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Opinião
O jumento e o cordeiro
Evaristo Eduardo de Miranda

Para a tradição cristã Jesus nasceu em Belém, num estábulo, lugar onde recolhem-se animais e arreios. Segundo Lucas (2,7), tratava-se provavelmente de um caravançarai1, local que comportava normalmente uma estrebaria. A tradição apócrifa² descreverá Jesus na manjedoura, ao lado de um jumento e de um boi contemplativos, figuras indispensáveis no presépio de Natal. Essa tradição inspirou-se do profeta Isaías: "Um boi conhece o seu proprietário e um jumento, a manjedoura na casa de seu dono"(Is 1,3). Eu, simplesmente, penso que o estábulo é mesmo o melhor lugar para um cordeiro nascer.

Pastores em pleno campo, guardando seus rebanhos, serão avisados por um anjo (Lc 2,8-20) e irão visitá-lo, ainda na manjedoura, acompanhados por ovelhas e cães. Depois, retornarão aos mesmos campos, à natureza redimida, proclamando a glória de Deus. Com a chegada dos magos do Oriente, camelos completam o quadro do presépio: Jesus contemplado por um jumento, um boi, ovelhas, cães e camelos. Por que esses animais e não outros? Fruto do azar? Limitemo-nos ao jumento que contempla o Salvador.

O jumento tem simbologia própria na tradição judaica, diferente do nosso sentido comum³. Em hebraico, a palavra jumento, hamor, vem de uma raiz que evoca matéria. A matéria silenciosa e maravilhada acolhe o mistério da encarnação: o Verbo se fez carne, habitou entre nós e nós vimos sua glória (Jo 1,14). Simbolicamente, montar um asno significa dominar a dependência da matéria. Jesus montará muitas vezes sobre o jumento: no ventre de Maria para ir a Belém, nos braços da mãe durante a fuga para o Egito e aclamado ao entrar triunfalmente em Jerusalém, para logo morrer.

A imagem do jumento evoca uma humildade que é poder e saber. Com uma queixada de jumento, Sansão massacrou mil filisteus (Jz 15,14-16). Mas a jumenta de Balaão verá o anjo exterminador do Senhor, antes que seu amo o veja (Nm 22,22-35). No homem, a orelha é fixa e finamente esculpida. Nos outros mamíferos terrestres, as orelhas não são tão detalhadas mas são móveis. Essa mobilidade é fundamental para orientar o deslocamento do animal no espaço externo. O homem adulto integra toda sua animalidade, leva-a a termo, ao salvá-la dentro de si, como um Noé. E só deveria deslocar-se no espaço externo em função da escuta do espaço interno. É necessário saber escutar, estar em disposição de ouvir, para poder ver. Com suas longas orelhas, a jumenta de Balaão "vê" o que seu mestre e dois servos não vêem: o Anjo exterminador no meio do caminho! Tenta salvar seu dono por três vezes, desviando da rota. Apanha muito por fazê-lo, a ponto de IHWH abrir sua boca para interrogar o dono: "O que foi que eu fiz para você me espancar três vezes?" Seu patrão, enfim, escuta sua anima e assimila a Palavra (Nn 22,22-28), que brota dessa anima, dessa jumenta, desse animal feminino. Em hebraico, o jumento (hamor) evoca o vinho (hemer) e a argila (homer). A jumenta (aton) evoca em aramaico o forno (atun). O jumentinho é ainda outra palavra ('ayir). São palavras muito diferentes. Da corte do faraó, José enviará a seu pai Jacó "dez jumentos carregados de vinho e do que há de melhor no Egito e dez jumentas carregadas de trigo, pão e comestíveis, para a viagem de seu pai." (Gn 45,23). Para a tradição judaica, o espírito de profecia, perdido quando da venda de José pelos irmãos, volta a Israel nesse episódio. Vinho e pão são alimentos que Jesus, filho de um José, utilizará - não só para transmitir sua carne e seu sangue, mas para torná-los assimiláveis. O pão é a Palavra e o vinho a inspiração espiritual para compreendê-la.

O Apocalipse ensina que o espírito de profecia é o testemunho de Jesus. "Achando um jumentinho, Jesus o montou, como está escrito: Não temas filha de Sião: eis o teu rei que vem, montado num jumentinho." João simplifica a profecia de Zacarias: "Eis que teu rei vem ao teu encontro: ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento - sobre um jumentinho, filho de jumentas (9,9). Mais que cumprir, Jesus é a profecia viva. No texto as três palavras - jumento, jumenta e jumentinho - são reunidas para qualificar a montaria do rei. Nas mitologias, a capacidade de montar um jumento (anima) vem depois daquela de montar um cavalo (animus). Plenitude da integração e da evolução Jesus é assimilado ao que monta o macho, a fêmea e o infantil.

Essa profecia anuncia também o fim dos carros de guerra em Efraim e dos cavalos em Jerusalém. Jesus entra sobre um jumentinho porque o cavalo é inútil. A vitória foi obtida: justo e vitorioso, humilde montado num jumento". Deus protege seus filhos do inimigo. Comerão as pedras da funda como pão e beberão o sangue como vinho. "Como pedras preciosas fulgirão em sua terra. Quão felizes serão! Quão belos serão! O trigo dará esplendor aos jovens, e às jovens, o vinho novo" (Zc 9,17).

O jumento também está associado ao cordeiro e ao sacrifício. No relato do sacrifício ou elevação de Isaac, respondendo ao chamado do Senhor, "Abrahão levantou-se bem cedo pela manhã, selou seu jumento e tomou consigo dois de seus criados e seu filho Isaac" (Gn 22,3). Na história das jumentas perdidas e da unção real, vê-se Saul conduzido a comer o sacrifício de cordeiros. Ungido como rei, o espírito de IHWH desce sobre ele e as jumentas são reencontradas (1 Sm 9 e 10)4.

Eis porque ao entrar em Jerusalém, sobre um jumento, Jesus entra como rei e cordeiro para o sacrifício. Talvez seja nesse drama, salvador e paradoxal, que já pensa e medita o contemplativo jumento do presépio de Natal. Quanto aos pensamentos do boi, símbolo do evangelista Lucas, fica para um outro natal.

1 Do persa karvansarãi, "palácio das caravanas"; grande abrigo, no Oriente Médio, para hospedagem gratuita de caravanas e que, de ordinário, consta de quatro pavilhões em volta de um pátio.

2 O Evangelho apócrifo do pseudo Mateus (14).

3 Em geral, assimilado à falta de inteligência e à teimosia.

4 A leitura desse episódio, onde também existem cargas de pão e vinho, criados acompanhando Saul, Efraim em Jerusalém, moças buscando água..., é um dos tesouros da Bíblia.

Evaristo Eduardo de Miranda é doutor em Ecologia, pesquisador da Embrapa, ministro de exéquias, diretor do Instituto Ciência e Fé.

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