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Giovanni Sartori
, cientista político e escritor italiano. Artigo transcrito do jornal Corriere della Sera, 28 de fevereiro. A Itália fará um plebiscito sobre o uso de embriões em alguns meses.


ANO 6 ED 67 - FEVEREIRO DE 2005

ARTIGO
A vida humana segundo a razão

Giovanni Sartori


Ilustração Jubal S. Dohms

Fé e razão. Há problemas que dizem respeito àfé, e problemas que dizem respeito à razão. A existência de Deus é um assunto que diz respeito à fé. Se os aviões voam porque são suspensos pelos anjos é um problema ligado à razão. O importante é que os dois campos se respeitem e que não se confundam um com o outro. Mas no debate ora em curso, sobre o direito à vida e o embrião, esta confusão é evidente.

Para começar, vida não é a mesma coisa que vida humana. Até as moscas, os piolhos e os mosquitos são pequenos seres vivos, são vida.Mas confesso que os mato com satisfação. Os animais e os peixes que como também eram antes seres vivos. E mesmo assim confesso que eu os como sem sentir que estou cometendo um pecado. Mas a vida humana, ao contrário, é inviolável. Por quê? Qual é a diferença?

A questão é esta, mas a Igreja do Papa Wojtyla foge dela. A cruzada da Igreja é a favor da 'vida nascente'. Aquela das plantas também? E a dos tavãos (espécie de mosca), também? É lógico que não. E por que não? Pergunto novamente: qual é a diferença entre uma vida qualquer e a vida humana? Outrora a resposta era a alma, pois é a alma que determina a existência do homem. Mas hoje a alma é esquecida, a Igreja quase não fala mais sobre ela. A omissão é espantosa. Mas é assim.

Quando se trata de dizer exatamente quando dispara a faísca da vida nos primatas, e especificamente no homem (vamos deixar de lado todas as outras formas de vida, para sermos breves), a resposta já é certa: começa no momento da fecundação, do encontro do espermatozóide masculino com o gama feminino. No entanto, normalmente (a pergunta não é inescapável), essa fecundação é já, naquele momento, vida humana? A fé, se assim vem imposta a sua autoridade, pode responder que sim. Mas a razão, vejamos, deve responder que não. Quando à ciência, a pergunta sobre quando 'um embrião se transforma em uma pessoa e goza dos direitos de uma pessoa... é uma pergunta que parte da biologia e da ciência em geral'. Exatamente isto.

Vamos abordar a razão, o argumento racional. Dentro deste contexto, a justificativa é que a vida humana é diferente da vida animal porque o homem é um ser capaz de refletir sobre si próprio, e portanto, dotado de auto-consciência.O animal não sabe que deve morrer; o homem sabe. O animal sofre fisicamente porque tem sistema nervoso, mas o homem também sofre psicologicamente e espiritualmente. Digamos, então, que a vida humana começa a ser diferente, radicalmente diferente daquela de qualquer outro animal superior quando começa a 'dar-se conta'. Com certeza não quando ainda está no útero da mãe.

Papa Wojtyla garante que 'a ciência já demonstrou que o embrião é um indivíduo humano' e, como tal, não pode ser morto.Mas isto não procede. Na sua argumentação, a ciência é submetida às regras da lógica. E para a lógica eu mato exatamente aquilo que estou matando. Não posso abater, assassinar, um futuro, algo que ainda não existe. Se mato uma larva não estou matando uma rã. Se bebo um ovo de galinha não estou abatendo uma galinha. Se como uma porção de caviar não estou comendo cem esturjões. Portanto, a afirmação (a terceira do referendo que votaremos) de que os direitos do embrião são equivalentes àqueles das pessoas já nascidas é, de acordo com a lógica, um absurdo.

O católico que segue os preceitos de Tertuliano (credo quia absurdum, acredito nisso justamente porque é um absurdo) tem toda a liberdade para subscrever este absurdo. Mas a Igreja de Santo Agostinho e de São Tomás, e também todas as pessoas que raciocinam, deveriam desejar que as células tronco dos embriões humanos sejam utilizadas pela pesquisa científica para curar os vivos, os que já nasceram. E também deveriam desejar a sobrevivência da lógica.


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