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A ética dos clones
Volnei Garrafa

O centro de toda discussão sobre a clonagem reside no velho debate entre embrião versus pessoa. Embrião é pessoa? Se é, como acreditam os cristãos, principalmente os católicos, como "assassiná-lo"? Se não for pessoa, qual é o problema? É moral? Então, em primeiro lugar é preciso diferenciar as duas questões. É mais do que tempo de separarmos - na construção das leis - Estado e Igreja. Esta discussão deve ser superada definitivamente. O Estado é laico.

Com relação à possível moralidade da clonagem, há vários caminhos a analisar. A clonagem deve ser desmistificada; não é uma palavra "feia". A clonagem é uma técnica, sua aplicação tem prós e contras. Assim como a energia atômica, que pode destruir a vida por meio da bomba atômica, ou melhorar vidas e curar pessoas.

Devemos, também, separar clonagem terapêutica de clonagem reprodutiva. Sou contrário à clonagem reprodutiva, pois criaríamos um conflito moral insolúvel entre as duas criaturas, a que deu origem ao clonado e o próprio clonado. O que eles seriam, irmãos, pai/filho ou simplesmente clones? No caso de o primeiro se cansar do segundo e decidir eliminá-lo, seria suicídio ou homicídio?

Apóio a clonagem terapêutica. É moralmente aceitável usar células-tronco de embriões para salvar ou melhorar a vida de pessoas. O status moral de um indivíduo adulto e doente não pode ser comparado ao de um aglomerado de células que não pensa, não adquiriu nem forma ou função. Embrião não é pessoa. O momento exato quando isso se dá, ninguém de sã consciência pode definir com precisão. A questão não é técnica; é moral.

Num mundo pluralista, as posições são diversas. O que me parece justo é o fato de grupos que têm certa moralidade (e poder), exigirem dos outros que aquela decisão única deva ser acatada por todos. É o mundo dos "estranhos morais" de H.T. Engelhardt Jr. para quem, frente a conflitos, existe só uma solução: a tolerância.

Defendo a separação entre ciência e tecnologia. A ciência deve ser livre. Já a tecnologia, que é a aplicação concreta das descobertas científicas, deve ser obrigatoriamente controlada. Como? Por meio da própria sociedade, das democracias participativas modernas, onde aqueles que vencem eleições governam para a maioria, sem pisotear a moralidade das minorias. O controle é social. (...) A ciência é importante demais para que suas aplicações sejam decidias unilateralmente pelos cientistas.

Volnei Garrafa é presidente da Sociedade Brasileira de Bioética

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