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Antônio Carlos Coelho.
Professor Univeristário, diretor do Instituto Ciência e Fé.


ANO 6 ED 67 - FEVEREIRO DE 2005

OPINIÃO
Literatura da felicidade e do sucesso

Antonio Carlos Coelho

 

Vá a uma livraria, procure a estante dos mais vendidos. É fácil, ela está logo ali, na porta de entrada, bem a vista da multidão de desorientados do século XXI. Dezenas de livros de auto-ajuda. Há lições para diferentes tipos de sucessos: educar filhos, gerenciar empresas, ficar bonito, encontrar a paz interior, desempenho sexual (viagra literário), vida saudável, felicidade conjugal, entre outros temas bizarros.

Os nomes dos livros são cômicos. Basta que um desses tenha boa saída para aparecer um outro com nome semelhante, seja do mesmo autor ou de outro atrevido. Vejam: Quem ama educa!; O monge e o executivo; Nunca desista dos seus sonhos; Não deixe o café esfriar; Caminhos e escolhas; Filtro solar; Pais brilhantes, professores fascinantes; Não leve a vida tão a sério; A semente da vitória; Quem roubou meu queijo e outros que prometem mudar a vida em dias, ganhando fortunas, sucesso, paz de espírito ou fazendo sexo como uma máquina. Isto me faz lembrar aqueles livros divulgados nas revistas em quadrinho: Alemão sem mestre, Como conquistar mulheres e convencer clientes, Torne-se um vendedor de sucesso, etc.

Estes livros todos realmente mudam a vida das pessoas: dos seus autores e editores. Os autores viram grandes e caros conferencistas da noite para o dia. Escolas os convidam, empresas abrem suas semanas de avaliação e reciclagem das equipes de trabalho com palestras desses alquimistas da pós-modernidade que sabem transformar suas palavras em ouro. Certamente nenhum desses best-sellers irá ensinar como tirar proveito de tantos desorientados, insatisfeitos com a vida, duvidosos das suas capacidades para ganhar dinheiro.

Não se pode duvidar da capacidade dos autores. Sabem escrever. Sabem atrair leitores de maneira fascinante. Sabem também, aproveitar o que já escreveram num de seus livros, requentarem, e usarem novamente sob um novo título. São mestres em usar modelos de sucesso, que pode ser um reconhecido empresário de sucesso como uma personalidade política ou até mesmo religiosa. Tanto faz, basta que essa personalidade tenha carisma suficiente para envolver os leitores. Neste caso, Jesus tem o mesmo valor de Airton Senna, Henri Ford, Ted Turnner, Onassis que, além e rico, conquistou a bela e charmosa viúva Kennedy.

Muitas empresas e escolas tradicionais, no intuito de promover mudanças, sem tê-las com clareza, convidam os magos do sucesso para orientar seu pessoal. Esquecem da rica experiência que acumularam ao longo dos anos. Optam por ouvir um conferencista de conhecimento duvidoso, com carisma artificial, construído pela mídia, pelo sucesso de venda dos seus livros e, principalmente, pelo valor cobrado pelo espaço numa agenda supostamente cheia.

Vive-se um fenômeno de final e início do século. Têm-se dificuldades em entender as mudanças. Perderam-se muitas referências, modelos que serviram e que hoje parecem estar ultrapassados. É certo que muitos desses modelos frustraram. Eles pareciam bons, no entanto, não deram soluções vantajosas. Somado a isso, a superficialidade do conhecimento, a incapacidade para interpretar as mudanças dentro de seus diferentes aspectos - talvez seja resultado do excesso de especialização e do conhecimento compartimentado oferecido nas escolas de ensino superior - leve as pessoas buscarem soluções rápidas para suas vidas e sucesso na vida profissional.

Lembro do Evangelho: "Surgirá uma multidão de falsos profetas e induzirão a erro muitos homens". Falsos e atrevidos profetas não só escrevem e fazem conferências, também abrem igrejas. Há muitas religiões e igrejas prometendo milagres fáceis, sucesso profissional, felicidade no casamento, curas fantásticas, paz interior. E se há falsos profetas é porque existe ouvido pronto para ouvi-los. Mas também, se há falsos profetas é porque os verdadeiros não souberam dar conta do recado. Fecharam-se nas suas ortodoxias, nos seus fanáticos fundamentalismos, perderam a capacidade de dialogar com o mundo em suas mudanças, abandonaram seus seguidores no mar das tormentas.

Não quero oferecer solução para este trágico fenômeno do nosso tempo. Correria o risco de ser também um vendedor de soluções fáceis como estes que critico. Todavia, acredito que o que está faltando é aceitar o que se é e reconhecer as limitações com maturidade. É importante lembrar que somos humanos, embora geniais, a vida consiste de sucessos e fracassos. E, como sugestão, vamos ter um pouco mais de malícia, sermos um pouco mais perspicazes e aguçar nossa crítica.

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