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Dr. Paulo Nogueira-Neto
– livre docente, professor titular de Ecologia (USP), especializado em comportamento dos animais, mudanças climáticas e ecossistemas; fundador do Departamento de Ecologia Geral no Instituto de Biociências da USP, presidente da Associação de Defesa do Meio Ambiente – SP, diretor da SEMA (Sec. Especial do Meio Ambiente – Min. do Interior), foi Secretário do maio Ambiente em Brasília, vice-presidente do Programa "O Homem e a Biosfera (MAB)" – UNESCO. Recebeu o prêmio Paulo Getty, principal láurea mundial no campo da conservação da natureza, o prêmio Duke of Edinburg da WWF International, e a ordem do mérito científico no grau de Grã-Cruz. Dr. Nogueira-Neto é membro da CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), assessora o presidente da WWF – Brasil, presidente da ADEMA-SP. Dr. Nogueira-Neto publicou inúmeros artigos em revistas e livros especializados na área do meio ambiente.

Visão Social da Ecologia

Paulo Nogueira-Neto


"Em situação de miséria não há equilíbrio ecológico possível", sentenciou o professor Paulo Nogueira-Neto na conferência "O Meio Ambiente na Ótica da Ciência e da Religião", pelo Instituto Ciência e Fé, no dia 28 de setembro de 1999, em Curitiba. Aplicando a multiplicidade de sua atuação, Nogueira-Neto enquadrou, sob uma mesma ótica (a ótica do amor ao próximo), o controle da natalidade, a erradicação da miséria, a sustentação ambiental e a fatalidade humana da Igreja, assim como a missão profética dos cientistas. A seguir, a íntegra da conferência, sem dúvida um documento que sintetiza grande parte dos desafios do próximo milênio.

Ciência, fé, meio ambiente e novos rumos

Muita coisa tem sido escrita sobre a relação entre a Fé e a Razão. Ainda recentemente o Papa João Paulo II escreveu uma excelente encíclica sobre o assunto. Pessoas de pouca fé, e outras de muita fé, e, por outro lado, gente de pouca razão e pessoas de muita razão são encontradas por todos nós diariamente, nas ruas, nas nossas casas e nos locais de nosso trabalho.

Cada um de nós tem em si "proporções" diferentes, digamos assim, de fé e de razão, nos alicerces de sua crença. Além disso no decorrer da vida essas "proporções" podem mudar. A firme crença do meu colega e amigo, o educador Renato Di Dio, está baseada, segundo ele diz, muito mais na fé do que na razão. Acredito que ele chegará assim à presença de Deus. Por outro lado, no que diz respeito à minha crença, ela está "lastreada" numa fé fortemente apoiada pela razão. Também espero chegar à presença de Deus.

Vou expor meu pensamento pessoal, que talvez coincida com as reflexões de muitos que também trabalham no mundo das Ciências. A origem da vida material e intelectual, a origem de tudo, e o nosso destino final, são objeto de reflexões que certamente tiveram início já com os primeiros seres humanos, como aliás está claramente exposto no Gênesis. Podemos chegar à compreensão do Big Bang, a super explosão primordial, que seria o grande ato que criou o Universo, com os seus bilhões de galáxias, como sabemos hoje. Conhecimento, diga-se de passagem, ainda muito incompleto. Mais para trás, ou seja, antes do Big Bang, há um imenso mistério.

Diante desse mistério, os ateus simplesmente negam a existência de um criador. O número de ateus cresceu enormemente com a expansão pelo mundo do pensamento marxista. Depois, com a implosão da URSS, os ateus cederam lugar, em grande parte, aos agnósticos, ou seja, basicamente aos que se comprazem em ficar em cima do muro; não negam nem afirmam a presença de Deus criador.

Finalmente há os que acreditam com firmeza em Deus criador, entre os quais estou. Em breves palavras, vou expor o que me leva a Deus. Como cientista, procuro as razões, as causas, as explicações do que ocorre e do que vejo em minhas pesquisas. A minha formação mental leva-me sempre a procurar a investigar as causas. No mundo em que vivemos, tudo tem uma causa. Assim, atrás do Big Bang inicial há certamente uma causa, ou seja, Deus criador. Pouco podemos sabre sobre Ele. Algumas de suas características necessárias ultrapassam completamente a nossa capacidade de raciocínio. Ele é infinito, sem começo nem fim. É ilimitado e não foi criado, Em resumo, nosso raciocínio lógico nos faz chegar à conclusão de que Deus certamente tem características que estão muito acima de nossa capacidade de entendimento. Como então poderemos saber que estamos no caminho que nos leva a esse Deus que está muito além da lógica humana?

Não teria sentido que esse Deus extraordinário, nosso criador, nos abandonasse ao relento, ou seja, na incerteza. Somos os únicos seres deste planeta com uma capacidade real de formular idéias abstratas complexas. Em outras palavras, somos os únicos seres do planeta capazes de compreender, ainda que muito incompletamente que esse Deus extraordinário, no verdadeiro sentido da palavra, realmente existe. De fato, Ele não nos abandonou à própria sorte. Comunico-se conosco, nos indicou o caminho da vida eterna, primeiro através das passagens e mensagens escritas na Bíblia, no Antigo Testamento. Depois, Deus pai nos enviou seu filho Jesus, que habitou entre nós e nos ensinou mais precisamente e mais amplamente o caminho que leva à vida eterna. Também, ao morrer por nós na cruz e ao ressuscitar, o que ocorreu contra tudo o que a razão humana poderia esperar, Jesus nos mostrou claramente que Deus tem mesmo desígnios e poderes extraordinários, muito além da nossa capacidade de compreender.

Como diz São Paulo, nossa fé seria vã, inútil, se a ressurreição não tivesse realmente ocorrido. Surgiu, pois, a questão crucial de saber se a ressurreição foi mesmo verdadeira. São Tomé foi o primeiro a ter alguma dúvida e a testar. Para mim, além deste "teste" bem-sucedido de São Tomé, o mais importante é o fato de que quase todos os apóstolos deram a vida pelo Senhor. Morreram martirizados. Ninguém dá sua vida por coisas que sabe serem falsas. Os apóstolos foram testemunhas da ressurreição. Viram Cristo ressuscitado. São Paulo falou com esses apóstolos, certamente indagou deles as minúcias, pois afirmou com certeza absoluta que Cristo ressuscitou e que, se não fosse assim, nossa fé seria inútil. Além disso, devemos lembrar que São Paulo se converteu quando Cristo lhe apareceu e indagou: - "Saulo, Saulo, por que me persegues?" São Paulo tornou-se apóstolo e também deu a vida testemunhando Cristo. Referi-me, aqui, a fatos concretos, coisas que verdadeiramente ocorreram. Não há comprovação maior do que vivências, observações e pregações que levaram os apóstolos à morte, dando testemunho do que viram.

É por tudo isso que digo que a razão é um apoio fundamental à minha crença. A razão é um imenso suporte à minha fé. A Ciência é o braço ou instrumento testável da razão. Como cientista, examino os fatos e baseado neles formulo raciocínios, alguns testáveis, outros não pois nem tudo é Ciência. A Filosofia e a Teologia também são muito importantes e nossa vida intelectual e religiosa.

Afirmei, aqui, agir como cientista. Isso parece um pouco pretensioso. Na realidade, o que fazemos é procurar a verdade que podemos alcançar, no s nossos campos de estudo e, por extensão também em nossa vida. Todos devemos agir como cientistas, buscando sempre a verdade. Meu irmão em Cristo, Newton Freire-Maia, no seu muito interessante livro "A Ciência por Dentro", escreveu longamente sobre as idéias de Karl Popper e outros filósofos da ciências. Concordou com Popper que na Ciência "somos buscadores da verdade, mas não somos seus possuidores" e que podemos apenas alcançar verossimilhanças. Sou mais otimista. A meu ver, a verdade plena está somente em Deus, mas penso que através da Ciência podemos chegar a uma razoável aproximação com o que há de verdade na Natureza e nas suas leis. Essa aproximação, que se faz freqüentemente por passos sucessivos, é mais do que uma crescente verossimilhança.

O que fizeram os profetas que lemos na Bíblia? Eles viram mais longe e alertaram o povo sobre a necessidade de atender ao que Deus nos pede, a fim de evitar o pecado e o castigo divino que a desobediência acarreta. O que fazem os cientistas? Muitas vezes alertam o povo sobre males que poderão vir, se certas medidas preventivas não forem tomadas. Agem nesse caso atendendo ao preceito básico do amor. Nesse sentido, os cientistas também são profetas e assim deveriam ser considerados.

Além da fé ser apoiada pela razão, ela tem também existência própria, cientificamente comprovada. Ela faz parte da nossa herança genética, da parte inata do nosso comportamento. Discuti amplamente essa questão no livro que publiquei sobre "O Comportamento Animal e as Raízes do Comportamento Humano". O antropólogo George P. Murdock encontrou em todas as sociedades humanas, entre outros tipos de comportamento, o misticismo e s crenças religiosas; a mitologia; os conceitos sobre a alma e certas preocupações religiosas (escatologia = destinação final); as concepções éticas. Tudo isso faz parte dos nossos comportamentos inatos. (Nogueira-Neto, 1984, pgs. 48-52). Foram portanto implantados pelo Criador do nosso DNA. Constituem características básicas humanas em todo o planeta, embora apareçam com roupagens culturais diferentes.

A principal profecia científica do nosso tempo, com imensas repercussões no campo do amor ao próximo, diz respeito à erradicação da miséria. Em 1983, quando era Secretário Especial do Meio Ambiente, no Governo Federal, a Assembléia Geral das Nações Unidas instituiu a Comissão para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, chefiada pela então Primeira-Ministra da Noruega Gro Brundtland, hoje Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde. Essa Comissão, que já encerrou os seus trabalhos, é mais conhecida como Comissão Brundtland. Tinha 23 membros e fui um deles, representando a América Latina com uma colega colombiana, Margarita Marino de Botero.

Comissão Brundtland

A Comissão Brundtland, entre outras questões ambientais graves, considerou também as repercussões da "Explosão Demográfica" no planeta. A uma taxa mundial de aumentou de 2% (hoje está um pouco menor), a população da Terra dobraria em 36 anos. Como porém a taxa de aumento tem decrescido, a ONU estimulou que população terrestre poderá chegar a 10,2 bilhões por volta do ano 2095 se ela se estabilizar ao nível de reposição por volta de 2035. Pode ser, porém, que a taxa de reposição somente seja atingida em 2065. Nesse caso, em 2100 a população global poderá ser de 14,2 bilhões. A taxa de reposição significa pouco mais de 2 filhos por casal, na média. Hoje somos 6 bilhões e no século XXI seremos aproximadamente 12 bilhões o mais. Tratam-se de dados das Nações Unidas (Relatório da Comissão Brundtland, "Nosso Futuro Comum", edição 1988, p. 110-111). Seja como for, estaremos no século XXI chegando aos limites da capacidade razoável de suporte do planeta. Possivelmente esta capacidade máxima aceitável seja de aproximadamente 12 bilhões de pessoas. É claro que esses números poderão ser ultrapassados e a Terra continuará a existir. Contudo, para a grande maioria da humanidade seria uma existência cheia de gravíssimos problemas e de péssima qualidade de vida, com a morte pela fome de muitos milhões de indivíduos, em anos mais críticos.

Diante dessas perspectivas aterradoras, a Comissão Brundtland procurou discutir como estabilizar a população mundial. Desde logo pareceu claro que a população explode nos lugares onde há miséria. Assim, a erradicação da miséria passou a ser considerada a preocupação ambiental nº 1, além de constituir, evidentemente, também um imperativo moral. Para erradicar a miséria, seria necessário promover um desenvolvimento. Mas não poderia ser um desenvolvimento qualquer, pois se fosse predatório geraria problemas insolúveis no futuro. O que precisávamos era um desenvolvimento sustentável, que não prejudicasse a atual e as futuras gerações. Foi assim que surgiu a expressão "desenvolvimento sustentável", que hoje quase todo mundo usa.

Seria isso viável? Meu colega de Comissão, Maurice Strong, que depois foi Secretário Geral da Conferência Rio-92, mandou fazer um cálculo nas Nações Unidas. Para erradicar a miséria seria necessário gastar por ano cerca de 250 bilhões de dólares durante, digamos 15 ou 20 anos ou algo mais. Como o mundo gasta hoje cerca de 600 bilhões de dólares em armamento, fica claro que a erradicação da miséria é possível e somente depende da vontade política. Contudo, segundo o 22º Relatório (1999) do Banco Mundial sobre o "Desenvolvimento Mundial", a miséria está aumentando e já atinge 25% da população do Planeta. São pessoas que ganham menos de 1 dólar por dia. Isso pode e precisa ser revertido logo.

Há também um grande espinho que deve preocupar a todos nós católicos. A estabilização da população mundial depende também da melhor educação, a qual leva à procura de métodos contraceptivos aceitáveis e eficientes. A Igreja ainda hoje, oficialmente, aceita apenas o chamado método natural, de abstinência sexual em determinados dias do ciclo hormonal da mulher. Esse método, porém, por diversos motivos, não é aceito nem utilizado pela imensa maioria dos casais. É preciso com urgência que a Igreja autorize o uso de outros métodos, que além de eficientes sejam também aceitáveis, O aborto não é aceitável.

Há alguns anos tive ocasião de falar com um dos prelados da alta hierarquia da Igreja, sobre essa questão. Foi uma conversa informal, num aeroporto em Nova York. Ele me disse que a Igreja deveria reexaminar o assunto. Concordo plenamente. Quero fazer aqui uma observação que considero crucial: A Igreja pode e deve mudar o seu magistério, não somente quando este se choca com a verdade, como no caso Galileu, mas também quando fica claro que é exigido pelo próprio Evangelho, à luz de novas circunstâncias. Realmente, os casais que não planejam eficientemente suas famílias, para ter poucos filhos, a fim de tratá-los e educá-los bem, atentam contra o preceito do amor ao próximo, freqüentemente em termos familiares e sempre em termos planetários. Refiro-me aqui à degradação do planeta.

Além do gravíssimo problema demográfico, há também a questão do efeito estufa, ou seja, o aquecimento da atmosfera devido às quantidades imensas de carbono que ali são lançadas sem interrupção. Esse carbono é retirado principalmente das camadas sedimentares sob a forma de petróleo e carvão. As mudanças climáticas trarão graves problemas para a agricultura, inclusive a inundação pelo mar de vastas áreas costeiras, agrícolas e urbanas, justamente num momento em que a população está crescendo. Também haverá enormes perdas de biodiversidade, pois os ecossistemas terrestres não podem migrar com rapidez suficiente para acompanhar o deslocamento dos seus climas. A Igreja deveria também se preocupar mais com tudo isso, pois essa degradação prejudicará as gerações futuras.

Alguns dirão que a Igreja Católica não poderia mudar seus ensinamentos sobre métodos de planejamento familiar, apesar desses acontecimentos gravíssimos previstos, pis ele é infalível. Recentemente li um pequeno folheto intitulado "20 razões porquê sou católico", no qual se dizia que a Igreja é infalível. Na realidade, a infalibilidade refere-se unicamente ao Papa, quando proclama isso solenemente, dentro de certo contexto. No mais, como já disse aqui o magistério pode ser mudado, pois isso já aconteceu no passado. Lembro aqui, apenas para citar um exemplo importante, que pelo Código de Direito Canônico, de 1917, nas escolas católicas os professores de Filosofia e Teologia deviam aceitar os métodos, princípios e a doutrina de São Tomás de Aquino (Enc. Britânica, 1992, vol. 28 p. 640). Hoje, porém, uma das opiniões desse grande Doutor da Igreja, sobre nosso corpo e alma, é rigorosamente rejeitada pela Igreja. Surgiram novos conhecimentos e novas idéias que levaram a essa rejeição.

Galileu Galilei

Vejamos também o caso concreto da famosíssima condenação de Galileu Galilei. Ele foi condenado por contrariar o magistério da Igreja, porque dizia que a Terra gira em torno do Sol. Isso seria contrário à letra da Bíblia, segundo se pensava cerca de 5 séculos passados.

Galileu, inicialmente, argumentou que as passagens da Bíblia que contradizem as leis naturais podem ser interpretadas de modo alegórico. Isso já era admitido naquela época, Contudo, elementos fundamentalistas se posicionaram contra o sistema planetário descrito por Aristarco na Antigüidade e depois por Copérnico, que foi apoiado por Galileu. Diga-se de passagem que Copérnico era cônego. Não vou aqui entrar em detalhes, pois mesmo Galileu tendo amigos nas altas esferas da Igreja, inclusive o Papa, a comissão que o julgou o condenou à prisão. Imediatamente o Papa Urbano VIII transformou essa pena em detenção domiciliar (A Enciclopédia Britânica, 1992, vol. 19 p. 638-640), apresenta um bom resumo do caso).

A condenação de Galileu teve uma repercussão enorme, por ter atingido um dos maiores cientistas do seu tempo, fundador inclusive da Física Experimental. Foi, na minha opinião, um marco na história da Igreja. Com o decorrer do tempo a Igreja teve de admitir o seu erro e considerar assim que a Bíblia pode ter importantes passagens explicadas como sendo alegóricas. Aliás, isso está bem na linha de Cristo, que disse utilizar parábolas para explicar com maior clareza as suas mensagens (Mateus, 13).

A Igreja tem uma dupla Natureza. Ela é divina e ao mesmo tempo humana. Mas ao contrário de Cristo, Deus é homem verdadeiro que sofreu tentações mas não errou, a Igreja, apesar de seu caráter divino, equivocou-se diversas vezes, certamente devido as falhas de sua parte humana. Considero admirável e digna de aplausos a atitude do Papa João Paulo II, que várias vezes reconheceu e proclamou publicamente os erros que a Igreja cometeu através dos tempos e pediu perdão por isso. Veja-se uma entrevista dada pelo Papa na qual refere-se até a erros com relação a Direitos Humanos "O Estado de São Paulo", início de setembro, 1999). Essas atitudes foram e são muito importantes, pois permitem à Igreja ir avante e reconsiderar as suas ações que necessitam ser reconsideradas. Isso possui, também, enorme importância ecumênica e é uma prova eloqüente de humildade cristã, que merece profundo respeito.

Quanto à figura de Galileu, ouso dizer que ele teve a envergadura de um profeta. Ele era profundamente cristão, amigo de sacerdotes e do Papa Urbano VIII, que porém discordaram dele sobre o sistema planetário. Recebeu com humildade uma condenação injusta e importa por fundamentalistas equivocados. Não abandonou a Igreja. O ambiente em que vivia era cristão, tanto assim que a filha que cuidava dele, quando o pai faleceu, entrou num convento e se tornou freira.

O drama de Galileu foi de certo modo repetido séculos depois por Charles Darwin. O formulador das bases da Teoria Evolucionista também encontrou incompreensão por parte da sua Igreja Anglicana e dos demais setores cristãos, que aparentemente haviam se esquecido do episódio Galileu. Principalmente depois desses grandes cientistas-profetas ou pelo menos proféticos, certas passagens da Bíblia passaram a ser entendidas de outro modo. Surpreende, porém o fato de o catecismo católico não ter ainda se dado conta disso. As crianças continuam a ser ensinadas sobre o Gênesis de modo frontalmente contrário ao que a Ciência comprovou, o que deve ser desastroso à mente e sobretudo à fé infantil quando a criança chega ao curso secundário. Essa atitude retrógrada precisa também ser revista com urgência, pois certamente afasta muitos jovens da Bíblia e portanto os afasta do grande caminho para chegar a Deus.

Deixando um pouco de lado a história da Igreja, cujo passado também teve muitas glórias, passo a tratar novamente de minhas preocupações quanto ao futuro. É necessário, com urgência urgentíssima, corrigir rumos, Não se deveria cuidar de assuntos biológicos-reprodutivos com raciocínios ao meu ver às vezes contestáveis ou inseguros. Para saber o que é e o que não é aceitável em certas questões referentes a procriação humana, de um modo geral os teólogos deveriam buscar mais firmemente as respostas nos próprios Evangelhos. Coisas que, aliás, muitos teólogos certamente fazem de modo reservado, algo "subterrâneo", digamos assim.

Há várias lições dos Evangelhos que nos podem dar nessa questão uma orientação segura. A lição mais importante e sempre oportuna é que devemos, como Cristo nos ensinou com ênfase, obedecer ao grande mandamento do amor ao próximo. Contribuir para degradar o planeta e a qualidade de vida, causando assim fome e outros males em bilhões de pessoas, é ofender, em escala planetária o mandamento do amor ao próximo. Contribuir para explodir demográficamente o planeta é ato de desamor a próximo. Nesse contexto, é extremamente importante erradicar a miséria, problema ético e ambiental prioritário: A Igreja tem grande sensibilidade em relação à eliminação da miséria e à exclusão dos oprimidos, mas aparentemente não compreendeu suficientemente a importância da estabilidade demográfica no quadro do amor ao próximo. Parece não se preocupar muito com as conseqüências funestas do aumento insustentável da população, que conduz ao aumento dos excluídos. Há 100 anos poderia ser válida a imagem da família camponesa feliz, com 6, 7 ou 8 filhos. Hoje, isso significa maior número de pessoas excluídas e sem terra. Num mundo finito, há limites para o crescimento material, mesmo que sejam corrigidas as graves injustiças atuais existentes na distribuição e no gerenciamento dos recursos. Como já relatei aqui, segundo cálculos que podem ser feitos com base nos dados das Nações Unidas apresentados pela Comissão Brundtland (p. 110-111), a população mundial, que hoje é de 6 bilhões, poderia se estabilizar em aproximadamente 10 ou 12 bilhões na metade do século XXI. Mas para não ultrapassar esses limites máximos é preciso agir agora. Repito: essa é uma exigência do mandamento do amor ao próximo.

A Ciência não pode obrigar ninguém a fazer ou não fazer algo. Ela é a polícia do mundo. Mas pode, como instrumento da razão, encontrar verdades, descobrir processos e construir caminhos que conduzam a um futuro melhor. A Ciência pode formar uma opinião pública e despertar a vontade política necessária para pôr em marcha os mecanismos capazes de melhorar a qualidade de vida e do meio ambiente. Mais precisamente, a Ciência pode mostrar a necessidade de erradicar a miséria e estabilizar demograficamente a humanidade. Ainda mais, a Ciência pode indicar como atingir esses objetivos, através do desenvolvimento sustentável. Tudo isso deve ser realizado dentro de limites éticos. Não podemos, por exemplo, aceitar o aborto, que é uma negação do direito à vida.

Em outras palavras, a Ciência pode profetizar e se, também, um valioso instrumento de ação para tornar real e efetivo o mandamento do amor ao próximo. Contudo, a Ciência pode também ser posta a serviço do mal. É o caso , por exemplo, do desenvolvimento de bombas nucleares. Cabe ao cientista cristão manter-se vigilante, defender o bem-comum, combater os abusos e descaminhos, buscar melhores dias e melhor qualidade de vida para todos, principalmente par os mais pobres e sofredores. É nosso dever, como cidadãos do mundo e como cristãos. Pessoalmente, tive o privilégio de trabalhar no campo das pesquisas e dos estudos ambientais e ecológicos. Esse sentimento de privilégio me leva a agir nessa questão.

Para terminar, parece-me desejável e inevitável que a Igreja Católica Apostólica Romana, da qual sou um simples leigo e militante, procure mudar alguns rumos. As circunstâncias neste fim de século e certamente também no início do século XXI rapidamente evoluem. Sem ouvir as previsões dos cientistas-profetas, a Igreja poderá ser causa indireta de incontestáveis sofrimentos (fome, enfermidades, mortes) ao manter posições que conflitam claramente com o mandamento do amor ao próximo, como já expliquei aqui. Sou e serei sempre católico apostólico romano. Por isso mesmo rezo para que certos ensinamentos sejam revistos e certos rumos sejam mudados, como disse aqui.

Senhor, atendei à minha prece.

 

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Ciência e Religião, novamente

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