![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| |
|
|
|
|
|
|
A história da ciência e da tecnologia no Brasil é recente, tem pouco mais de 60 anos. Graças à criatividade do pesquisador brasileiro, o país conseguiu superar décadas de atraso e passou a ocupar o 17.º lugar no ranking mundial.
Gremski - A era da informática, que começou no final dos anos 40 com o primeiro computador, sucedendo a era industrial, tinha a previsão de durar pelo menos um século. Mas chegou ao ano 2000 e atingiu o seu ápice. A informática continua se desenvolvendo, mas é um coadjuvante de todo esse complexo que existe em termos tecnológicos no mundo. O que está vindo agora é a era da biotecnologia, que começou quando desvendamos o genoma humano, e a era da ciência dos materiais, em que temos condições de construir molecularmente um material de acordo com as nossas necessidades. “Lá na ponta haverá certamente a união da biotecnologia com a ciência dos materiais. Ora, é a junção da matéria com a vida e isso evidentemente vai originar coisas fantásticas daqui para frente”. Até agora, o homem utilizou os minerais conforme suas propriedades. As propriedades do ferro, por exemplo, me dizem onde ele pode ser aproveitado. A nova ciência dispensa o material existente e produz aquilo que ela precisa. Essas duas ciências estão inaugurando a era dos biomateriais, pois lá na ponta haverá certamente a união entre as duas: a biotecnologia, com o conhecimento dos fenômenos da vida, das células, do genoma, do DNA, da proteômica, etc, ligada à ciência dos materiais, que tem o domínio das leis físicas dos materiais. Ora, é a junção da matéria com a vida e isso evidentemente vai originar coisas fantásticas daqui para frente. Ciência e Fé - O que essa revolução tecnológica trará de benefícios para o homem? Gremski - Grandes avanços em toda a Medicina. Não teremos mais a Medicina curativa, mas a preventiva. Saberemos tudo sobre uma criança com algumas semanas de vida, mesmo antes dela nascer, em termos de perspectivas de doenças, o seu QI, se aos 30 anos terá propensão de desenvolver um câncer ou outro problema. Vamos desenvolver processos de tratamento de doenças como o câncer a partir do conhecimento biotecnológico. “Como a genética de um paciente para outro é muito diferente, chegaremos a produzir medicamentos de acordo com o genoma de cada um”. Como a genética de um paciente para outro é muito diferente, chegaremos a produzir medicamentos de acordo com o genoma de cada um. No lado da agricultura, todos os agrotóxicos, com certeza, serão substituídos pelo domínio do genoma da planta. Por mais que as pessoas discutam, os transgênicos serão fatalmente o caminho para aumentar a produtividade e solucionar a fome. Essa fase está começando, tem uma grande perspectiva, e deve durar muito, no mínimo uns 100, 150 anos. Nesse aspecto, é preciso que os países e as pessoas que fazem a política científica tenham a percepção disso. A tendência é que haja um desenvolvimento muito rápido e quem ficar para trás realmente vai pagar caro por esse atraso. Ciência e Fé - O senhor considera que o Brasil está preparado para ingressar nessa nova era? Gremski - No Brasil não temos consciência da importância da tecnologia para o desenvolvimento, nem no próprio governo, nem em segmentos organizados da sociedade, que deveriam exigir políticas nesse sentido. Isso porque nossa ciência e tecnologia começaram muito tarde. A primeira universidade brasileira que se preocupou com pesquisa foi a de São Paulo (USP), em 1934. A Federal do Paraná surgiu em 1912, mas era uma escola de ensino, nunca pesquisou nada até a década de 60. Nos Estados Unidos, no final do século 19, já havia mais de 100 Universidades. Só em 1951 surgiu o CNPq e a CAPES, mas por decisão individual das pessoas. Não foi política do governo. Na década de sessenta e setenta, surgiram os Fundos Nacionais de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, como a FINEP (Financiadora Nacional de Estudos e Projetos Especiais). Depois, na década de oitenta, formou-se o Ministério da Ciência e Tecnologia e, na década de noventa, boa parte dos Estados criou suas fundações de amparo à pesquisa, como a Fundação Araucária, no Paraná. Ciência e Fé - Quando começamos efetivamente a produzir ciência e tecnologia no Brasil? Gremski - A partir da década de setenta. Porque até então, com algumas exceções, como as federais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul e a USP, todas as demais universidades públicas brasileiras eram grandes "colegiões". Só na década de setenta, época do regime militar, com a idéia de que o Brasil deveria se transformar numa potência mundial, é que se decidiu investir em pós-graduação e em pesquisa. No início dos anos setenta tínhamos cerca de 200 cursos de pós-graduação. No final da década de oitenta e começo dos anos noventa, tínhamos perto de mil. Hoje temos mais de 2.100 programas de pós-graduação (mestrado e doutorado). Em quarenta anos houve uma explosão de ciência e tecnologia no Brasil. Temos hoje seguramente a melhor pós-graduação da América Latina e uma das melhores do mundo. “Temos seguramente a melhor pós-graduação da América Latina e uma das melhores do mundo”. Não vamos rivalizar com os Estados Unidos, Alemanha, França, mas em relação aos países do Leste Europeu, à China, estamos muito melhor. O Brasil ocupa o 17º lugar na produção científica do mundo, produz 12 mil artigos científicos indexados por ano. Isso, sem dúvida, mostra uma vitalidade do pesquisador brasileiro fora do comum. O pesquisador brasileiro é um herói nacional. Então, hoje nós somos um país que cientificamente está muito bem. Ciência e Fé - Por que todo esse conhecimento não se traduz em riqueza para o país? Gremski - Isso acontece porque a nossa ciência e tecnologia desenvolveram-se prioritariamente nas universidades e a universidade não tem o hábito - e isso é natural, ela não tem culpa disso - de ir com a sua pesquisa até a sociedade. O pesquisador está interessado em publicar o trabalho, porque precisa entregar um relatório no final do ano, demonstrar produtividade, para continuar recebendo o dinheiro das agências financiadoras, senão, não consegue verbas para as suas pesquisas. Agora, as agências não querem nem saber se esses artigos tiveram alguma repercussão dentro do país, se foram transformados em uma patente, se dessa pesquisa surgiu algum produto que repercutiu em termos de melhoria na exportação. Querem saber se foi publicado. Aqui está o limite da ciência brasileira. E, para chegar ao desenvolvimento sustentável, esse limite tem que ser ultrapassado. “Produzimos muita ciência, mas pouquíssima inovação tecnológica”. Formamos 25 mil mestres e oito mil doutores por ano e toda essa massa vai para a universidade. Não vai para os institutos de pesquisa, nem para a indústria. 95% de toda pesquisa brasileira é produzida nas universidades, que não têm vocação para inovação. Produzimos muita ciência, mas pouquíssima inovação tecnológica. Produzimos 12 mil artigos científicos por ano, a mesma quantidade publicada pela Coréia do Sul, só que, enquanto o Brasil registrou menos de 100 patentes nos Estados Unidos (o registro de patente nos EUA é o parâmetro mundial da ciência aplicada), em 2004, a Coréia registrou mais de cinco mil. Ciência e Fé - O que fazer para transformar nosso patrimônio científico em melhor qualidade de vida para a população? Gremski - É preciso formar um triângulo virtuoso entre a universidade, que forma recursos humanos e produz o conhecimento básico, os governos, que teriam que identificar as prioridades do país e das suas regiões, e o empresariado, que deveria ir à universidade e investir nessas pesquisas. As indústrias teriam que contratar os doutores que formamos. Eles não têm para onde ir, porque as universidades também não têm vagas para todos. A Coréia é um bom exemplo de uma relação eficiente entre indústrias, universidades e institutos de pesquisa, e também de uma política governamental rigorosa. Na década de sessenta, as universidades coreanas também se recusavam a ir até à indústria. “O
governo coreano identificou oito prioridades nacionais e criou Chegando à percepção de que seria difícil mudar essa postura, o governo coreano identificou oito prioridades nacionais e criou fortes institutos de pesquisa para cada uma delas. E estimulou que esses institutos interagissem com as indústrias. Foi uma explosão tecnológica. Isso foi o que fez com que a Coréia do Sul, com 96% de analfabetos em 1945, dominada pelo Japão desde o começo do século vinte, se tornasse um país de primeiro mundo. Hoje, as universidades são as maiores parceiras dos institutos de pesquisa. A Coréia é só um exemplo, mas existe Taiwan, Irlanda, Espanha, Finlândia e outros países que seguiram essa política. Vamos ressaltar uma coisa fundamental: todos esses países também investiram muito em educação. Sem educação, caímos numa situação como a da Índia, que investe muito em tecnologia, compete com os Estados Unidos na área da informática, exporta muito, mas o seu povo está pobre e excluído. Sem investimentos em educação, podemos até ter pólos de desenvolvimento tecnológico, mas continuaremos a ter problemas de saúde, segurança e desemprego, porque toda essa tecnologia faz com que a mão-de-obra não especializada fique inteiramente fora do mercado.
Gremski - O Paraná está bem, mas poderia estar muito melhor. Ele é privilegiado porque, ao contrário de outros Estados brasileiros, praticamente todo o seu território é coberto por instituições públicas de ensino superior. Em Curitiba temos a Federal do Paraná e agora o CEFET. Ponta Grossa, Londrina, Maringá, Cascavel, Guarapuava têm universidades estaduais. O lado ruim é que não temos universidades federais em maior número, o que faz com que o Estado tenha que gastar muito com ensino superior, quando a sua prioridade seria o ensino básico e médio. Infelizmente, nossos políticos, na época em que era possível trazer universidades federais para o Paraná, não trabalharam nesse sentido. “Infelizmente,
nossos políticos, O Rio Grande do Sul é bem servido de instituições de ensino federais, tanto que só há dois anos construiu a primeira universidade estadual. Minas Gerais tem 12 federais. Então, para o Paraná, isso é um problema, mas quePode ser virado a seu favor. O ideal seria que universidades como as de Londrina e Maringá, que são de excelente nível, não devendo nada em termos de qualidade a qualquer universidade federal brasileira, participassem mais do desenvolvimento sustentável de suas respectivas regiões. O governo do Estado precisa investir maciçamente na questão da relação dessas instituições, que também produzem muita pesquisa, com o entorno empresarial. Sabemos que há algumas iniciativas, mas é preciso intensificar esse trabalho. Ciência e Fé - Quais as prioridades e áreas de excelência que o senhor identifica como potenciais motores de desenvolvimento sustentável no Paraná? Gremski - A vocação do Paraná é claramente agroindustrial. Temos uma indústria de vários níveis e uma agricultura que está se modernizando rapidamente, mas até que ponto elas estão caminhando ao lado da ciência e da tecnologia que produzimos? Essa é uma questão que o governo deve analisar com carinho.Temos pessoas preparadas e trabalhos excelentes nas nossas universidades. Na Federal do Paraná, Londrina e Maringá, a área biotecnológica agrícola é fantástica. Acabamos de desvendar o genoma de bactérias fundamentais para a agricultura um paranaense, trabalho realizado por um grupo de cientistas, financiados pelo governo do Estado (o Genopar). A mesma competência que São Paulo mostrou com o genoma do amarelinho, que ataca os laranjais, nós mostramos aqui com as bactérias que têm a ver com a nitrogenação que atinge as culturas da soja, algodão e café. Ora, este é um exemplo de que, quando o Estado quer induzir, ele consegue. Maringá está atraindo indústrias bioquímicas e de fármacos, tornando-se um pólo de biotecnologia, por causa da Universidade de Maringá, com suas pesquisas na área veterinária e farmacêutica. O Instituto de Biologia Molecular do Paraná faz um trabalho primoroso enfocando a biotecnologia relacionada com controle de parasitas. Na PUC fazemos biotecnologia em terapia celular. “Temos a indústria automobilística, que veio, se instalou, mas trouxe tecnologia prontinha, fechada, encaixotada”. Na Federal do Paraná, além da área de genômica, existem importantes estudos sobre venenos, estimulados pelos investimentos nas pesquisas sobre a aranha marrom. A Embrapa realizou um trabalho maravilhoso para melhorar a produtividade da nossa semente de soja, que hoje é a mais produtiva do mundo. É preciso ainda identificar outros potenciais, como o da cerâmica, na região de Campo Largo, e ver o que está sendo feito para melhorar os padrões de qualidade. Temos a indústria automobilística, que veio, se instalou, mas trouxe tecnologia prontinha, fechada, encaixotada. Temos que rever isso e exigir que as multinacionais que aqui se instalam repassem parte da sua tecnologia, como acontece em outros países como a China, Coréia e Japão. |
|