo que já não pertencem à mesma espécie.
São duas espécies diferentes. Ocorreu o fenômeno de
especiação ou multiplicação de espécies.
Tínhamos uma espécie e agora temos duas. Que tipos de diferenciações
entre duas populações podem levá-las ao isolamento
biológico? No caso das diferenciações que impedem
o intercruzamento temos: adaptação a diferentes habitats,
maturação sexual em épocas diferentes, comportamento
de côrte diferente (caso de animais), diferenças anatômicas.
Entre os problemas que aparecem após a cópula temos: incompatibilidade
das células sexuais, híbridos inviáveis, híbridos
estéreis, descendência degenerada a partir dos híbridos.
Não estamos mais tratando de eventos microevolutivos, pois o aparecimento
de espécie nova já faz parte da macroevolução.
Uma espécie nova não reverte como uma raça, ela terá
sua história evolutiva independente. Este tipo de especiação
do qual tratamos e que se desenvolveu na dependência de uma barreira
geográfica, enquanto as populações estavam ocupando
áreas separadas, é denominado de especiação
alopátrica. Os pesquisadores da área de evolução
acham que este é o tipo de especiação mais freqüente.
Há outros tipos de especiação: parapátrica,
simpátrica, estasipátrica, por poliploidia etc. Também
admite-se que uma espécie pode se modificar através do tempo,
pelos mesmos fatores evolutivos já citados, constituindo o que
se chama de evolução filética. Neste caso não
há multiplicação de espécies, não há
especiação. Em cada época do registro geológico
há sempre uma só espécie, que numa época pode
receber um nome específico e em outra época ser conhecida
por outro nome específico, uma vez que os especialistas observam
diferenças morfológicas suficientes entre elas para considerá-las
como espécies diferentes. Tratam-se de crono-espécies.
Há muitas observações que são interpretadas
como evidências da evolução orgânica. São
encontradas nas várias disciplinas da Biologia. A seguir relacionaremos
algumas dessas observações.
1) Genéticas - A transmissão
da herança biológica em todos os organismos vivos é
feita pelo DNA ou pelo RNA, no caso de certos vírus. Com raríssimas
exceções, o código genético tem o mesmo significado
em todos os seres vivos. Estas observações são interpretadas
com base na teoria da evolução como evidências de
que todos os seres vivos tiveram uma origem comum. Além disso,
seres vivos com ancestral comum mais próximo possuem DNA mais semelhante
do que aqueles com ancestral comum mais distante.
2) Embriológicas - Seres de
espécies diferentes aparentadas, como por exemplo, os vertebrados,
vão apresentar várias semelhanças em fases embrionárias.
Quanto mais inicial a fase, maiores as semelhanças encontradas.
Em geral, quanto maior a semelhança nos adultos, maior a semelhança
na fase embrionária. O embrião humano apresenta cauda e
brânquias, que podem ser explicadas pelo fato da espécie
humana ter tido ancestrais com esses órgãos, respectivamente,
primata caudado e ancestral peixe.
3) Vestigiais - Certos órgãos
ou estruturas que se apresentam com desenvolvimento normal e função
conhecida em algumas espécies, poderão estar presentes em
outras espécies como simples vestígios, isto é, pouco
desenvolvidos e sem função aparente. No caso da espécie
humana, entre outros vestígios, são citados: os músculos
das orelhas, a membrana nictitante, os terceiros molares, os pelos corporais,
o apêndice vermiforme, os músculos segmentados do abdômen,
as vértebras caudais. Com base no paradigma evolutivo, podemos
interpretar que esses vestígios representam órgãos
ou estruturas presentes em ancestrais, nos quais seriam bem desenvolvidos
e com função relevante.
4) Anatômicas - A semelhança
anatômica entre órgãos e estruturas, quando se examinam
espécies diferentes, são explicadas, muitas vezes, pelo
fato dessas espécies terem tido ancestral comum. Quando este é
o caso, diz-se que esses órgãos são homólogos.
Os membros anteriores da nossa espécie, do cachorro, do porco,
do carneiro, e do cavalo, apesar das diferenças apresentadas, mostram
grande semelhança entre seus ossos homólogos (omoplata,
úmero, ulna, rádio etc). As diferenças entre órgãos
de espécies aparentadas são, muitas vezes, interpretadas
como devidas a diferentes adaptações, causadas por diferentes
pressões da seleção natural.
5) Paleontológicas - Os restos
ou vestígios de seres de espécies extintas podem ter ficado
registrados em rochas sedimentares. Esses restos ou vestígios são
chamados de fósseis. Os fósseis representam uma das evidências
mais fortes da evolução biológica.
6) Biogeográficas - Entre as
evidências biogeográficas vamos nos ater ao aparecimento
de espécies novas em ilhas oceânicas formadas a partir da
erupção dos vulcões. No início de sua formação
esses ambientes não apresentam vida. Após um tempo apreciável
de anos vai se verificar que nessas ilhas se encontram espécies
diferentes daquelas das outras ilhas e do continente próximo. São
documentos preciosos do processo evolutivo. A explicação
mais provável é que essas espécies novas surgiram
através da diferenciação genética in loco
de espécies fundadoras vindas das regiões mais próximas.
Para finalizar gostaria de voltar à figura 1 (B), que mostra a
árvore da evolução dos seres vivos. Este diagrama
nos revela que todos os seres vivos estão unidos por linhas de
parentesco. É belo constatar que estamos todos unidos através
da história evolutiva. Grande parte da diferenciação
ocorreu provavelmente pelo processo de especiação, ou multiplicação
de espécies. No que se refere à nossa espécie (Homo
sapiens sapiens), observamos que as diferenciações genéticas
entre as suas populações estão se desfazendo pelo
fluxo gênico. Se este fenômeno continuar, a espécie
humana apresentará cada vez menos diferenciações
do ponto de vista biológico, sem perda de sua apreciável
variação genética. Seu processo de evolução
será do tipo de evolução filética, no qual
a espécie se diferencia através do tempo, sem se multiplicar
em espécies contemporâneas. Espera-se que também no
campo sócio- econômico as diferenças entre os grupos
humanos se desfaçam e que se atinja a justiça social.
Resumo
O
presente artigo comenta a respeito dos dois paradigmas (fixismo e evolucionismo)
propostos para entender a história natural dos seres vivos através
dos tempos. Explica a teoria sintética da evolução,
analisando os fatores evolutivos (mutação, seleção
natural, fluxo gênico e deriva genética), que promovem tanto
a microevolução (diferenciação até
raças ou sub-espécies) como a macroevolução
(diferenciação a partir do nível da espécie).
Analisa, ainda, algumas observações que podem ser consideradas
como evidências da evolução biológica.
Abstract
The
present paper deals with the two paradigms (fixism and evolutionism) proposed
for the understanding of the natural history of living organisms through
the times. It explains the synthetic theory of evolution and analyses
the evolutionary factors (mutation, natural selection, gene flow and random
genetic drift) which promotes both microevolution (differentiation up
to races or sub-species) and macroevolution (differentiation from species
onwards). It also analyses some data that may be considered as evidences
of biological evolution.
Bibliografia sugerida
Dobzhansky,
T. 1970. Genética do processo evolutivo. Tradução
de Celso Abbade Mourão. Editora da Universidade de São Paulo/
Editora Polígono, São Paulo, SP.
Freire-Maia, N. 1986. Criação e evolução.
Deus, o acaso e a necessidade. Editora Vozes Ltda., Petrópolis,
RJ.
Freire-Maia, N. 1988. Teoria da evolução: de Darwin à
teoria sintética. Editora Itatiaia Ltda./ Editora da Universidade
de São Paulo, São Paulo, SP.
Futuyma D. J. 1993. Biologia evolutiva ( 2a edição). Coordenador
da Tradução: Mário de Vivo. Coordenador da Revisão
Técnica: Fábio de Melo Sene. Sociedade Brasileira de Genética,
Ribeirão Preto, SP.
Palestra
proferida no I Ciclo de Palestras do Instituto Ciência e Fé
"Ser Humano, Universo e Vida" em 13 de outubro de1995 em Curitiba
- PR
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O
GENOMA
HUMANO
I
Significado
e Função
II
Diversidade e Semelhança
III
Aplicações do Conhecimento e Implicações
Éticas
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Ontem e Hoje
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