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Evaristo Eduardo de Miranda
é doutor em Ecologia, diretor do Instituto Ciência e Fé, diretor e pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, de Campinas


ANO 6 - ED 70 - JUNHO DE 2005


Princípio de humanidade ciência ou ideologia?

Evaristo Eduardo de Miranda

O Tribunal de Nuremberg julgou e condenou os médicos nazistas que praticaram o eugenismo. Ainda sob o impacto do Holocausto, a sentença do Tribunal foi acompanhada de uma declaração em que proclamava-se a indivisibilidade da pessoa humana. Não existem graus de humanidade. Não existem pessoas mais humanas ou menos humanas. Nem sub-homens, nem super-homens, inferiores ou superiores. O princípio de humanidade é um só e irredutível: o mendigo é tão humano quanto o príncipe. Um deficiente mental é tão humano quanto um prêmio Nobel de Física. Ninguém pode definir ou decidir se a vida de outra pessoa vale ou não a pena de ser vivida ou se é inferior ou superior a de outra pessoa.

Paradoxo de nossos dias, 60 anos depois dos campos de concentração, nunca se defendeu e se desrespeitou tanto o princípio de humanidade. De um lado, consciência e mobilização sem precedentes pelos direitos humanos: defesa de minorias, homossexuais, índios... Cria-se até um tribunal e uma legislação internacional para julgar crimes contra a pessoa humana, onde quer que tenham sido cometidos. Ao mesmo tempo, nunca o princípio de humanidade foi tão ameaçado: atacado pela mercantilização da vida e da procriação; pelo patenteamento do vivente; pela manipulação genética de inspiração comercial; por desigualdades crescentes e globalizadas; pela eutanásia e por um cientismo que prega abertamente o eugenismo.

O cientismo ou cientificismo é uma atitude ideológica segundo a qual a ciência dá a conhecer as coisas como são, resolve todos reais problemas da humanidade e é suficiente para satisfazer todas necessidades legítimas da inteligência humana. Segundo essa ideologia, os métodos científicos devem ser estendidos sem exceção a todos os domínios da vida humana. Muito em voga no século XIX, volta com força no início do XXI.

Duas dimensões, muito simplificadamente, fundam o princípio de humanidade: limite e vínculo. O humano é capaz de autolimitar-se, de forma estruturante. Um pai não faz sexo com sua filha. O humano proíbe o incesto. Isso, por exemplo, é um eixo estruturante face a animalidade. Essa limitação, como tantas outras ontologicamente instaladas no humano, também tem a ver com a noção de vínculo. Não sou filho do nada. Tenho ascendentes e descendentes. Alguns psicanalistas chamam esse vínculo de inserção genealógica, sem a qual perde-se a identidade humana. Herda-se das gerações passadas a vida individual, no sentido genético, e também a vida social. A linguagem é talvez um dos exemplos mais claros dessa vinculação relacional que nos faz homem pelo outro. Ao mesmo tempo, as ideologias do momento, como o cientismo, podem e tentam subverter o princípio de humanidade, visando lucro e poder.
Um exemplo da ameaça está na clonagem humana e nos chamados genodólares. O problema não está em gerar-se uma pessoa idêntica a outra, como a mídia apresenta a questão, explorando tudo, menos o essencial dessa hipótese. A humanidade já conhece a duplicação genética nos gêmeos idênticos ou homozigóticos. A questão é outra. O clone de uma pessoa será seu irmão e simultaneamente seu filho. Uma ruptura do fluxo em cascata das gerações, como na bela expressão de Tertuliano, com conseqüências inimagináveis para nossa humanidade. A clonagem é um incesto consigo mesmo. Um incesto ao quadrado! Quando alguém pratica o incesto é condenado, no direito, por crime contra a genealogia. É igual na clonagem.

Só que com muitos cúmplices a serem levados as barras da Justiça.
Ao proibir a clonagem humana e o uso de embriões em pesquisas, os países impõem limites necessários a pesquisas e desvarios de alguns cientistas. Em nome de uma ideologia cientista que daria à ciência a liberdade de fazer o que quiser, eles reagem. E têm boa mídia. Alguns cientistas - manipuladores de embriões e opiniões - também vendem uma utopia gênica, reparadora e sanitária: doenças serão curadas, bebês serão geneticamente perfeitos, acabará a dor e o sofrimento. Quando a ciência deixa de ser descritiva e explicativa para tornar-se normativa, a sociedade deve reagir. O problema não está nas descobertas científicas e sim nas aplicações e na ideologia delas derivada. O conhecimento científico deve ser defendido mas é fundamental distinguir sempre a ciência de sua ideologia. Por isso, países recusam pesquisas para o desenvolvimento de armas atômicas, sonho de alguns cientistas. Simplificando: não cabe à ciência dizer como deve ser nossa sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência e as pesquisas que deseja e aprova.

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