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de Janeiro de 2002

O que se pensa e o que esperar
do conflito israelense-palestino

Antonio Carlos C. Coelho

Entre tudo o que se tem falado sobre o Oriente Médio está o velho conflito israelense e palestino. Por mais que se tenha dito e escrito sobre o longo conflito e as incansáveis tentativas de se alcançar a paz, o tema é ainda pouco compreendido. Talvez pela sua complexidade, por desconhecimento da história, ou talvez por serem incompletas as informações. Muitos ainda, por mais que se fale e escreva, interpretam com simplicidade o problema.

É comum a afirmação de que judeus e árabes brigam eternamente e, logo, essa "guerra" nunca irá ter fim. Não é verdade. Árabes e judeus experimentaram períodos da história muito harmoniosos e produtivos para a cultura ocidental. As confrontos entre palestinos e israelenses, a princípio, não se enquadram numa questão árabe-judaica.

Diz-se também que os conflitos entre israelenses e palestino resume-se na disputa do território. Realmente, o espaço é pequeno com poucos recursos naturais. Para Israel entregar parte do seu território não é tão simples, embora não impossível. Todavia, não se pode desconsiderar que as relações com os países árabes vizinhos não são seguras, nem mesmo com aqueles em que há uma suposta relação pacífica. É preciso prudência e cuidado estratégico. Mesmos assim, a terra não representa a totalidade dos motivos que impedem o acordo de paz e o convívio pacífico permanente. Não se pode interpretar a disputa pelo espaço territorial com critérios ocidentais: no Oriente Médio algumas cidades ou regiões possuem um significado que está acima de hectares e que envolve poder (capacidade de participação no mundo islâmico), cultura, história, tradição, religião.

Afirma-se que Israel foi criado para ser um baluarte ocidental no Oriente Médio. Ao contrário, a aproximação da Inglaterra aos países árabes garantiram com maior eficiência os interesses do Ocidente. Quando terminou a Segunda Guerra, muitos judeus que desejavam retornar à terra dos seus antepassados foram impedidos pelas autoridades britânicas. A Inglaterra, empobrecida pela guerra, necessitava do petróleo mais do que nunca, e não convinha a ela, qualquer estremecimento das suas relações com os países produtores, daí o impedimento ao aumento da população judaica no território de sua administração.

E diz-se que a ONU criou um território artificial para judeus numa terra árabe, não respeitando a vontade dos palestinos que lá habitavam desde a antigüidade. Em outras palavras, favoreceu-se aos judeus em detrimento dos árabes. Apesar da diáspora judaica, os judeus nunca abandonaram a terra, pátria espiritual e símbolo da unidade judaica. Em 1947 a ONU estabeleceu a partilha do território. O termo partilha já traduz o feito: parte para um, parte para outro. Uma parte ficou para abrigar o futuro novo Estado de Israel e outra, para abrigar um estado para os palestinos.

Com o fim do protetorado britânico foi proclamada a independência de Israel criando-se o Estado Judeu. Não ocorreu o mesmo com os palestinos, que preferiram, apoiados pela Liga Árabe, lutar contra o novo país. Os governos árabes recomendaram a criação do estado palestino, ocupando o território a eles destinado. O Egito ocupou a faixa de Gaza e a Jordânia, a Cisjordânia. Portanto, não foram os judeus que impediram a criação de um estado árabe na região. Foram os próprios árabes, que com a promessa de "varrer Israel para o mar", puseram abaixo o projeto de um território autônomo, gerando os primeiros campos de refugiados.

Outra idéia que se tem, é a de que os todos árabes vivem em Israel numa situação desfavorável. Grande parte deles vive em Israel, como cidadãos israelenses com todos os direitos civís e político, com direito ao voto e a serem votados. Têm seus negócios estabelecidos e não têm interesse em outra cidadania, pois, na condição de israelenses, formaram seu patrimônio e sua família. São beneficiados pelos serviços sociais do Estado, seus filhos freqüentam escolas e universidades israelense como todos os outros do país. Muitos são casados com judeus ou cristãos israelenses. Com certeza, não são esses que aparecem na TV atirando pedras e portando fuzis e metralhadoras, e que militam nos grupos radicais.

Na guerra dos seis dias, quando Israel defendeu-se dos cinco países árabes que o atacaram, com o objetivo de "varrer Israel para o mar", o seu exército ocupou a Cisjordânia, o deserto do Sinai, Gaza e as colinas do Golan. Os habitantes dessas regiões não são considerados cidadãos por Israel. Certamente são esses que, com justo direito, desejam a criação de um estado palestino.

Em 72, ocorreu o episódio conhecido por "Setembro Negro": mais de 10 mil palestinos foram massacrados na Jordânia, pelo governo jordaniano. Este fato fortaleceu o sentimento de identidade palestina ao ponto de não aceitarem mais ser identificados como árabes, passando exigir o reconhecimento internacional da sua nacionalidade, pressionando Israel para sair dos territórios ocupados em 67. E o terrorismo então, tornou-se uma prática freqüente dos liderados por Arafat, atacando em Israel e em outras partes do mundo, como foi nas olimpíadas de Munique, no iate Aquile Lauro, e outros. Desta forma, os atos terroristas de reivindicação assumiram um novo significado, o do anti-judaísmo.

Na primeira vez que fui a Israel, logo no primeiro dia, peguei um taxi. Querendo puxar conversa com o motorista perguntei: o senhor é árabe? Ele me respondeu asperamente: não, sou palestino. Acabou a conversa. Percebi que atrás da resposta áspera do taxista, havia mágoa e necessidade de afirmação.

Há também quem relacione o atentado terrorista de 11 de setembro ao apoio dos EUA a Israel. Nada disso é real. Bin Laden nunca se preocupou com a questão palestina. Nada fez, e provavelmente, não tinha contato com os líderes palestinos. Foi somente após a ameaça americana que o líder da Al Qaeda manifestou solidariedade à causa: uma tentativa de atrair o apoio político dos países irmãos. O mesmo fez Sadan Hussein quando não obteve apoio dos países árabes. Para ambos foi uma tentativa frustrada. Os líderes árabes não se unem pela causa palestina. Ela não tira o sono e o apetite de nenhum deles. Ela é um instrumento político de pressão e uma forma de atrair atenção e recursos do ocidente. Também é uma maneira usada pelos governantes para mostrarem-se sensíveis às causas de simpatia popular. Este é um trunfo precioso preservado com muito carinho.

Igualmente falsa é a idéia de que há uma unidade sólida entre os países árabes. Essa unidade nunca houve. ( Nasser, através da criação da RAU - República Árabe Unida - tentou estabelecer uma unidade). Por outro lado, não se pode desconsiderar o crescimento descomunal do islamismo nos últimos dez anos. Após 89, a religião tronou-se elemento integrador desse povo. Embora seja muito difícil avaliar até que ponto a religião daria consistência real aos povos árabes - existem muitos ramos diferentes entre os muçulmanos - ela tem servido de alimento da oposição popular que se faz aos líderes políticos simpáticos aos estrangeiros. Arafat é um deles. O velho líder hoje sofre pressão dos grupos radicais - Hizbollah, Hamas, FPLP, isto o desclassifica como o melhor negociador para a causa palestina. A bem da verdade, Arafat sempre foi um representante de grupos palestinos e nunca teve todo o poder e o apoio dos palestinos como pareceu ter durante as rodadas de negociações.

Aparentemente a "questão palestina" não extrapola seus limites e nem recebe apoio de grupos religiosos ou étnicos. Bem, não há um apoio explicito, mas tem o apoio de simpatizantes poderosos que, através dos meios de comunicação, de formação de opinião, da educação (livros didáticos) aprovam interesseiramente a causa palestina, promovendo a distorção dos fatos históricos e das noticias veiculadas. Estes, através da ótica da "questão palestina" disseminam a ideologia anti-americanista e anti-judaica. Embora esses simpatizantes se digam contra o terrorismo e a violência, justificam o ataque terrorista como uma conseqüência da "arrogância" americana, ou classificam o terrorismo como uma violenta "expressão dos oprimidos". E há, também, aqueles que acreditam nos "propósitos humanitários" da causa, ignorando os interesses que estão em jogo, sendo facilmente coptados para a defesa de idéias preconceituosas, anti-judaicas e anti-americanistas. Não é difícil de perceber isto, basta passar os olhos sobre os capítulos dos livros didáticos usados em muitas das nossa boas escolas, nas crônicas dos jornais, etc.

Entre a maioria dos israelenses há o consenso de que a paz é necessária e urgente e de que os palestinos devem ter seu estado autônomo. O esforço diplomático para um acordo positivo é grande. O país sofre a privação econômica com os gastos militares e, principalmente, com a perda de seus cidadãos em combate e nos freqüentes ataques terroristas. A história judaica e o esforço realizado para a criação do novo Estado de Israel ensinou que todos os povos devem ter direito ao seu país e a sua liberdade. Lamentavelmente, não basta desejar paz, liberdade, democracia. É preciso que se estabeleçam meios e garantias para tal.

Acredito que também a maior parte da população palestina deseje o mesmo. Mas Arafat tenta e não consegue. Percebe-se que, apesar dele ter estar enfraquecido politicamente, ainda é o único que faz o papel de interlocutor da causa palestina. Vai a Bush, vai ao Papa, faz média e mídia. Mas bem sabe Arafat que nada pode impor aos grupos terroristas que impedem os acordos: ele tem compromissos do passado. De mãos vazias, tenta negociar. Não combate o terrorismo, não prende os líderes e nem os militantes mais ativos, e ainda inclui na pauta de negociações com Israel a soltura dos presos políticos. Por isso grita aos quarto ventos quando Israel faz o que deveria ter sido feito por ele há muito tempo: prender os terroristas que se abrigam em Gaza, Jenin, Beit Jala, Belém, Ramalah. Claro. Ele não pode deixar que ao ocupar áreas da autoridade palestina, Israel lhe tira das mãos cartas que possui para negociar com os grupos internos. Por outro lado, Israel não pode ficar a mercê da ineficiência arafática e muito menos permitir ataques terroristas no seu território.

A disputa pelo território que caracteriza o conflito árabe-israelense hoje, possivelmente, é somente a causa da população comum que deseja uma cidadania. Com certeza, não é a causa das liderança que sabem manipular a intensidade dos conflitos atraindo a atenção do ocidente e dos países árabes. Tanto é que, em setembro de 2000, Barak, então primeiro-ministro israelense, concordou com 95% das reivindicações palestinas. Elas não foram aceitas. Arafat levantou da mesa de negociações. Por que? Talvez Israel tenha sido acenado com a possibilidade concreta de se por fim no conflito.

Não se pode esquecer o aspecto religioso que envolve o conflito. Os grupos radicais usam desses apelos para unir a população contra qualquer acordo com Israel e com o Ocidente. Estes grupos há muito vêm ganhando a simpatia e o apoio popular: oferecem conforto espiritual e um "reino" na terra com benefícios práticos à população, agindo onde a administração palestina não atua. Através de uma simbologia religiosa, conduzem a "jihad" anti- judaica e anti-Ocidente. Nesse cenário não há possibilidade de diálogo. Não há diplomacia que de jeito.

Cabe aqui perguntar: pode uma diplomacia baseada em conceitos geopolíticos obter sucesso num conflito motivado por esperanças alimentadas com nebulosas promessas de caráter religioso? - Pode-se esperar paz quando a religião que, por princípio, prega concórdia, fraternidade, liberdade, justiça, tornou-se bandeira de luta? - E que sucesso pode ter o diálogo com um interlocutor que pouco representa os interesses de líderes com maior aceitação no meio palestino?

Certamente não será Arafat, Sharon ou Perez o construtor para a paz. Ela não será fruto de esforço de uma pessoa, assim como o conflito não é resultado da postura política de uma ou de outra liderança. Elas podem contribuir ou dificultar, mas não são capazes, por elas mesmas, de promoverem a paz. E mais certamente ainda, não está entre os novos líderes, investidos da "ira divina", o paladino da paz.

Para o Jornal de Ciência e Fé e Site cienciaefe.org.br
29 de novembro de 2001

Antonio Carlos Coelho é professor de Ecumenismo e Judaísmo do Studium Theologicum e diretor do Instituto Ciência e Fé.


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