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![]() Dr. Paulo Nogueira-Neto livre docente, professor titular de Ecologia (USP), especializado em comportamento dos animais, mudanças climáticas e ecossistemas; fundador do Departamento de Ecologia Geral no Instituto de Biociências da USP, presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente SP, diretor da SEMA (Sec. Especial do Meio Ambiente Min. do Interior), foi Secretário do maio Ambiente em Brasília, vice-presidente do Programa "O Homem e a Biosfera (MAB)" UNESCO. Recebeu o prêmio Paulo Getty, principal láurea mundial no campo da conservação da natureza, o prêmio Duke of Edinburg da WWF International, e a ordem do mérito científico no grau de Grã-Cruz. Dr. Nogueira-Neto é membro da CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), assessora o presidente da WWF Brasil, presidente da ADEMA-SP. Dr. Nogueira-Neto publicou inúmeros artigos em revistas e livros especializados na área do meio ambiente. |
Ciência
e Religião, novamente O meu amigo professor José Goldemberg, a quem o Brasil deve como ex-reitor da USP e ministro, retorna às vezes um assunto que perece fasciná-lo: Ciência e Religião. Também me sinto atraído por essa interface, mas de um ângulo diferente. A Ciência procura desvendar os mistérios deste mundo, nos seus aspectos materiais. A Religião vai muito além: trata dos mistérios que tornaram possível a própria existência do Universo. A Ciência e a Religião têm em comum o fato de que ambas procuram a verdade. Portanto, são basicamente compatíveis entre si. Ocorre que a Ciência opera apenas no mundo material e assim não trata de verdades que a transcendem. Um famoso filósofo da Ciência, Popper, disse que a Ciência procura a verdade, mas não chega a possuí-la. O professor Milton Freire-Maia, que no Brasil representa muito bem as idéias de Popper, disse que a Ciência somente pode alcançar verossimilhanças mesmo assim as que forem testáveis. Isso quer dizer que na Ciência devemos ser humildes nas nossas conclusões, e nos limitar ao que é materialmente experimentável. O que a Ciência pode e deve fazer, na sua interface com a Religião, é indicar, por exemplo, fatos do big-bang, que constituiu o começo do Universo. Mais tarde, neste planeta., também foi fundamental a evolução dos seres vivos. Assim, a Ciência nos ajuda a entender os grandes instrumentos e processos usados por Deus como criador nosso e da natureza. Aplaudo a ação esclarecedora do Instituto Ciência e Fé, de Curitiba, dirigido pelo professor Aroldo Murá Gomes Haygert. Procuram lá estudar e divulgar essas questões. Por outro lado, a Religião não desvenda para nós, em nossa vida terrestre, tudo o que está em Deus. A Teologia é basicamente o estudo de Deus e do que lhe é próprio. Ela nos ensina também a ser humildes, pois o poder ilimitado de Deus não cabe nas palavras e nos escritos dos teólogos, a não ser de modo incompleto, como em tudo que é humano. Nós, seres humanos, antes de mais nada devemos reconhecer as limitações da nossa razão. Mesmo porque quanto mais sabemos, melhor verificamos a imensidão de nossa ignorância, ou seja, do que falta ainda conhecer. Segundo o professor José Goldemberg, nos Estados Unidos, 40% dos cientistas admitem a existência de Deus e 40% da população também o faz. Aqui, a meu ver, a porcentagem dos que acreditam em Deus é muito maior. Contudo, ele acrescentou que, numa determinada academia científica daquele país, a porcentagem dos que acreditam em Deus é muito menor. Pode haver várias explicações para esse fato. Na minha opinião, os que são escolhidos e aceitos nessa academia são presumivelmente pessoas que possuem entre si um lastro de idéias ou um histórico cultural algo semelhantes. Quero citar aqui um fato que me parece ilustrativo, embora limitado, sobre pessoas de uma das associações de cientistas do referido país. Quando ainda dava os meus primeiros passos no campo da Ciência (Zoologia, Ecologia) visitei uma das mais antigas universidades dos Estados Unidos. Fui convidado por outro jovem zoólogo, hoje famoso, para um jantar numa das associações dessa universidade. O ambiente era dos mais sofisticados e tradicionais, iluminado à luz de velas. Os participantes eram jovens professores ou doutorandos. Em certo momento, a conversa girou sobre Religião e questões relacionadas. Alguns dos presentes, como também fazia Voltaire, ridicularizaram a Religião. Isso me deixou indignado. Nessas circunstâncias, ficar calado seria para mim uma covardia. Comecei então a discutir com eles. Com toda a seriedade, enquanto meus opositores formulavam frases de efeito e pareciam se divertir com elas. O ambiente era anti-religioso. Evidentemente, não se deve generalizar um episódio como esse, mas algumas dessas pessoas desrespeitosas por causa de sua formação cultural mais tarde poderiam talvez estar na estatística referente à academia referida pelo professor Goldemberg. Sou cristão, católico, praticante. Quero, porém, salientar que a situação aqui referida, de certo alheamento em relação à crença em Deus, é em parte conseqüência do fato de que a Igreja não ensina ainda, nos catecismos escolares, que a evolução foi o instrumento usado por Deus para criar o nosso mundo vivo. Inclusive para chegar ao homem. Não somente os profetas ensinam coisas sobre Deus. Também os cientistas fazem ensinamentos proféticos, pois a verdade é uma só. O ensino religioso deveria mostrar o capítulo do Gênese (da Bíblia) como uma maravilhosa alegoria ou parábola, de grande valor moral. Jesus pregava freqüentemente por parábolas. As novas gerações muitas vezes não sabem sequer o que é uma parábola. Desconhecem o fato de que hoje inúmeros cristãos e muitos adeptos de outras religiões reconhecem e aceitam a importância da evolução biológica. Essas novas gerações, ao que parece, não se dão conta que o big-bang, a formidável "explosão" primordial que criou o Universo, somente pode ser explicado como um ato de criação, que exige um criador de características especiais, muito além dos limites do que a Ciência pode medir, pesar, testar, analisar e até observar. No dia em que essas premissas básicas que mostram a harmonia essencial que deve existir entre Ciência e Religião forem mais divulgadas entre os jovens, as estatísticas citadas pelo meu amigo professor José Goldemberg terão resultados diferentes. Lembro aqui, nesse contexto, as palavras do profeta Isaias (6,1-2a, 10-11): "Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações".
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