|

Eleidi
Alice Chautard Freire-Maia
Bacharel e Licenciada em História Natural, pela Univ. Fed. do Paraná,
em 1965.
Doutora em Ciências, na área da Genética, pela Unive.
Fed. do Rio Grande do Sul, em 1974.
Professora Titular (por concurso) do Depto. de Genética da Univer.
Fed. do Paraná, onde lecionou para Cursos de Graduação
e de Pós-graduação. Ingressou como Auxiliar de Ensino
em 1967 e se aposentou como Titular em 1991. Desde a aposentadoria, tem
continuado suas atividades didáticas e de pesquisa, como Professora
Sênior.
Bolsista do Conselho Britânico, com estágio de 2 anos e 3
meses, na Univ. de Birmingham, Inglaterra, de setembro de 1970 a dezembro
de 1972.
Estágio de 1 mês, com bolsa do Conselho Britânico,
na Univ. de Indiana, Estados Unidos, em março de 1972.
Implantou, em 1974, um laboratório de pesquisa (Laboratório
de Polimorfismos e Ligação), no Depto. de Genética
da UFPR, que tem dirigido desde seu início e onde tem orientado
muitos estudantes.
Tem se dedicado principalmente a estudos sobre: a) efeitos genéticos
dos casamentos consangüíneos sobre a mortalidade precoce,
morbidade, dados antropométricos e desempenho escolar; b) mapeamento
do genoma humano; c) polimorfismos e monomorfismos de interesse antropológico
e clínico, relacionados com. a determinação de características
de natureza multifatorial (altura, índice de massa corporal, obesidade,
doenças cárdio vasculares, psoríase, susceptibilidade
a agrotóxicos) e monofatorial (displasias ectodérmicas).
A produção científica se constitui em 180 publicações,
que compreendem 58 trabalhos completos (incluindo 14 de revisão
ou de divulgação científica) e 122 resumos. Os 44
trabalhos completos, com dados obtidos em projetos de pesquisa, têm
sido publicados em sua maioria (33) no exterior (Estados Unidos, Dinamarca,
Inglaterra, Alemanha e Itália).
Orientação ou co-orientação de 20 pós-graduandos
(17 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado); atualmente
orienta mais dois doutorandos e um mestrando. Orientação
de 16 projetos de Iniciação Científica.
Participação em cerca de 60 reuniões científicas
no Brasil e 20 no exterior (Inglaterra, França, Estados Unidos,
Uruguai, Israel e Peru).
Proferiu cerca de 100 palestras e seminários, no Brasil e na Inglaterra.
Bolsista do CNPq desde 1967. Pesquisadora do CNPq de 1973 a 2000, tendo
o nível IA desde 1984.
Conselheira da SBPC (1981-1985; 1991-1995); Membro da Diretoria da SBG
(1984-1986); Membro da Diretoria da SBPC (1987-1989) e Membro do Comitê
Assessor de Genética do CNPq (1/89 a 12/90).
|

O Genoma Humano
Eleidi A. Chautard Freire-Maia
II
Diversidade e Semelhança
As variações
no DNA que determinam as variações nas proteínas
são responsáveis tanto pela diversidade normal como pela
diversidade patológica. A cada 1000 bases nitrogenadas do DNA,
observa-se, em média, uma diferença entre duas pessoas.
Um dos critérios de classificação dessa diversidade
é a freqüência com que ela aparece na população.
As variações podem se apresentar em freqüência
extremamente alta, apreciável ou muito baixa. Ao examinarmos um
determinado gene de 100 pessoas (200 exemplares do mesmo gene), dizemos
que a variação é monomórfica, quando aparece
em pelo menos 199 dos 200 genes examinados, em contraposição
às variações raras, chamadas de idiomórficas,
que aparecem, em média, no máximo em 1 de cada 200 genes
examinados. Um sítio do DNA com esses dois tipos de variação
se constitui num sítio muito homogêneo, isto é, quase
todas as pessoas são iguais quanto a ele, mostrando quase ausência
de diversidade na população. Por outro lado, existem os
sítios do DNA que são polimórficos, por mostrarem
variação entre cerca de 2 a 198 dos 200 exemplares do mesmo
gene. Essas são as variações que promovem a diversidade,
pois em cada sítio de DNA é possível se encontrarem,
com freqüência apreciável, pelo menos duas variações
diferentes. A maior parte das variações polimórficas
não determina distúrbios. As variações monomórficas
são sempre variações normais, enquanto que as variações
raras, as idiomórficas, em sua grande maioria produzem disfunções.
A maior parte das características genéticas humanas não
é determinada apenas por um gene, mas por vários genes,
e sua manifestação é também bastante dependente
de fatores ambientais. Características desse tipo são: altura,
peso, pressão sangüínea, nível de colesterol
etc. Nesses casos, a diversidade observada entre as pessoas é resultante
de diferenças existentes em vários genes, responsáveis
por essas características, e também da variedade de ambientes
aos quais as pessoas estão expostas (alimentação
e exercícios físicos, por exemplo). É importante
entender esse conceito: a maior parte das características hereditárias
humanas não depende de um absoluto determinismo genético;
os fatores ambientais também operam na sua gênese.
Focalizando a diversidade normal, encontrada dentro de qualquer população
humana, podemos observar diferenças quanto à estatura; à
forma da cabeça, dos braços, das mãos; à cor
da pele, dos olhos, dos cabelos etc. É por isto que dizemos que
todas as espécies mostram variação, ou seja, diversidade.
A maior parte da variação que observamos entre os seres
da mesma espécie é de origem genética, isto é,
foi herdada biologicamente, dependeu do DNA. Assim, quando dois indivíduos
são diferentes quanto a uma característica determinada por
um gene, inferimos que eles devem apresentar diferença quanto à
proteína responsável por aquela característica e
que essa proteína deve diferir entre eles, no mínimo, por
um aminoácido. Conseqüentemente, deverá haver, pelo
menos, uma base nitrogenada diferente quando se comparam moléculas
de DNA dessas duas pessoas, no que se refere ao gene que determina essa
proteína. A diferença em apenas um aminoácido será
suficiente para produzir variação em qualquer tipo de proteína.
Além da diversidade encontrada dentro de cada população
humana, observamos diferenças entre populações que
estiveram isoladas por um longo período de tempo, por razões
geográficas ou culturais. A teoria mais aceita hoje admite que
a espécie humana moderna (Homo sapiens sapiens) surgiu há
cerca de 200 mil anos no continente africano. Na história da humanidade,
o fenômeno da migração tem sido muito freqüente,
de modo que a população original se dividiu, formando grupos
que passaram a habitar regiões diferentes. Muitos dos grupos humanos
estiveram isolados dos demais, durante grande parte de sua história
evolutiva. Europeus, africanos e asiáticos, por exemplo, estiveram
durante um vasto número de gerações separados sob
o ponto de vista geográfico, o que impossibilitou a prática
do casamento entre eles. Finalmente, quando esses povos vieram a se reencontrar,
depararam com diferenças quanto à cor da pele, à
cor e ao tipo de cabelo, ao formato de traços fisionômicos
etc. A separação geográfica permitiu que os fatores
evolutivos (mutação, seleção natural, deriva
genética e fluxo gênico) agissem de forma diferente nessas
populações, de modo que, através das gerações,
elas foram diferindo na freqüência das suas variações
de DNA. Essas populações continuam possuindo os mesmos genes,
mas diferem em apenas algumas das características hereditárias,
quanto ao tipo de suas variações mais freqüentes.
Adota-se a denominação de raças para os grupos que
diferem quanto à freqüência de variações
genéticas. As classificações de raças são
arbitrárias, pois dependem do critério do classificador.
Com base no número de características levadas em conta pelo
classificador, depende o número de raças a serem consideradas.
Além disso, conceitos falsos de raça têm resultado
em ações com sérias implicações morais.
Em nossa história são inúmeros os exemplos de práticas
criminosas, em geral executadas por motivos políticos e econômicos,
mas que tentaram ser justificadas em falsos conceitos de raça.
O conceito de raça é, como se vê, muito simples (populações
que diferem quanto à freqüência de variações
genéticas), mas o uso da palavra raça depende essencialmente
de sua conveniência. Desta forma, mesmo que diferentes bairros de
uma grande cidade estejam ocupados por populações que difiram
quanto à freqüência de variações genéticas
(por exemplo, relativas aos grupos sangüíneos), não
é conveniente que essas populações sejam chamadas
de raças.
Note-se ainda que uma raça é sempre definida em relação
a outra (não há espécies monorraciais) e que toda
raça comporta variações genéticas internas,
não existindo pois raças puras. Todas as raças, humanas
ou não, são saudavelmente impuras. O mito nazista de raça
pura é, portanto, anti-científico.
Várias pesquisas têm estudado as diferenças genéticas
encontradas dentro e entre populações. Num artigo de divulgação
sobre esse assunto, publicado na revista Science (15 de outubro de 1999),
os autores (K. Owens e M. King) comentam que mais de 80% da diversidade
total são encontrados entre os indivíduos do mesmo continente.
As diferenças genéticas observadas entre populações
de continentes diferentes representam apenas cerca de 10% da diversidade
já verificada na humanidade. Pode-se concluir que a maior parte
da variação genética presente nos povos atuais já
existia na população africana que nos deu origem.
Sabemos que a humanidade é uma só. Do ponto de vista biológico,
é a semelhança a característica básica predominante
que se observa entre os seres humanos. A diversidade verificada entre
os grupos humanos leva à existência de maior riqueza de tipos.
Essa diversidade não deve ser vista como algo que separa as pessoas
e sim como uma característica de enriquecimento de nossa espécie.
No conjunto de nossos genes, somos mais semelhantes do que diferentes.
Os seres humanos são mais de 99% iguais entre si, em termos genéticos.
A pequena fração de diversidade deve ser apreciada como
uma benção e não como uma barreira de separação.
A teoria da evolução considera que a origem dos seres vivos
atuais foi monofilética, isto é, todos tiveram uma única
origem, ocorrida há cerca de 3,7 bilhões de anos. Assim,
podemos nos considerar como primos (mais ou menos distantes) de seres
de outras espécies, com os quais aparentemente podemos não
encontrar muitas semelhanças, como por exemplo, com as bactérias,
as plantas, os insetos, os peixes, os macacos etc. Entretanto, um exame
mais aprofundado, como o da análise do DNA, mostra-nos que possuímos
genes semelhantes aos de outras espécies, mesmo daquelas distantes
da nossa, sob o ponto de vista evolutivo. É por isso que o "Projeto
do Genoma Humano" também tem por objetivo seqüenciar
o genoma de outras espécies, com a finalidade de obter conhecimentos
que tragam melhor entendimento a respeito de nossos genes, das proteínas
por eles determinadas e de suas funções.
Observações feitas a respeito de São Francisco de
Assis (1181/82 - 1226) aplicam-se bem nesse contexto da grande semelhança
genética entre os seres humanos e da nossa ligação
com as demais espécies. Essas observações mostram
o profundo sentimento de fraternidade universal de São Francisco:
"Andava com reverência sobre as pedras em atenção
Àquele que a si mesmo chamou de pedra; recolhia dos caminhos as
lesmas para não serem pisadas pelos homens; dava no inverno mel
e vinho às abelhas para que não morressem de frio e de escassez"
(Tomás de Celano,1229). "Ao considerar a origem comum de todas
as coisas, dava a todas as criaturas, por mais desprezíveis que
fossem, o doce nome de irmãs, pois sabia muito bem que todas tinham
com ele a mesma origem" (S. Boaventura). (Cf. o livro "São
Francisco de Assis: Ternura e Vigor", Leonardo Boff, Vozes, Petrópolis,
1981).
Publicado
no Jornal de Ciência e Fé de dezembrode 2000
|
Leia
também,
da mesma autora:
A
Evolução
dos Seres Vivos
O
GENOMA
HUMANO
I
Significado
e Função
III
Aplicações do Conhecimento e Implicações
Éticas
IV
Ontem e Hoje
|