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Antonio
Carlos da Costa Coelho O
respeitado teólogo evangélico, Doutor Russell P. Shedd,
no dia 29 de abril, falou na Faculdade Evangélica do Paraná
para lideres evangélicos sobre a compreensão e impacto da
Palavra de Deus no século 21. O teólogo escreveu vários livros que compõe as bibliotecas evangélicas, como: A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia, A Escatologia do Novo Testamento, A Oração e o Preparo de líderes cristãos, Fundamentos Bíblicos da Evangelização, Criação e Graça: reflexão sobre as revelações de Deus. Além destes livros elaborou os comentários da Bíblia Shedd. Na ocasião em que conversou com o Diretor do Instituto Ciência e Fé, Antonio Carlos Coelho, Doutor Shedd tinha recém chegado de uma viajem a Inglaterra e a Portugal, onde fez uma séria de conferências e já estava de partida para Vinhedo, onde daria continuidade a sua peregrinação missionária.
Dr. Shedd - Em Portugal falei para portugueses e brasileiros somente. No domingo passado, em Londres, falei para pessoas de diferentes origens: africanos, brasileiros, ingleses. É uma confusão de povos. Na Europa acontece a secularização e isso vai acabar excluindo Deus da vida das pessoas. Vai-se viver como se Deus não existisse. Não quer dizer que todo mundo está se tornado ateu. Há uma modernização. Há influências como o pensamento de Darwin entre outros. Isto se dá também, porque as pessoas têm o que desejam: emprego, família bem cuidada, plano médico, quer dizer, não precisam de nada. E essa atitude secularizante é muito forte na Europa. Ao mesmo tempo, está surgindo na Europa, um outro problema: os imigrantes - principalmente árabes, paquistaneses, brasileiros que vêm à procura de emprego e de vida mais fácil. Em Londres talvez haja 50 ou 60 igrejas brasileiras e não sei quantas têm de outros povos. Tudo isso dentro da sociedade inglesa. Quando estive pela primeira vez na Inglaterra, em 53, não tinha nada disso. C&F: E no Brasil? Dr. Shedd - A situação no Brasil é de um povo, pelo menos nas camadas mais simples, como menor preparo intelectual e que tem uma maior abertura para o Evangelho. Muitos consideram o brasileiro um povo místico, aberto às coisas da religião e aos milagres. As igrejas que mais crescem são aquelas que oferecem milagres, oração, corrente de oração, luta contra o diabo - amanhã falarei sobre isso - "a batalha espiritual" - esse tipo de coisa realmente ferve no Brasil. C&F: E as igrejas neopentecostais souberam perceber isso muito bem. Dr. Shedd - Perfeitamente. Os neopentecostais não têm muito problema com a Bíblia. Eles a usam, mas como alegoria, e não exatamente o que a Bíblia ensina. Eles pegam um texto e extrapolam a sua mensagem. C&F: As Igrejas Evangélicas tradicionais tiveram crescimento insignificante em comparação com as igrejas pentecostais e neopentecostais. A Igreja Católica sofre uma perda significativa de seus membros para essas igrejas. Enfim, há um crescimento dos evangélicos no Brasil, o que indica que não há um abandono da fé, mas sim, há uma nova forma de vivê-la. Na Europa, temos uma forte secularização que, somada à imigração intensa, traz consigo novas e tantas igrejas. Portanto, ao mesmo tempo em que temos o crescimento do número de igrejas e fiéis, há o fenômeno da secularização que afasta as pessoas da fé (ou, pelo menos, de uma denominação religiosa). Como falar de Deus num mundo complexo, paradoxal, pluralista? Dr.
Shedd - O que funciona no Brasil talvez não funcione na
Europa. O que atrai aqui no Brasil são as igrejas "da teologia
da prosperidade", não mais as "da teologia da libertação".
As igrejas da "teologia da prosperidade" são as que funcionam
no Brasil. O que significa prosperidade? Ter Deus ao seu lado. Ser mais
do que vencedor. Acabar com o diabo e a sua influencia sobre a sua vida.
Com as maldições do passado ou alguma coisa assim. Acabando
com isso a vida melhora. Temos muitos testemunhos que isso vem acontecendo.
Na Europa, onde não se crê mais no diabo, onde a vida é
racional, dificilmente as pessoas se entregam a Deus. Este pensamento
racional, que surgiu na Alemanha, provocou o fim dos mitos da Bíblia,
excluindo assim a crença nos milagres e em tudo que é sobre
natural, transformando a Bíblia num livro psicológico. Criou-se
uma religião psicológica. Então, está é
a grande diferença entre a religião (cristã) no Brasil
e na Europa. C&F: O século 20 foi palco do fenômeno da secularização. Resultado do progresso científico-tecnológico, das expectativas políticas do pós-guerra, do ateísmo, etc. Chegou-se acreditar que não haveria mais lugar para Deus neste mundo. Os filósofos falavam na morte de Deus. No entanto, após os anos 70, iniciou-se um retorno às religiões. As seitas orientais chegaram ao Ocidente. Práticas religiosas diversas foram adotadas, principalmente pelos jovens, e algumas até, de orientação cristã. Em 91 foi publicado pela editora Seuil o livro "La revanche de Dieu: chrétiens, juifs et musulmans à la reconquête du monde" do cientista-político francês Gilles Kepel. Ele tratava exatamente desse imenso retorno a Deus através de diferentes práticas religiosas, o que contradizia a idéia da "morte de Deus". Isto se constata no crescimento dos movimentos fundamentalistas, no retorno aos movimentos mais ortodoxos das religiões monoteístas, na força política das religiões tradicionais, como exemplo, o lobby das igrejas evangélicas nos Estados Unidos e o movimento de cristãos que influem na política européia para restabelecer os valores cristãos que formadores da cultura da Europa. Enfim, a idéia da morte de Deus está vencida, todavia o fundamentalismo religioso ganha expressão e força. Como o senhor vê esse retorno a Deus no final do século 20 e início do 21 ? E, será que as religiões - de modo especial o cristianismo - conseguirão dar respostas às pessoas que hoje retornam a fé ? Dr. Shedd - Todos nós estamos a procura da felicidade. Ninguém, diz Pascal, faz qualquer coisa sem ter essa motivação, a felicidade encontrada na possibilidade de realização, isto é, sentir que a sua vida valeu a pena ser vivida. A religião tem umaresposta para as pessoas que tomam a sério essa busca pelo sentido da vida. E, se uma pessoa que já tem fé em Deus, que crê em Deus, que acredita que Ele falou através de Maomé, dos Profetas Bíblicos, dos Apóstolos, e está buscando sentido para a sua vida: Por que estou vivo? O que me traz felicidade? E, se ele realmente encontrar resposta para as questões fundamentais da existência humana na Palavra de Deus, então ele se torna, de certo modo, um fundamentalista, um pentecostal. É uma pessoa que busca, no sensacionalismo, no ouvir a voz de Deus, na experiência de falar em línguas ou em qualquer comprovação, que Deus existe e está com ele, ao seu lado, através de respostas às orações e dos milagres. C&F: O que o senhor quer dizer com fundamentalismo ? Seria aquele capaz de motivar o terrorismo? Dr. Shedd - Este é o fundamentalismo muçulmano. O fundamentalismo evangélico está relacionado a crença nos fundamentos da fé. Estes fundamentos foram publicados há 70 anos aproximadamente. São treze ou quatorze livros chamados "fundamentais" - daí a palavra fundamentalismo.Então, quando um crente diz crer na Palavra de Deus, este é um fundamentalista, uma pessoa convicta e pronta a dar a sua vida por aquilo que acredita. C&F: Na origem da sua Igreja, a Batista, ela se pôs contra as alianças entre igreja e estado. Portanto, avessa à participação na política de estado. Como o senhor explica que hoje haja uma forte participação dos batistas política, notadamente nos Estados Unidos, apoiando Bush? Isto não comprometira os propósitos cristãos ? Sabemos que os atos políticos, mesmo quando necessários para a segurança de estado e outros interesses, são freqüentemente contraditórios aos princípios do cristianismo. Os batistas não poderiam estar comprometendo o testemunho cristão no mundo ? Além disso, com propópositos semelhantes, temos a mobilização católica na Europa. E no Brasil, a bancada evangélica brigando, muitas vezes, de forma nada exemplar, para ocupação de cargos. Com tanto envolvimento no poder, onde fica o testemunho cristão ? Deve ou não haver participação dos cristãos em geral na política? Dr. Shedd - A separação estado igreja vale para quem é minoritário, mas, quando se é maioria, isto muda. Numa democracia há a chance de se obter o poder. Quem tem o maior número de votos ganha. Então pode se eleger alguém com a mesma crença. No caso dos Estados Unidos, temos Bush. Bush é um crente, afirma crer, que passou por uma regeneração e que vai lutar contra as grandes manifestações satânicas, por exemplo, o casamento gay, divórcio fácil, aborto e outras coisas. Então a comunidade evangélica lhe dá o apoio. Por outro lado, a Corte Suprema tem sido muito liberal, tem dado opiniões que não deviam ser dadas. Diz estar sustentando a Constituição que, aqueles que a escreveram, não tinham a mínima idéia do que iria ser feito hoje com ela. Agora querem escolher juízes que não tomem esse tipo de decisão. Eles serão nomeados pelo Presidente e o Congresso dará ou não homologação à decisão dele. C&F:
Mas se as opções e ações políticas
não são condizentes com o que ensina a religião,
quando líderes religiosos atuam de forma contraria aos ensinamentos
de Deus, quando usam seres humanos como peças de um jogo político,
com promessas que não sabem se seriam cumpridas no Reino dos Céus,
quanto mais aqui na Terra, isto se torna muito perigoso. É decepcionante.
É um contra testemunho. Além disso, coloca as instituições,
que deveriam manter a sua isenção, no balaio dos desacreditados.
Então, quando um candidato francamente apoiado por uma Igreja ou
pela grande maioria dos seus dos seus membros, comete atos de duvidoso
juízo, como fica a Igreja que o apoiou? Já ouvi batistas
dizerem que não gostam do Bush por o julgarem arrogante e por ter
feito a guerra no Iraque. C&F:
Hoje com a facilidade e intensidade das informações
há o contato com o que até há pouco tempo era desconhecido. Dr. Shedd - A Bíblia fala de um futuro, talvez não muito distante, em que nele surgirá um governo mundial inimigo da Igreja e amigo dos falsos cristãos - essa é a polarização que a gente vê no livro do Apocalipse, em Tessalonicenses, e Jesus também falou desse abominável, da desolação e que teremos que ter cuidado. A crença nessa escatologia, nesse eskaton, traz aos crentes, a suspeita quanto à possibilidade de união com os outros, muçulmanos, hindus e outros, para um governo mundial. Porque o deus deste mundo tem cegado as mentes, e os poderes satânicos, chamados os cosmocráticos, estão aguardando o momento para governar, de modo que, um diálogo entre cristãos de verdade é uma coisa absolutamente favorável. Jesus orou por isso. Ora, se somos filhos do mesmo pai, como podemos brigar por coisas de menor importância? Assim, para os crentes, a dificuldade está em saber realmente quem está do nosso lado, isto é, a favor de Cristo e da Palavra de Deus, e quem está do lado satânico. Estas duas forças cada vez mais vão se polarizar. |
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