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Newton Freire-Maia
é geneticista, com doutorado em Ciências Naturais pela UNiversidade Federal do Rio de Janeiro.
É pesquisador do CNPq e professor emérito senior da Universidade Federal do Paraná.

Ex-cientista da Organização Mundial da Saúde, em Genenra, e ex-bolsista da Fundação Rockefeller, dos Estados UNidos, publicou perto de 300 trabalhos, principalmente no Exterior, além de 18 livros, sendo 16 no Brasil e dois nos Estados Unidos.

É membro titular da Academia Brasileira de Ciências, presidente de honra da SBPC e diretor do Instituto Ciência e Fé.

 

 



Genética e Ética

Newton Freire-Maia

A Genética é a única ciência que tem “ética” em seu próprio nome. Obviamente, isto é mera coincidência e não tem significação alguma. As ciências mais novas de que tenho conhecimento (a Astrobiologia, a Genômica e a Proteômica), nascidas nos últimos anos, não têm “ética” alguma, o mesmo acontecendo com as pseudo-ciências velhíssimas (Astrologia) ou menos velhas (Psicanálise).

Pelo menos no Brasil, a genética também era conhecida, em alguns círculos, como Heredologia – palavra que felizmente deixou de ser usada, deixando o lugar para o termo já de uso internacional. E, note-se bem, Heredologia não tem “ética” alguma...

O aborto provocado é uma forma de assassinato. Infelizmente, a insensibilidade ética prevalente hoje no mundo forjou “razões” capazes de justificar tal tipo de assassinato. Assim como a chamada “legítima defesa”, quando não usa meios desproporcionadamente mais eficientes, discriminaliza um ato que, em outras circunstâncias, seria criminoso, da mesma forma os últimos decênios, marcados por crescente globalização, desenvolveram uma série de justificativas – e conseqüente discriminalização – para se provocar o aborto. Uma delas refere-se ao fato de um feto mostrar-se portador de malformação séria, letal logo após o nascimento (a anencefalia, por exemplo) ou de forma grave de retardamento mental com possíveis repercussões físicas (a síndrome de Down, por exemplo). Esses fatos não servem como justificativas para a prática do aborto. No primeiro caso, o feto seria assassinado pelo motivo de que a criança morreria logo depois do nascimento. No segundo, a razão invocada para o assassinato é ainda mais sem razão: o afetado, apesar de suas limitações, pode levar vida longa e feliz, sendo motivo de alegria e felicidade para seus pais e irmãos.

Sabe o leitor o que significa “aquiropodia”? Essa palavra, com tripla origem grega, significa “sem mãos e pés”. Designa uma gravíssima malformação congênita múltipla: as crianças nascem sem mãos, sem antebraços e sem pés. Na realidade, é um pouco mais do que isso, mas essa definição simplificada designa razoavelmente bem a gravidade da situação. As pessoas afetadas, de ambos os sexos, andam ajoelhadas, com os cotos das pernas voltados para trás e, não tendo mãos, nada podem segurar com a facilidade com que os normais o fazem. Mas podem tomar conta de casa, de comércio, escrever e realizar operações aritméticas, vender objetos, receber e trocar dinheiro, retirar objetos dos bolsos, riscar fósforos, acender cigarros, capinar quintais, segurar livros, andar a cavalo, etc. E podem se casar, ter filhos e cuidar dos filhos!

Trata-se de uma malformação congênita hereditária, devida a um gene autossômico recessivo. Por isto, muitos dos afetados são filhos de uniões consangüíneas (em geral, casamentos entre primos). Quando o antigo Laboratório de Genética da Cadeira de Biologia Geral (do Professor Doutor Homero Braga) passou a se interessar pela Genética Humana, um dos nossos projetos de pesquisa visava às malformações dos membros por falta ou redução de elementos ósseos. Os nossos primeiros estudos focalizaram a aquiropodia e seus autores foram, além do autor deste artigo, o Prof. Dr. Antonio Quelce Salgado e o Dr. Roaldo Amundsen Koehler. Mais tarde, o assunto tornou-se o foco da tese de doutorado de meu irmão, Prof. Dr. Ademar Freire-Maia, que estudou exaustivamente várias famílias brasileiras (do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais, da Bahia e de Pernambuco) e, assim, realizou um esplêndido trabalho de investigação científica. Eu tive a oportunidade de conhecer apenas três aquirópodos (dois do Paraná e um de São Paulo). O de São Paulo, relativamente moço, encontrei numa rua de uma cidade de cujo nome me esqueci. Sentamo-nos em um banco de jardim e começamos uma longa conversa sobre ele próprio e sua família. Num dado momento, nem me lembro por que, tive uma idéia idiota – a de perguntar àquele pobre homem pobre, sem mãos e sem pés, se ele tinha alguma tristeza na vida... E ele, depois de pensar um pouco, deu-me uma resposta de que não me esqueço até agora, já passados alguns decênios. Aquele pobre homem pobre, sem mãos e sem pés, que se locomovia ajoelhado e que me parecia estar marcado por toda a sua vida, por uma desgraça arrasadora, respondeu-me:

– Tenho uma tristeza, sim! É que as professoras não me aceitaram na escola para eu aprender a ler e a escrever...

E ele continuou a explicar:

– Elas pensavam que, sem mãos, eu não poderia pegar um livro ou um lápis, mas eu posso, sim...

E, tomando uma caneta que eu trazia, com seus cotos de braços rabiscou qualquer coisa numa folha de papel. Mostrou que podia ter sido alfabetizado. E sua tristeza era que continuava analfabeto. Resposta simples que me tocou profundamente e de que não me esqueço até hoje e de que não me esquecerei até sempre. Imagine-se uma mãe com o laudo de um exame ecográfico (sonográfico) de seu útero:

– O seu filho é aquirópodo! O seu filho não tem mãos e nem pés!
Seria isto uma justificativa para o aborto? Que diria o pai da criança? E seus avós paternos e maternos? E o tios? E o primos? E a sociedade? O que pode parecer algo muito grave para uma pessoa que vê a desgraça, talvez não seja tão grave para quem sofre a desgraça.

A ciência não tem muitas coisas. Não tem pátria, não tem língua, não tem ética, mas o cientista tem pátria, usa uma língua e tem ética. Tudo isso é extra-científico. Extra-científica também é a música. Extra-científicos igualmente a literatura, o cinema, o teatro. A pintura e a escultura também. A religião também é extra-científica.

A realidade das coisas não científicas é tão importante (ou mais importante) do que a realidade das coisas científicas. O amor é extra-científico.

Publicado no Jornal de Ciência e Fé de novembro de 2001, ano 3, nº 36

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